- A bioinspiração surge como uma lente inovadora para formar líderes mais éticos, sistêmicos e alinhados à sustentabilidade forte.
- Abordagens inspiradas na natureza desenvolvem competências como empatia, adaptabilidade e pensamento sistêmico.
- Apesar do potencial, essas práticas ainda enfrentam barreiras para serem incorporadas aos currículos de MBA no Brasil.
Simone Cornelsen
As escolas de negócios têm um papel estratégico na formação de líderes capazes de lidar com desafios complexos, como mudanças climáticas e desigualdades socioambientais. No entanto, grande parte do ensino de administração ainda opera sob uma lógica tradicional. Ela trata a natureza apenas como fonte de recursos e separa crescimento econômico de impactos socioambientais. Sendo assim, cresce a demanda por uma educação em gestão mais ética, responsável e conectada com os limites do planeta. É nesse contexto que a bioinspiração ganha destaque como uma abordagem promissora para repensar o ensino de gestão responsável.
O estudo foi conduzido pelas pesquisadoras Fernanda Carreira e Simone Cornelsen, da FGV EAESP, e publicado na The International Journal of Management Education. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa exploratória, baseada em 30 entrevistas realizadas com especialistas e participantes brasileiros engajados em práticas bioinspiradas, como biomimética, bioliderança e biopensamento. Portanto, as conversas buscaram compreender experiências, percepções e transformações associadas ao uso dessas abordagens no desenvolvimento humano e na liderança.
Bioinspiração no ensino de gestão responsável
Os resultados indicam que aprender com a natureza vai muito além de copiar formas ou processos biológicos. A bioinspiração propõe uma mudança de mentalidade, na qual organizações e líderes passam a se enxergar como parte de sistemas vivos interdependentes. Ou seja, na prática, isso se traduz no desenvolvimento de competências essenciais para o século XXI, como pensamento sistêmico, colaboração, empatia, resiliência e capacidade de adaptação.
Além disso, os entrevistados relataram transformações pessoais profundas, como maior autoconsciência, reconexão com valores e fortalecimento do senso de propósito. Essas mudanças internas são vistas como fundamentais para uma liderança capaz de promover decisões responsáveis e alinhadas à sustentabilidade forte.
Apesar disso, o estudo mostra que conteúdos bioinspirados ainda são raros nos currículos de MBA, especialmente no Brasil. Entre as principais barreiras estão a resistência a abordagens interdisciplinares, a dificuldade de lidar com a complexidade dos sistemas naturais e a falta de métodos tradicionais para avaliar resultados mais subjetivos, como mudanças de comportamento e valores.
Por outro lado, a pesquisa também aponta caminhos. A integração da bioinspiração exige mudanças pedagógicas, capacitação docente e estratégias de avaliação mais amplas, combinando indicadores comportamentais e reflexões qualitativas. Portanto, quando bem implementada, essa abordagem pode ajudar as escolas de negócios a formar líderes preparados para atuar em uma economia centrada na vida, mais regenerativa e conectada aos desafios globais.
Por fim, ao não tratar a natureza como um estoque de recursos, o estudo reforça que a bioinspiração pode deixar de ser um tema de nicho e se tornar uma lente estruturante para a educação em gestão responsável, com impacto local e relevância internacional.
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