Marcos Citeli, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP, Mestre em Gestão pelo IESE Business School; Empreendedor; Business Professor e Advisory Board (Conselheiro Consultivo)
O que define o sucesso de uma empresa no século XXI? Se nas décadas passadas o lucro aos acionistas era a única métrica válida, hoje o mercado exige muito mais: resultados financeiros que andem de mãos dadas com efeito social benéfico e preservação ambiental.
Este artigo trata sobre como esse cenário está mudando a forma de fazer negócios, com exemplos reais de empresas que unem rentabilidade e impacto positivo. Também, mostra como relatórios de sustentabilidade estão ajudando a transformar boas intenções em ações concretas, e porque essa mudança se tornou essencial para qualquer empresa que queira permanecer relevante.
Em 1970, o economista Milton Friedman definiu a "responsabilidade social" das empresas como a simples busca de lucro, desde que respeitassem as leis. Durante muitos anos esse paradigma (chamado de teoria do acionista, ou em inglês shareholder theory) prevaleceu entre executivos e empreendedores, porém hoje essa visão já não basta. Um estudo de 2024 revelou que, em 2021, as empresas de um grande índice global de ações (S&P Global Broad Market Index) geraram cerca de US$ 3,7 trilhão em prejuízos ambientais não contabilizados, o equivalente a mais de 4% do PIB mundial. Mais do que simplesmente evitar danos (externalidades negativas), as empresas são cada vez mais cobradas para criar valor compartilhado para todas as partes interessadas.
Na prática, espera-se que uma empresa equilibre, com transparência, os interesses de acionistas, funcionários, fornecedores, vizinhanças e das futuras gerações. Esse modelo, idealizado por R. Edward Freeman em 1984 e conhecido como teoria das partes interessadas (em inglês, stakeholder theory), substitui a ideia de foco exclusivo no acionista. Pesquisas reforçam esse caminho: em uma análise de mais de 1.200 estudos, 58% mostraram que empresas com boas práticas ambientais, sociais e de governança também têm melhores resultados financeiros, e apenas 8% apontaram efeito contrário.
No Brasil, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3) valorizou-se quase 295% entre 2006 e 2020, contra 245% do Ibovespa, e ainda foi menos volátil, garantindo menor risco ao investidor. Cuidar de pessoas, comunidades e ambiente deixou de ser luxo ou obrigação só moral ou legal: é estratégia de negócio. O desafio agora é transformar esse compromisso em ações mensuráveis, desde medir impactos e reduzir danos até ajustar prioridades e prestar contas de forma clara. Nesse cenário, os relatórios de sustentabilidade emergem como a principal ferramenta para tornar promessas em resultados concretos.
Embora passem a ser obrigatórios para as empresas abertas no Brasil a partir de 2026, os relatórios ESG (do inglês Environment, Social and Governance, ou em português Meio Ambiente, Social e Governança) não deveriam ser meros documentos de conformidade, mas sim catalisadores de mudanças na forma como as empresas operam. Ao trazer dados precisos, como volume de emissões de carbono, uso de água, índices de diversidade e indicadores de impacto social, esses relatórios convertem compromissos abstratos em metas quantificáveis (por exemplo, cortar emissões em X%, reciclar Y toneladas de resíduos ou destinar Z reais a projetos comunitários).
Esse nível de detalhamento cria responsabilidade interna: cada área sabe exatamente pelos quais resultados será cobrada, alinhando bônus e metas operacionais aos objetivos socioambientais. Por exemplo, a Natura usa seu relatório integrado para acompanhar emissões de carbono em toda a cadeia produtiva. Com metas definidas de neutralização de carbono e redução de plástico, a empresa diminuiu em 30% as emissões por produto até 2023, envolvendo fornecedores e consumidores na mesma jornada de sustentabilidade.
Ao integrar informações financeiras e não financeiras em um único documento, as empresas passam a contar uma história coerente para investidores, clientes e parceiros. Esse formato comparável permite identificar líderes e deficiências no mercado, direcionar investimentos a negócios realmente sustentáveis e fortalecer a reputação corporativa. Em vez de lucrar apenas para o acionista, a empresa passa a gerar valor compartilhado, para empregados, fornecedores, comunidades e acionistas, e a consolidar seu propósito como agente de transformação social e ambiental.
O cenário atual exige muito mais do que discurso: é preciso agir e mostrar resultados. As empresas que prosperarem serão aquelas que conseguirem traduzir compromissos socioambientais em ações mensuráveis e transparentes. Para isso, relatórios ESG não são um fim em si, mas o ponto de partida para a gestão integrada de riscos e oportunidades. Ao transformarem dados em decisões, essas organizações comprovam que lucrar e promover o bem-estar de comunidades e do planeta caminham juntos, e essa combinação é, hoje, a maior vantagem competitiva no mercado.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão
