Comunidades amazônicas são protagonistas da sustentabilidade, aponta pesquisa

Comunidades amazônicas e sustentabilidade: pesquisa mostra que povos locais ajudam a conservar a floresta, mas recebem pouco do valor gerado
Resumo da pesquisa:
  1. Comunidades amazônicas exercem papel essencial na conservação da floresta e na produção sustentável, mas ainda recebem uma parcela reduzida dos benefícios econômicos.
  2. Organizações locais e ONGs fortalecem a capacidade das comunidades para enfrentar os impactos das mudanças climáticas e do desmatamento.
  3. A pesquisa mostra que o conhecimento tradicional dos moradores da Amazônia é indispensável para tornar as cadeias produtivas mais sustentáveis.
Pesquisador(es):

Lucas Gabriel Bezerra Lima 

Luciana Marques Vieira 

Quando se fala em produtos feitos com ingredientes da Amazônia, como óleos e sementes usados pela indústria de cosméticos, normalmente a atenção se volta às empresas que chegam ao mercado. No entanto, uma pesquisa recente mostra que a verdadeira base dessa produção está nas comunidades amazônicas locais. Elas preservam a floresta, dominam conhecimentos tradicionais e desenvolvem estratégias para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Apesar disso, elas ainda recebem uma parcela limitada do valor gerado por essa atividade econômica. 

O estudo mostra que tornar uma cadeia produtiva realmente sustentável depende não apenas das empresas, mas também do reconhecimento do papel das populações que vivem na floresta. Afinal, são elas que conhecem o território, adaptam suas práticas às mudanças ambientais e ajudam a manter a biodiversidade que abastece diferentes mercados. 

Pesquisadores da FGV EAESP acompanharam comunidades fornecedoras de sementes de andiroba localizadas na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará. O estudo reuniu entrevistas, grupos focais, observações em campo e análise de documentos envolvendo 17 participantes ligados à cadeia produtiva.

A pesquisa foi conduzida por Lucas Gabriel Bezerra Lima e Luciana Marques Vieira e publicada na RAC (Revista de Administração Contemporânea). O trabalho integra o projeto Amazônia +10, financiado pela Fapesp. Investiga como empresas, cooperativas, organizações da sociedade civil e comunidades locais dividem responsabilidades, poder de decisão e benefícios econômicos na produção baseada na biodiversidade amazônica.

O conhecimento das comunidades amazônicas fortalece a conservação da floresta

Um dos principais resultados da pesquisa é mostrar que as comunidades amazônicas não ocupam uma posição passiva nas cadeias produtivas. Pelo contrário, elas desenvolvem soluções para lidar com os efeitos da seca, das mudanças climáticas e do desmatamento, utilizando conhecimentos acumulados ao longo de gerações.

Os pesquisadores observaram, por exemplo, que organizações da sociedade civil e cooperativas ajudam a ampliar esse trabalho. Elas fazem isso ao oferecer capacitação, facilitar o acesso a recursos e disseminar práticas voltadas à conservação da floresta. Essas iniciativas fortalecem a produção sustentável e contribuem para que a biodiversidade continue gerando oportunidades econômicas.

Ao mesmo tempo, o estudo identificou que o poder de decisão permanece concentrado nas empresas que lideram a cadeia produtiva. Segundo os relatos das comunidades, o preço pago pelas sementes costuma ser definido de forma unilateral e nem sempre considera o esforço necessário para a coleta, os riscos enfrentados pelos trabalhadores e os custos do transporte. 

 Um novo olhar sobre a sustentabilidade

Além de evidenciar os desafios enfrentados pelas comunidades amazônicas, a pesquisa propõe uma mudança de perspectiva. Em vez de enxergar os moradores locais apenas como fornecedores de matérias-primas, os pesquisadores defendem que eles sejam reconhecidos como agentes capazes de influenciar a forma como essas cadeias produtivas funcionam.

Esse protagonismo aparece na capacidade das comunidades de adaptar práticas produtivas às mudanças ambientais, compartilhar conhecimentos tradicionais e construir soluções coletivas para preservar os recursos naturais. Segundo os autores, esse papel deve ser parte das estratégias de empresas, governos e organizações que atuam na Amazônia. 

Quando comunidades locais participam das decisões e recebem uma parcela mais justa dos benefícios gerados, aumentam as chances de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e redução das desigualdades.

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