Diversidade de fornecedores pode transformar cadeias de suprimentos, mas falta compromisso das empresas

Reunião entre representantes de empresas e pequenos fornecedores diversos discutindo inclusão na cadeia de suprimentos.
Resumo da pesquisa:
  1. Empresas ainda utilizam programas de diversidade de fornecedores de forma limitada e focada apenas em metas de contratação, de forma a cumprir com regulações.
  2. Fornecedores diversos enfrentam barreiras financeiras, burocráticas e de acesso ao mercado, mas se beneficiam da certificação nos relacionamentos com grandes empresas compradoras.
  3. Organizações intermediárias ajudam a conectar empresas e fornecedores para tornar as cadeias de suprimentos mais inclusivas e sustentáveis.
Pesquisador(es):

Priscila Miguel

Andrea Lago da Silva

Minelle Silva

A busca por práticas empresariais mais inclusivas tem levado empresas e governos a discutir a diversidade de fornecedores. A iniciativa incentiva a contratação de fornecedores liderados por grupos historicamente desfavorecidos, conhecidos como diversos. Além disso, o tema ganhou força nos últimos anos, principalmente nas agendas ESG. No entanto, uma nova pesquisa mostra que ainda existem barreiras importantes para que esses programas gerem impacto real. Entre os desafios estão a falta de compromisso das empresas compradoras, as desigualdades de poder nas negociações e a dificuldade de fornecedores diversos acessarem grandes mercados.

A pesquisa foi conduzida por Priscila Miguel, pesquisadora da FGV EAESP, em parceria com Andrea Lago da Silva e Minelle Silva. O estudo foi publicado na revista Journal of Purchasing and Supply Management. Para chegar aos resultados, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática de 56 artigos científicos publicados nas bases Scopus e Web of Science. Além disso, a análise utilizou a Teoria da Dependência de Recursos. Essa abordagem busca compreender como organizações dependem umas das outras para acessar recursos, informações e oportunidades de mercado.

Diversidade de fornecedores revela desigualdade nas relações comerciais

Os resultados mostram que empresas compradoras possuem mais recursos financeiros, conhecimento técnico e poder de negociação do que fornecedores diversos. Em geral, esses fornecedores, de propriedade de grupos minorizados, são pequenos negócios e empresas jovens ou organizações. Como consequência, essa desigualdade dificulta relações mais equilibradas e reduz as oportunidades de crescimento.

Além disso, a pesquisa identificou que muitas empresas compradoras tratam a diversidade de fornecedores apenas como uma exigência regulatória ou um indicador de gastos. Dessa forma, poucas organizações desenvolvem ações concretas para desenvolver e fortalecer esses parceiros comerciais e manter um relacionamento de longo prazo. Na prática, fornecedores diversos continuam recebendo contratos menores, menos complexos e com menor potencial de crescimento.

Outro ponto importante é que muitas empresas ainda não compreendem plenamente conceitos ligados à diversidade, equidade e inclusão. Segundo o estudo, diversas organizações possuem equipes de Compras qualificadas e recursos financeiros. Ainda assim, elas não sabem identificar fornecedores diversos nem entendem a importância das certificações. Desta forma, muitas empresas não desenvolvem competências inclusivas em suas áreas de compras, dificultando a adesão e o sucesso de programas de Compras de Diversidade.

Relações de poder dificultam programas mais inclusivos

Os pesquisadores também observaram que as relações de poder exercem forte influência nesses programas. No setor privado, os relacionamentos entre empresas compradoras e fornecedores diversos são pautados principalmente por mecanismos coercitivos, com uso de contratos complexos e longos prazos de pagamento. Como resultado, pequenos fornecedores enfrentam barreiras difíceis de superar. Já no setor público, programas de incentivo e recompensas aparecem com mais frequência. Mesmo assim, ainda existem dificuldades para garantir relações duradouras entre compradores e fornecedores diversos.

A pesquisa destaca ainda o papel estratégico de organizações intermediárias, que recrutam e certificam fornecedores diversos. Essas instituições ajudam a conectar empresas compradoras e fornecedores diversos. Além disso, oferecem capacitação, conhecimento técnico e suporte para construir relações comerciais mais sustentáveis. Para os autores, esse apoio pode ser decisivo para transformar programas de diversidade de fornecedores em iniciativas realmente capazes de promover inclusão econômica.

Outro avanço importante do estudo foi identificar a importância dos chamados “recursos relacionais”. Esses recursos estão ligados à construção de confiança, conexões e cooperação entre empresas. Segundo os pesquisadores, relações comerciais mais colaborativas podem reduzir dependências e gerar benefícios para todos os envolvidos.

As conclusões reforçam que promover diversidade de fornecedores vai muito além de contratar empresas de grupos minorizados. Também é necessário criar relações de longo prazo, desenvolver competências inclusivas e ampliar o acesso ao mercado. Dessa maneira, empresas podem fortalecer suas cadeias de suprimentos, ampliar impactos sociais positivos e avançar em estratégias ESG mais consistentes.

Leia o artigo na íntegra.

Nota: alguns artigos podem apresentar restrições de acesso.