Por: Ligia Maura Costa, Ana Maria Malik, Luciana Stocco Betiol
Poucas relações humanas dependem tanto da confiança quanto a que existe entre médico e paciente. Quem entra num consultório, num hospital raramente tem condições técnicas de avaliar, sozinho, a qualidade de um diagnóstico, a necessidade de um exame ou a adequação de um tratamento. O sistema funciona porque a confiança o sustenta: confiança no conhecimento do profissional, na instituição e na premissa de que as decisões serão tomadas no melhor interesse de quem busca cuidado. Esse é um dos ativos mais valiosos da saúde — e um dos mais frágeis. Quando ele se rompe, não é apenas uma transação que falha: é a própria lógica do cuidado que se desorganiza.
Por isso merecem atenção os resultados do relatório Indicadores de Percepção da Corrupção no Setor da Saúde 2026, elaborado pelo FGVethics, pelo FGVsaúde e pelo Instituto Ética Saúde. A pesquisa ouviu médicos, enfermeiros, auditores, representantes da indústria, distribuidores, hospitais, operadoras, organizações sociais e pacientes, um retrato amplo de quem vive o sistema por dentro. E os números incomodam: mais de 65% dos respondentes classificaram a corrupção na saúde brasileira como alta; mais de 20%, como moderada. Quase nove em cada dez participantes enxergam o problema como relevante.
Mais grave: o diagnóstico não distingue público de privado. Mais de 90% percebem corrupção nas instituições públicas de saúde, e pouco mais de 88% identificam o mesmo no setor privado — hospitais, clínicas, operadoras, indústria e distribuidores. A constatação reorganiza o debate. A discussão deixou de ser sobre a existência do problema. A pergunta agora é outra, e mais desconfortável: por que a corrupção persiste como fenômeno estrutural mesmo depois de décadas de reformas legislativas, novas regulamentações e a criação de órgãos de controle?
Uma pista vem de um lugar inesperado. Em Dom Quixote, Cervantes narra a história de um homem que dedica a vida a combater o que acredita serem gigantes, e que, no episódio mais célebre, investe a galope contra moinhos de vento. A força da cena não está no erro de percepção do personagem, mas na pergunta que ela deixa no ar: quantas vezes concentramos energia nos sintomas enquanto ignoramos as causas? É exatamente essa a provocação que o relatório nos oferece.
A pesquisa não se limitou a medir percepções abstratas; investigou experiências concretas. Mais de 60% dos respondentes já ouviram, testemunharam ou vivenciaram episódios de corrupção. As situações mais frequentes incluem favorecimento em contratações, conflitos de interesse não gerenciados, influência indevida em prescrições, exames solicitados sem justificativa técnica, direcionamento comercial em órteses, próteses e materiais especiais (OPME), fraudes em reembolsos e irregularidades em licitações.
E aqui está a diferença fundamental em relação a outros setores. Quando há fraude numa licitação ou desvio num contrato, o prejuízo é financeiro e, em alguma medida, quantificável. Na saúde, os efeitos alcançam diretamente o corpo do paciente. Uma prescrição distorcida por interesses inadequados, um procedimento desnecessário, um conflito de interesses ignorado — tudo isso compromete a qualidade assistencial, a eficiência do sistema e, no limite, vidas. Não por acaso, os próprios respondentes associam a corrupção a desperdício de recursos, aumento de custos, piora do atendimento, atraso no acesso a tratamentos e realização de procedimentos sem indicação clínica. A corrupção na saúde não é abstrata. Ela tem consequências sobre quem está na ponta.
O dado mais esperançoso do relatório vem das soluções apontadas pelos próprios participantes. Questionados sobre prioridades, eles convergem de forma notável: fortalecimento dos sistemas de monitoramento e controle, mais transparência e prestação de contas, treinamentos em ética, integridade e compliance, proteção efetiva aos denunciantes e mecanismos permanentes de fiscalização. A resposta é reveladora justamente pelo que deixa de fora. Os participantes não apontam a falta de leis como obstáculo principal, nem pedem novos órgãos burocráticos. Falam de governança, prevenção, cultura e formação.
Há, nesse diagnóstico, uma mensagem incômoda dirigida a universidades, hospitais e entidades profissionais. Quando os participantes colocam treinamentos em ética e compliance entre as prioridades, reconhecem que a prevenção começa na formação. Durante décadas, a educação dos profissionais de saúde se concentrou, com mérito, nos aspectos clínicos.
E aqui o próprio ecossistema que produziu o diagnóstico oferece parte da resposta. O Compliance4Health, iniciativa do FGVethics e do FGVsaúde em parceria com o Instituto Ética Saúde, disponibiliza gratuitamente módulos educacionais sobre corrupção e anticorrupção, compliance e cultura organizacional, pensados para integrar os currículos das escolas de medicina. Mais do que material de consulta, o programa inclui um treinamento gratuito dirigido a docentes, em particular de escolas de medicina, reconhecendo que não basta produzir conteúdo: é preciso preparar quem vai ensiná-lo. É a tradução prática da tese que o relatório sugere: a integridade institucional pode, e deve, ser ensinada. Escolas de administração e gestão, como a FGV EAESP, têm contribuição direta a dar nesse esforço.
Nenhum sistema de controle será suficiente se a cultura organizacional tolerar desvios. Nenhuma fiscalização será plenamente eficaz se os profissionais não souberem reconhecer um conflito de interesses quando ele aparece. Nenhuma legislação produzirá resultados duradouros sem uma cultura de integridade capaz de orientar as decisões do dia a dia.
Essa talvez seja a principal lição do relatório. Os números revelam uma percepção amplamente disseminada de corrupção estrutural na saúde. Mas os próprios especialistas apontam um caminho claro: mais monitoramento, mais transparência, mais proteção ao denunciante, mais governança e mais educação em ética e compliance. Iniciativas como o Compliance4Health mostram que esse caminho já começou a ser trilhado — falta escalá-lo. Na medicina, prevenir costuma ser mais eficaz do que remediar. No combate à corrupção, a regra não é diferente. Resta saber se o setor está disposto a seguir a própria receita.
Saiba mais sobre o Compliance4Health: https://eaesp.fgv.br/centros/centro-estudos-etica-transparencia-integridade-e-compliance/projetos/compliance4health
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