- Produto ético não tem uma única definição: o conceito reúne características da empresa, valores do consumidor e atributos do próprio produto.
- A ética acompanha todo o ciclo de vida: aspectos sociais, ambientais e econômicos podem ser considerados antes, durante e depois do uso.
- Empresas precisam olhar além do produto: reputação, comunicação, fornecedores e práticas organizacionais também influenciam a percepção do consumidor.
Quando uma pessoa escolhe um produto considerado ético, ela pode estar avaliando muito mais do que a composição ou o impacto ambiental daquele item. Uma pesquisa recente mostra que essa decisão também envolve a reputação da empresa, os valores do consumidor e as características do produto. Assim, entender o que torna um produto ético pode ajudar empresas a desenvolver soluções mais responsáveis e alinhadas às expectativas do mercado.
O estudo foi desenvolvido por Taís Bisognin Garlet, Janine Fleith de Medeiros, José Luis Duarte Ribeiro e Marcelo Gattermann Perin, da FGV EAESP, e publicado na revista Sustainable Production and Consumption. Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura e analisaram 91 artigos publicados entre 1997 e 2022. Além disso, utilizaram análise de conteúdo para organizar os principais conceitos e atributos encontrados nos estudos.
O levantamento mostra que ainda não existe uma definição única para produto ético. No entanto, os estudos analisados permitiram organizar o conceito em três grandes dimensões: a reputação da organização, os valores do consumidor e as características do produto.
O que torna um produto ético?
A primeira dimensão está relacionada à empresa. Portanto, não basta oferecer um produto com características responsáveis se a organização mantém práticas contraditórias. Relações com funcionários, fornecedores e comunidades, além de valores e comportamentos adotados pela empresa, também ajudam a formar sua reputação.
A segunda dimensão envolve o próprio consumidor. Nesse caso, crenças e valores pessoais podem influenciar a decisão de compra. Por isso, algumas pessoas escolhem empresas socialmente responsáveis ou deixam de comprar produtos associados a práticas consideradas inadequadas.
Já a terceira dimensão está ligada ao produto. Ela inclui características que podem ser percebidas diretamente, como sua composição, mas também aspectos menos visíveis, relacionados às questões sociais, ambientais e econômicas envolvidas em sua produção e comercialização.
Os pesquisadores também organizaram esses atributos em três momentos: antes do uso, durante o uso e depois do uso. Dessa forma, a responsabilidade não deveria terminar quando o produto chega às mãos do consumidor. O desenvolvimento, o uso e o destino final também precisam ser considerados.
O desafio para as empresas
Os resultados indicam que o consumo ético é mais complexo do que simplesmente oferecer uma alternativa "sustentável". Embora questões ambientais e sociais tenham ganhado espaço, as decisões de compra também continuam influenciadas por benefícios individuais e práticos.
Na prática, isso significa que empresas precisam compreender quais atributos são relevantes para seus consumidores e incorporá-los desde o desenvolvimento do produto. Além disso, a comunicação pode destacar benefícios éticos que também tenham valor direto para o cliente, como qualidade, desempenho ou características do produto.
A principal conclusão é que não existe uma única lente para compreender o produto ético. Consumidores, empresas, sociedade e ambiente regulatório participam desse processo. Portanto, tornar produtos mais responsáveis exige uma visão que considere toda a jornada, e não apenas aquilo que acontece no momento da compra.
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