Por: Antonio Gelis Filho, Bruna Badaró e Gustavo Mirapalheta.
Quem trabalha com marketing político sabe que testar um discurso de campanha antes de levá-lo ao público é caro, lento e impreciso. As ferramentas disponíveis — pesquisas de opinião, grupos focais — existem há décadas e respondem com números agregados que dizem pouco sobre o que realmente importa: como segmentos específicos do eleitorado reagem a mensagens específicas. No ciclo de 2022, as campanhas brasileiras gastaram cerca de R$ 6 bilhões. Uma fatia considerável desse valor foi investida em instrumentos que, em alguns casos, não evoluíram desde os anos 1990.
A autora Bruna Badaró identificou esse vazio e decidiu preenchê-lo em seu Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Administração de Empresas da FGV EAESP.
Para tanto, desenvolveu o projeto de uma startup de IA, batizada de Iactus — uma alusão direta à famosa frase atribuída a César ao cruzar o Rubicão: Alea jacta est, "a sorte está lançada." A escolha do nome não é casual: está implícita nela a ambição de reduzir precisamente o peso da sorte em uma campanha eleitoral.
A ideia
A Iactus cria um Brasil em miniatura. São cem eleitores sintéticos, calibrados a partir de dados reais do IBGE, do TSE e de institutos de pesquisa, cada um com sua região, renda, religião, escolaridade e perfil psicológico. Não são personagens inventados; são representações estatisticamente fiéis do eleitorado brasileiro, distribuídas pelos mesmos arquétipos que estruturam a política nacional: o evangélico periférico do Nordeste, a classe média progressista do Sudeste, o pequeno empreendedor, o ruralista do Sul, o jovem apático da periferia.
Diante desses eleitores sintéticos, a plataforma simula candidatos — não figuras reais, mas tipos reconhecíveis do espectro político brasileiro. A partir daí, injeta eventos: um choque de inflação, uma operação policial violenta, uma decisão judicial controversa. Em segundos, o sistema devolve ao estrategista de campanha algo que nenhuma pesquisa tradicional oferece com essa velocidade e granularidade: quem se moveu, para onde, e por quê.
O projeto foi construído com inteligência artificial. Os modelos Claude Sonnet 4 e Claude Haiku 4.5 da Anthropic funcionam como componentes centrais da plataforma. Eles não são assistentes de escrita, são como peças de uma arquitetura técnica deliberadamente projetada. Quando um evento é injetado na simulação, é o Claude Sonnet 4, o modelo mais sofisticado dos dois, que recebe o perfil completo de cada eleitor indeciso e produz um raciocínio interpretativo: porque aquele eleitor específico, com aquela história, aquela renda e aquelas prioridades, se moveria ou não diante daquele estímulo.
O Claude Haiku 4.5, mais leve e veloz, cuida de uma tarefa diferente: gerar, para cada eleitor sintético, as frases que capturam sua voz — o que o atrai, o que o repele, em que linguagem ele pensa a política. Juntos, os dois modelos respondem em cerca de oito segundos por evento. Há algo de emblemático nisso: uma ferramenta de simulação eleitoral baseada em IA, desenvolvida por uma pessoa jovem que domina essas tecnologias com naturalidade suficiente para identificar seus limites, catalogar suas falhas e corrigi-las sistematicamente. A geração que chegará ao mercado político nos próximos anos não vai apenas usar inteligência artificial — vai construir com ela.
O que os testes mostraram
Os resultados foram reveladores. Diante de um choque econômico, quase todo o eleitorado sintético se moveu. O movimento foi em direção ao candidato de perfil mais autoritário e ordenador, não ao mais técnico ou ao mais progressista. Diante de uma crise de segurança pública, o movimento foi ainda mais intenso e unidirecional.
Mas o resultado mais interessante veio do terceiro teste: uma decisão judicial expandindo direitos de famílias homoafetivas. O mesmo evento produziu reações diametralmente opostas em dois grupos. O eleitor evangélico periférico consolidou seu voto no candidato conservador. O eleitor da classe média progressista respondeu majoritariamente com abstenção. Cinquenta pontos percentuais de diferença, em direções contrárias, ao mesmo estímulo.
Nenhum desses resultados foi programado. Emergiu da simulação. E é exatamente o tipo de inteligência que uma campanha bem conduzida precisa ter antes de decidir o que dizer e para quem.
O que o estrategista vê na tela
A interface da Iactus foi projetada para ser operada por profissionais de campanha, não por cientistas de dados. No centro da tela, cinco candidatos, cada um representando um arquétipo do espectro político brasileiro, exibem em tempo real sua porcentagem de intenção de voto entre os cem eleitores sintéticos. Ao lado, um mapa do Brasil colorido por candidato mostra como essa intenção se distribui geograficamente, estado por estado.
O estrategista digita um evento em linguagem livre, como uma notícia, um trecho de discurso ou uma proposta de política pública, e clica em simular. Em segundos, as barras se movem. Mas o dado mais valioso não está no agregado: está na decomposição por cluster que aparece logo abaixo. Ali, o operador vê exatamente quais arquétipos de eleitores se moveram, em que direção e com que intensidade. É possível ainda clicar em qualquer eleitor individual da grade e inspecionar seu perfil completo (demografia, personalidade, prioridades) e o raciocínio que o modelo produziu para justificar sua reação.
Uma aba separada serve especificamente ao pré-teste de discurso. O estrategista cola um slogan, uma frase de efeito ou um parágrafo de discurso e recebe de volta uma decomposição de capturas e perdas por segmento, ou seja, quem o candidato está conquistando com aquelas palavras e quem está afastando. É um laboratório de comunicação de campanha. Rápido, granular e auditável.
Por que isso importa
Ferramentas como a Iactus não substituem o julgamento político nem a intuição do estrategista experiente, mas oferecem algo que o mercado ainda não tem em escala acessível: um laboratório para testar a comunicação eleitoral antes de comprometê-la publicamente, com custo marginal baixo e resultado auditável.
Além disso, pontuamos que há questões éticas sérias envolvidas no uso de ferramentas de precisão psicográfica em contextos eleitorais. Portanto, as autoridades eleitorais bem fariam em se antecipar aos possíveis problemas, regulamentando seu uso.
Os eleitorados sintéticos vieram para ficar. Que beneficiem os eleitorados reais, por meio de seu uso ético e responsável.
