- Modelos de economia circular não podem ser simplesmente transferidos das empresas para as comunidades.
- Conhecimento local é estratégico: comunidades utilizam conhecimentos tradicionais e do território para identificar oportunidades, desenvolver capacidades para economia circular e lidar com mudanças ambientais.
- A organização coletiva faz diferença: cooperativas e associações ajudam as comunidades a negociar, experimentar novas práticas e fortalecer sua autonomia.
- O apoio externo ajuda a fortalecer as capacidades, não substituir: empresas, ONGs e governos podem contribuir com conhecimento, infraestrutura e acesso a mercados, desde que respeitem a capacidade de decisão local.
- Parcerias entre empresas e comunidades devem ser avaliadas para além do valor comercial e econômico. As empresas também devem considerar se essas relações fortalecem a governança comunitária, reconhecem os serviços ecossistêmicos e apoiam a regeneração ecológica.
Este artigo examina como organizações de base comunitária desenvolvem capacidades dinâmicas para se engajar em iniciativas de economia circular, por meio de um estudo de casos múltiplos em duas regiões da Amazônia brasileira.
A economia circular na Amazônia pode ir muito além da reciclagem ou do reaproveitamento de materiais. Em comunidades que dependem diretamente da floresta e de outros recursos naturais, ela também envolve encontrar formas de produzir e gerar renda sem comprometer os ecossistemas que sustentam a vida local. Uma pesquisa recente mostra que conhecimento tradicional, organização coletiva e autonomia são elementos importantes para organizações comunitárias desenvolvam capacidades para que essas iniciativas avancem.
Para entender esse processo, Marc Picavet, Michel Xocaira Paes e Jose A. Puppim de Oliveira (FGV EAESP) analisaram organizações comunitárias de duas regiões da Amazônia brasileira: o Médio Juruá, no Amazonas, e o Baixo Tapajós, no Pará. O estudo foi publicado na revista Organization & Environment.
A pesquisa qualitativa combinou três visitas de campo, 74 entrevistas individuais e em grupo, análise de documentos e observações. A comparação entre os dois territórios permitiu identificar diferentes caminhos para o desenvolvimento de iniciativas de economia circular.
Os pesquisadores observaram três movimentos principais. Os resultados revelam que a capacidade de identificação de oportunidades (sensing) fundamenta-se frequentemente em conhecimentos coletivos, tradicionais e vinculados ao território; a capacidade de aproveitamento de oportunidades (seizing) é impulsionada por necessidades da comunidade e pela experimentação com conhecimentos externos; e a reconfiguração (reconfiguring) ocorre por meio de arranjos de governança coletiva, internalizando práticas de economia circular e preservando a autonomia. Este artigo amplia a ideia de capacidades dinâmicas para além do contexto empresarial, demonstrando como as capacidades de economia circular podem emergir por meio de uma governança colaborativa e apresentar forte enraizamento ecológico, tornando-as menos dependentes de estruturas e conhecimentos corporativos.
Esse processo é diferente daquele normalmente observado em empresas. Em vez de priorizar apenas competitividade, crescimento ou resultados financeiros, as organizações comunitárias também consideram a conservação ambiental, sua cultura, coesão e normas sociais, a melhoria das condições de vida e a autonomia do território.
Economia circular na Amazônia depende de autonomia e cooperação
Um dos principais resultados do estudo é mostrar que a economia circular na Amazônia não precisa seguir modelos criados para empresas, mas podem se beneficiar. As comunidades podem desenvolver soluções próprias, muito melhores adaptadas ao contexto, baseadas nas características do território e nas necessidades de seus moradores.
Isso aparece, por exemplo, na criação de marcas comunitárias para reduzir a dependência de intermediários, na negociação de preços mais justos e na organização coletiva da produção. Além disso, cooperativas e associações podem aproximar as comunidades de empresas, órgãos públicos e sistemas de certificação, enquanto ajudam a preservar a capacidade local de decisão.
A pesquisa também mostra que esse desenvolvimento acontece de forma gradual. Em estágios iniciais, organizações comunitárias podem depender de parceiros externos para acessar mercados, obter conhecimento técnico ou organizar processos administrativos. Com o tempo, porém, algumas conseguem incorporar parte dessas competências e assumir maior controle sobre suas atividades.
Por isso, os autores defendem que empresas, ONGs e governos interessados em apoiar a economia circular em regiões de biodiversidade devem evitar soluções padronizadas, e priorizar a co-produção, para aprendizado em ambos os lados, nas empresas e comunidades. O apoio pode incluir infraestrutura, logística, crédito, capacitação e acesso a mercados, mas precisa contribuir para que as comunidades desenvolvam suas próprias capacidades.
Assim, a economia circular pode representar não apenas uma forma de reduzir impactos ambientais, mas também uma oportunidade de fortalecer a geração de renda, a conservação da floresta e a autonomia das comunidades que vivem dela.
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