Gambiarra, engenhosidade e inclusão: como o improviso transforma as práticas de consumo

Pessoa criando uma gambiarra doméstica com materiais reutilizados, representando o improviso nas práticas de consumo.
Resumo da pesquisa:
  1. A gambiarra pode ampliar o acesso ao consumo ao permitir soluções criativas fora do mercado formal.
  2. O improviso ajuda consumidores a adaptar objetos e materiais para resolver problemas cotidianos.
  3. As redes sociais fortalecem a troca de ideias e expandem o potencial de democratização dessas práticas.
Pesquisador(es):

Márcia Ferreira

Daiane Scaraboto

Bernardo Figueiredo

Adriana Dallolio

Eliane Brito

A engenhosidade cotidiana dos consumidores brasileiros está ganhando espaço nas pesquisas internacionais de marketing. Um estudo recente mostra que práticas como a gambiarra vão muito além de soluções improvisadas para emergências. Segundo a pesquisa, o improviso pode transformar a forma como as pessoas consomem, criam e acessam produtos e serviços, especialmente em contextos de escassez, exclusão econômica ou falta de recursos. Além disso, o estudo destaca que essas soluções informais também promovem inclusão, autonomia e novas formas de participação no consumo cotidiano.

A pesquisa foi desenvolvida por Marcia Ferreira, Daiane Scaraboto, Bernardo Figueiredo, Adriana Dallolio e Eliane Brito, da FGV EAESP, e publicada na revista científica Marketing Theory. Os pesquisadores analisaram mais de 300 vídeos do YouTube e quase mil imagens publicadas no Instagram e Pinterest entre 2018 e 2022. O objetivo foi entender como consumidores brasileiros utilizam a gambiarra para adaptar materiais, criar soluções e compartilhar conhecimento nas redes sociais.

Improviso nas práticas de consumo amplia acesso e criatividade

O estudo define a chamada Produção Informal do Consumidor como práticas em que as pessoas criam, consertam, adaptam ou reinventam produtos por conta própria, sem depender totalmente do mercado formal. Isso inclui atividades como o “faça você mesmo”, reparos domésticos e improvisos do dia a dia. Porém, a pesquisa aponta que a gambiarra ocupa um espaço particular porque ela nasce, muitas vezes, da necessidade, da criatividade e da falta de acesso a recursos convencionais.

Na prática, isso significa transformar objetos comuns em novas ferramentas. Uma garrafa plástica pode virar proteção para fritura na cozinha. Um pote reaproveitado pode se tornar comedouro para animais. Materiais simples passam a desempenhar funções diferentes daquelas para as quais foram criados originalmente. Segundo os pesquisadores, esse processo rompe padrões tradicionais de consumo e cria formas alternativas de resolver problemas cotidianos.

Além disso, o estudo mostra que o improviso não enfraquece as práticas de consumo. Pelo contrário, ele ajuda mais pessoas a participarem delas. Cozinhar, cuidar da casa, jardinagem, organização doméstica e cuidados com animais tornam-se mais acessíveis quando consumidores encontram soluções criativas para contornar limitações financeiras ou ausência de produtos específicos.

Outro ponto importante é o papel das redes sociais. Plataformas como YouTube, Instagram e Pinterest funcionam como espaços de troca coletiva, nos quais consumidores compartilham ideias, ensinam adaptações e inspiram outras pessoas. Dessa forma, o conhecimento sobre improviso circula rapidamente e fortalece comunidades baseadas em criatividade e colaboração.

Da necessidade à inovação: por que a gambiarra vai além da precariedade

Os pesquisadores também destacam que a gambiarra não deve ser vista apenas como consequência da precariedade. Segundo o estudo, ela representa uma forma legítima de conhecimento prático e inovação cotidiana. Em vez de simplesmente aceitar limitações impostas pelo mercado, consumidores criam alternativas próprias para atender suas necessidades e ampliar suas possibilidades de consumo.

Como conclusão, a pesquisa mostra que o improviso possui um importante potencial transformador. Ao desconstruir regras tradicionais e incentivar soluções acessíveis, a gambiarra democratiza o consumo e amplia a participação de grupos frequentemente excluídos dos mercados formais. Além disso, o estudo reforça que a engenhosidade e o uso criativo e o reaproveitamento de recursos podem gerar impactos sociais relevantes, especialmente em sociedades marcadas por desigualdade e restrições econômicas.

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