Ações Coletivas e o Impacto na Cadeia de Valor

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André Tourinho, aluno do Mestrado Profissional da FGV EAESP. Executivo de Integridade e Auditoria Interna

De acordo com uma definição do Fórum Econômico Mundial, ações coletivas podem ser qualificadas como ações ou conjunto de ações realizadas por um grupo de pessoas focadas em uma visão comum. São ações de cooperação entre stakeholders geralmente relacionada a boas práticas de governança, prevenção e combate à corrupção.

Nas últimas décadas, o ambiente corporativo tem enfrentado difíceis situações que comprometeram a confiança e a segurança em se fazer negócios no Brasil. Diversas operações da polícia federal sobre suspeitas de corrupção, situações de fraudes financeiras em grandes empresas, notícias sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e financiamento ao tráfico de drogas e outras tantas situações que minaram a confiança no ambiente corporativo brasileiro.

Por essa razão, o tema é relevante não apenas para o setor privado, como forma de cooperação estratégica e mudança de percepção, mas também para a sociedade que urge por menos corrupção, por mais responsabilidade social e sustentabilidade.

Ações coletivas já são instrumentos conhecidos internacionalmente e vêm sendo cada vez mais utilizados diante da capilaridade e proporção que suas iniciativas costumam tomar. Em se tratando de iniciativas de ações coletivas, destaca-se o trabalho realizado pelo Pacto Global, iniciativa das Organizações das Nações Unidas - ONU.

Ao longo dos anos, a Rede Brasil do Pacto Global liderou iniciativas significativas no âmbito das ações coletivas, com ações no âmbito dos setores de engenharia e construção, limpeza urbana, energia e agroindústria. Iniciativas do Fórum Econômico Mundial, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE e do Basel Institute on Governance são igualmente relevantes para fomentar e financiar a criação das ações coletivas.

O Basel Institute on Governance, inclusive, se tornou em 2013 o "Action Hub" do B20, que tem por objetivo propor ao G20 recomendações de políticas elaboradas por diferentes forças-tarefa; sendo um repositório das diversas iniciativas de ações coletivas realizadas globalmente. Os últimos "policy papers", que são recomendações elaboradas por forças-tarefas no B20, apresentaram recomendações para as nações de que as ações coletivas devem ser estimuladas para engajar o setor público e a cadeia de valor nos princípios de integridade.

A colaboração entre o setor público, setor privado e a sociedade civil é essencial para reforçar o crescimento íntegro e resiliente da cadeia de valor. É nesse sentido que fica evidente a importância que o tema tem para manutenção de negócios responsáveis e sustentáveis.

Recentemente, tem sido mais comum no Brasil a criação de ações coletivas por setores, como é o caso da Ação Coletiva Anticorrupção da Agroindústria. Essa é uma iniciativa das empresas do setor, facilitada pelo Pacto Global, que visa mudar a cultura e reputação do setor, com a promoção de um ambiente de negócios ético e íntegro, por meio de práticas e regulamentações aprimoradas.

Vários são os impactos que as atividades de uma ação coletiva podem causar. Os resultados mais esperados, geralmente, dizem respeito à cadeia de valor do setor/região em que a ação coletiva está inserida. A ideia inerente da ação coletiva é dar mais voz ao grupo, ou seja, multiplicar seus princípios e orientações em prol de uma boa governança nos negócios. Tais ações visam educar e capacitar a cadeia de valor de um setor não apenas com práticas e prevenção e combate à corrupção e à fraude, mas também com relação a boas práticas de integridade e governança.

A cadeia de valor pode se beneficiar com treinamentos gratuitos, com conteúdo sobre melhores práticas de governança, campanhas de comunicação para reforço e participação em eventos de fomento gratuitos, todos com o intuito de disseminar e, de certa forma, cobrar da cadeia de valor aprimoramentos em suas respectivas organizações.

Ações coletivas são iniciativas muito úteis e que causam um grande impacto no setor ou região em que atuam. São uma forma de as iniciativas pública e privada aumentarem a régua de governança para a condução de negócios sustentáveis, com responsabilidade social e integridade, beneficiando diretamente a cadeia de valor ao seu entorno. Ações em prol de boas práticas podem ser aproveitadas, inclusive, por toda a sociedade, favorecendo negócios com transparência, para consequentemente reduzir os riscos de irregularidades e fomentar mudanças sociais.

 Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.

Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão