Um dia chegaremos lá...

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A China acabou de aprovar um documento de 141 páginas com metas para grãos, energia, cobertura florestal e outros indicadores objetivos até 2030. O Brasil, no mesmo período, está ocupado descobrindo qual apresentador de podcast vai ser candidato à vice-presidência.

Não é hipérbole: o 15º Plano Quinquenal chinês tem uma tabela com 20 indicadores que direcionam todo o país. Cada uma das metas recebe um rótulo de força: vinculante (约束性) é meta obrigatória, cobrada como critério de desempenho de gestores públicos, reservada a áreas tratadas como linha vermelha — meio ambiente, produção de grãos, escolaridade mínima; já indicativo (预期性) é uma projeção orientadora, sem penalidade formal se não for atingida, usada para tudo que depende mais da conjuntura de mercado — crescimento do PIB, inovação, emprego. Das 20 metas do plano, apenas 7 são vinculantes, e a concentração delas em ecologia e segurança alimentar mostra onde o Estado chinês decidiu não abrir mão de controle direto, deixando o resto como direção a perseguir.

Parece fácil, mas o nosso equivalente mais próximo é o grupo de WhatsApp da família brigando sobre quem começou a polarização — que, cá entre nós, também tem seus próprios indicadores vinculantes ("nunca mais faço churrasco com o cunhado") e indicativos ("ano que vem eu voto certo, juro").

Um ponto que chama a atenção é a diferença de escala temporal no planejamento do país. Lá, planejam a taxa de urbanização de 2030. Aqui, mal sabemos o que vai acontecer no próximo debate — se vai ter climão, se alguém vai sair no tapa, dar uma cadeirada ou algo mais mortal, se o moderador vai sobreviver. Nosso horizonte de planejamento estratégico nacional tem, historicamente, a duração de um Big Brother: uns cem dias de "vota 13", "vota 22" e depois um blackout até a próxima edição. Nada de indicadores facilmente verificáveis.

E o pior é que nem escolhemos entre propostas ou planos de governo — escolhemos entre torcidas. Ninguém debate política industrial, meta de reindustrialização ou taxa de investimento em P&D (que, aliás, spoiler do nosso comparativo: 1,19% do PIB, enquanto os chineses giram perto de 2,6%). Debatemos se fulano é "do mal" ou se beltrano é "do bem", categorias extremamente úteis para prever absolutamente nada sobre o PIB per capita de 2030.

Convenhamos, também, que comparar os dois sistemas é um pouco injusto — tipo comparar o cardápio de um restaurante à la carte com o rango do quartel. O Partido Comunista da China consegue um plano de cinco anos com meta vinculante de escolaridade porque não precisa, a cada dois anos, convencer 150 milhões de eleitores de que vale a pena continuar no plano. Planejamento de longo prazo é mais fácil quando ninguém pode te desalojar no meio do capítulo 8. A China troca de plano quinquenal; o Brasil troca de ministro da Fazenda — às vezes no mesmo governo, às vezes três vezes na mesma legislatura.

Então, será que um dia chegaremos lá? Depende do "lá". Se "lá" for "ter um Estado capaz de sustentar política industrial e meta de longo prazo além do próximo pleito" — a resposta é: talvez. Com reforma administrativa, orçamento vinculado e um pouco menos de excitação binária a cada outubro par. Agora, se "lá" for "aprovar metas de emissão de carbono sem que vire hashtag de bolha", aí já é sonho mais ambicioso que trem-bala de 400 km/h.

No fim, a piada é triste e amarga: temos um agro que bate recorde de safra atrás de recorde de safra (352 milhões de toneladas na 24/25, valha o dado) na base do jeitinho e da resiliência do produtor — imagina se isso viesse acompanhado de um planejamento de infraestrutura, logística e P&D agrícola que também pensasse em 2030, e não só na próxima colheita. Temos estrutura para sonhar grande. Só falta destravar do modo "eleição bienal" para o modo "país".

Um dia, chegaremos lá.

 

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