O Clima Mudou: Sua Estratégia de Negócios Também?

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Marcelo Nascimento Marcusso, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP, Executivo no Setor de Transporte Aéreo

Esqueça o conceito de que mudança climática é apenas uma questão ambiental. A verdade é que ela se transformou em uma das maiores transições de mercado. Como em toda transição de mercado, haverá ganhadores e perdedores. O maior risco para o seu negócio não é a mudança climática, mas sim uma estratégia que não considere os aspectos climáticos. Neste novo mercado, sua estratégia de negócio será a vencedora ou a perdedora?

Por muito tempo, o tema do clima foi relegado à caixinha ambiental das empresas, em uma posição distante das questões estratégicas. Mas a realidade é que os sinais dessa transição de mercado são claros e tangíveis: impactos nos preços da energia, na disponibilidade de matérias-primas, nos custos de logística e em diversos outros aspectos do negócio. A questão não é mais se essa realidade afetará ou não sua operação, mas se e como você vai transformá-la em vantagem competitiva.

Se olhamos para a mudança climática não apenas pelo aspecto ambiental, mas como um tema de mercado, então os stakeholders são os jogadores-chave nessa nova arena de negócios. O sucesso de qualquer negócio depende de uma rede complexa de relações: clientes, funcionários, fornecedores, investidores e reguladores. São o que R. Edward Freeman chama de "stakeholders" da organização. Cada um deles é afetado pela mudança climática e, ao mesmo tempo, pode influenciar diretamente o caminho da sua empresa.

Os clientes do seu negócio estão cada vez mais exigentes, buscando produtos e serviços mais sustentáveis. Seus investidores e financiadores, por sua vez, monitoram o desempenho Ambiental, Social e Governança (Environmental, Social and Governance - ESG) e podem direcionar capital para empresas que veem oportunidades nessa transição. Os Green Bonds estão se tornando cada vez mais comuns e buscam apoiar os emissores no financiamento de projetos sustentáveis e que promovam as práticas ESG nas empresas financiadas. Os governos e organismos internacionais estão criando novas regras do jogo, com metas de emissão e mercados de carbono que alteram a competitividade.

Pensando em todos os stakeholders deste novo cenário derivado das mudanças climáticas, as empresas precisam ir além do cumprimento regulatório mínimo e buscar criar valor para todos os envolvidos. Essa abordagem não é apenas ética, mas sim uma estratégia inteligente e que busca gerar vantagem competitiva, ao mesmo tempo que minimiza o impacto no meio ambiente. Ao engajar seus stakeholders ativamente, a empresa transforma o que antes pareciam restrições em grandes oportunidades em novos mercados de carbono, em tecnologias avançadas e em produtos com menor pegada de carbono. Envolver seus principais stakeholders permite tomar melhores decisões, promover confiança e gerar valor para todos.

Para começar a navegar nesta transição de mercado, a jornada da sua empresa pode ser guiada por alguns simples passos. Mapear a pegada de carbono da sua empresa e de seus fornecedores é um primeiro passo para entender como navegar nessa transição de mercado. É preciso compreender como essa exposição à pegada de carbono se traduz em riscos e oportunidades para sua empresa, investidores, fornecedores e clientes.

Com base nesse mapa da pegada de carbono, é possível focar em ações para reduzir emissões e avaliar oportunidades. Isso não significa só otimizar processos internos, mas também inovar e desenvolver soluções de baixo carbono que atendam às novas demandas de seus clientes, envolvendo fornecedores e funcionários nesse processo.

Ao avançar nas práticas de redução da pegada de carbono do seu negócio, a empresa também se habilita para ter um lugar à mesa nas discussões sobre as novas regras do jogo. Sua empresa pode influenciar a forma como o mercado se desenha, mas para isso é preciso ter credibilidade e competências, que vêm da ação prévia e do engajamento legítimo com governos, reguladores e sociedade.

Portanto, a pergunta não é mais se você se importa com o meio ambiente. A pergunta é: você está pronto para o novo mercado? Ter uma estratégia que considere aspectos relacionados à mudança climática não é opcional; é uma obrigação essencial para a gestão, que deve avaliar as oportunidades e posicionar a empresa para aproveitá-las ao máximo e de forma socialmente responsável. O clima mudou e o mercado, também. Chegou o momento de você se perguntar: sua estratégia também já mudou?

Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.

Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão