Alexandre Rodriguez Pereira, Doutorando em Administração pela FGV EAESP. Superintendente de Marketing na FGV
O debate recente sobre a restrição do uso de celulares em universidades reacende uma questão mais profunda e raramente enfrentada: a crise da atenção no ensino superior. Ao centralizar o debate no aparelho, transforma-se um problema complexo em uma aparência superficial. O celular é apenas o elemento mais visível de um ecossistema saturado de estímulos, demandas aceleradas e pressões emocionais que afetam tanto estudantes quanto instituições.
O verdadeiro desafio não é eliminar distrações externas, mas criar condições internas e ambientais para sustentar atenção de qualidade. A neurociência já demonstra que o foco atencional não depende da ausência de estímulos, mas da capacidade de autorregulação e da qualidade do ambiente onde as pessoas operam. Ambientes caóticos, ritmos irregulares e sobrecarga cognitiva reduzem significativamente a capacidade de concentração e aumentam a procrastinação, a ansiedade e o estresse acadêmico. Isso sugere que políticas de proibição, embora bem-intencionadas, têm poder limitado para transformar o comportamento estudantil ou melhorar a aprendizagem de forma consistente.
Muitas instituições de ensino continuam operando com uma lógica de controle comportamental: impor regras, monitorar infrações, ajustar processos. Esses mecanismos são importantes, mas não substituem a construção de competências internas fundamentais, como atenção intencional, regulação emocional e habilidades socioemocionais. Atenção não é um estado fixo, mas uma habilidade treinável e, portanto, estratégica para preparar estudantes para ambientes profissionais cada vez mais complexos. Do ponto de vista organizacional, isso implica repensar o próprio desenho dos ambientes de aprendizagem. Estudos recentes mostram que currículos que integram práticas de atenção plena, rotinas estáveis de participação e metodologias ativas reduzem distrações de maneira mais eficaz do que políticas restritivas. Ao envolver emocionalmente e cognitivamente os estudantes, essas práticas diminuem o incentivo à busca de estímulos alternativos.
A questão, portanto, não é "como proibir o celular?", mas "como redesenhar o ambiente para que o celular deixe de competir com a experiência de aprendizagem?". Essa visão desloca o foco da restrição para a intenção pedagógica e para a qualidade das interações entre professores e alunos. Universidades que adotam essa abordagem relatam maior engajamento, menor evasão e melhor clima institucional.
Três frentes parecem importantes para esse redesenho. A primeira diz respeito ao desenho pedagógico. Aulas que estimulam participação ativa reduzem a necessidade de recorrer a estímulos externos. A segunda envolve a criação de rotinas institucionais que favoreçam foco: ritmos claros de início e fim de atividades, expectativas transparentes de participação e espaços que diminuam ruídos e interrupções. A terceira é a integração sistemática de oportunidades de desenvolvimento socioemocional, não como ações pontuais, mas como parte do currículo. Competências como escuta ativa, gestão emocional e colaboração não apenas fortalecem a convivência, mas sustentam a aprendizagem profunda.
Para gestores do ensino superior, a implicação é direta: promover atenção sustentável é uma decisão estratégica. Envolve alinhar processos institucionais, práticas pedagógicas e cultura acadêmica para criar ambientes mais intencionais e menos reativos. Esse movimento reduz custos de gestão de conflitos, melhora a experiência estudantil e amplia o compromisso dos alunos com o próprio percurso formativo.
A pergunta que fica é se estamos prontos para esse deslocamento de perspectiva. Em um contexto em que a distração se tornou um fenômeno estrutural, não basta ajustar regras; é preciso revisar práticas, modelos mentais e rotinas. Desenvolver ambientes que apoiem atenção de longo prazo não é apenas uma escolha pedagógica, é uma necessidade institucional para formar profissionais capazes de atuar com consciência, presença e discernimento em um mundo saturado de estímulos.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão
