- Mais de 90% do crédito rural brasileiro foi destinado a médios e grandes produtores entre 2013 e 2025.
- Iniciativas baseadas na sociobiodiversidade têm potencial para gerar renda e conservar a floresta, mas ainda recebem poucos recursos.
- Os pesquisadores defendem uma mudança nas prioridades de financiamento, infraestrutura e políticas públicas para ampliar essas alternativas.
Os investimentos públicos na Amazônia ajudam a definir quais modelos de desenvolvimento conseguem crescer na região. No entanto, os recursos ainda favorecem, em grande medida, atividades ligadas às cadeias de commodities agrícolas. Enquanto isso, iniciativas que combinam conservação da floresta, geração de renda e conhecimentos das comunidades locais permanecem com acesso limitado a crédito, infraestrutura e apoio técnico.
O cenário é relevante porque o modelo de desenvolvimento apoiado por esses investimentos também está relacionado a impactos ambientais. Segundo artigo recente, em 2023, o agronegócio respondeu diretamente por 27,5% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Além disso, a mudança no uso da terra associada à expansão agrícola acrescentou 46,2%, levando a participação conjunta para mais de 70% das emissões nacionais.
Para chegar a essas conclusões, os autores analisaram dados públicos sobre crédito rural, investimentos em pesquisa e infraestrutura e emissões, além de dialogarem com estudos anteriores sobre sociobiodiversidade e desenvolvimento na Amazônia. O trabalho é apresentado como uma análise de opinião na PLOS Climate, e não como uma pesquisa de campo. Assinam o artigo Michel Xocaira Paes, Luciana Marques Vieira e José Antonio Puppim de Oliveira, da FGV EAESP, em conjunto com João Campos-Silva.
Investimentos públicos na Amazônia precisam chegar a alternativas sustentáveis
Um dos principais exemplos apresentados pelos pesquisadores está no crédito rural. Entre 2013 e 2025, mais de 90% dos recursos foram destinados a médios e grandes produtores, enquanto menos de 10% chegou a pequenos produtores por meio de programas como o Pronaf. No ano agrícola de 2024/2025, foram US$ 148,75 bilhões para grandes produtores, contra US$ 15,32 bilhões para a agricultura familiar.
A diferença também aparece em outras áreas. Os investimentos em infraestrutura têm priorizado ferrovias, portos e hidrovias voltados ao transporte de commodities. Já a pesquisa pública concentra recursos em ganhos de produtividade da agricultura em larga escala. Em 2024, por exemplo, a Embrapa recebeu US$ 951,85 milhões, enquanto a Anater, voltada à assistência técnica e extensão rural, recebeu US$ 14,22 milhões.
Por outro lado, experiências de agroflorestas, manejo comunitário da pesca e outras atividades baseadas na sociobiodiversidade já demonstram que é possível combinar conservação, geração de renda e participação das comunidades. O problema, portanto, não seria a ausência de alternativas, mas a dificuldade de dar escala a elas.
Para os pesquisadores, isso exige mais do que novos programas isolados. É necessário redirecionar crédito, adaptar a infraestrutura aos territórios da floresta, ampliar a assistência técnica e fortalecer a participação de povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores nas decisões sobre políticas públicas. Assim, a sociobioeconomia poderia deixar de ocupar um espaço marginal e passar a integrar uma estratégia de desenvolvimento de baixo carbono para a Amazônia.
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