- Discursos que combinam teorias da conspiração e crenças espirituais ganharam espaço em períodos de crise, especialmente após 2008 e durante a pandemia.
- No caso brasileiro analisado, esses discursos se articularam com ideias econômicas e influenciaram debates sobre reformas e políticas públicas.
- Os pesquisadores identificam uma tensão: enquanto esses discursos podem reforçar determinadas políticas orientadas pelo mercado, também podem enfraquecer o uso de indicadores e evidências na administração pública.
Crises econômicas, pandemias e mudanças sociais costumam aumentar a busca por explicações para problemas complexos. Nesse contexto, discursos que combinam teorias da conspiração, crenças espirituais e interpretações políticas ganharam espaço em diferentes países. Uma pesquisa publicada na revista Economy and Society analisa teorias da conspiração na política, como esse fenômeno se desenvolveu no Brasil e quais efeitos pode produzir sobre a economia e a administração pública.
O estudo é de Daniel Pereira Andrade e Guilherme Casarões, da FGV EAESP, em parceria com Letícia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Mariana Côrtes, da Universidade Federal de Uberlândia. A pesquisa utiliza métodos mistos, combinando análise de conteúdos digitais, discursos, textos de atores relevantes e pesquisas socioantropológicas e computacionais sobre grupos públicos em redes como WhatsApp e Telegram. O recorte considera principalmente o período entre 2018 e 2022.
Teorias da conspiração na política ganham novas formas
Os pesquisadores chamam de "conspiritualidades" os discursos que misturam explicações conspiratórias com crenças espirituais. Em geral, eles apresentam crises e acontecimentos políticos como resultado da ação de forças ocultas ou inimigos que estariam agindo secretamente. Além disso, valorizam experiências pessoais, intuições e relatos alternativos em lugar de evidências produzidas por instituições científicas ou órgãos públicos.
No Brasil, o estudo identifica a combinação de três elementos: discursos religiosos, ideias associadas a determinados círculos intelectuais e teorias da conspiração disseminadas no ambiente digital. Segundo os autores, essa articulação ajudou a criar novas formas de interpretar acontecimentos políticos e econômicos, especialmente em um período marcado por crises e transformações.
Um dos resultados mais relevantes está na relação desses discursos com a administração pública. De acordo com a pesquisa, quando explicações conspiratórias passam a orientar decisões do Estado, indicadores e dados utilizados para avaliar políticas podem perder espaço. O artigo cita, entre outros exemplos, informações relacionadas à violência doméstica, gravidez precoce, desmatamento, mudanças climáticas e mortes por Covid-19.
Entre mercado, crenças e decisões públicas
A pesquisa aponta, portanto, uma relação ambígua. Por um lado, discursos sobre inimigos ocultos podem ser usados para justificar reformas econômicas e defender determinadas concepções de mercado. Por outro, quando esse modo de interpretar a realidade chega à administração pública, ele pode entrar em conflito com práticas de gestão baseadas em indicadores, avaliação de resultados e critérios de eficiência.
Assim, mais do que investigar uma disputa entre grupos políticos, o estudo chama atenção para uma transformação na maneira como fatos, crises e decisões públicas podem ser interpretados. Para os autores, compreender essa dinâmica ajuda a analisar como informações, crenças e discursos políticos se combinam em momentos de instabilidade e podem influenciar a relação entre sociedade, mercado e Estado.
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Nota 2: imagem criada por inteligência artificial.
