- Interesses divergentes entre acionistas aumentam a probabilidade de empresas adotarem ações de responsabilidade social mais simbólicas do que efetivas.
- A pesquisa identifica uma possível distância entre as políticas de responsabilidade social anunciadas pelas empresas e as práticas realmente implementadas.
- A presença de investidores socialmente orientados pode reduzir essa distância e dar mais credibilidade aos compromissos sociais da organização.
As empresas são cada vez mais cobradas para assumir responsabilidades que vão além do lucro. Nesse contexto, a responsabilidade social nas empresas ganha espaço nas decisões corporativas. No entanto, transformar compromissos sociais e ambientais em ações concretas pode ser mais difícil quando os acionistas têm expectativas diferentes. Uma pesquisa com mais de 5 mil propostas de acionistas mostra que, nesse cenário, algumas empresas podem responder mais com discurso do que com mudanças efetivas.
O estudo foi realizado por Eduardo Schiehll, da HEC Montréal, Henrique Castro Martins, da FGV EAESP, e Krista Lewellyn, da Florida Southern College, e publicado na revista Long Range Planning. Os pesquisadores analisaram 5.302 propostas de acionistas apresentadas a empresas do índice S&P 1500 entre 2010 e 2018. Além disso, cruzaram essas informações com dados sobre os relatórios e o desempenho de responsabilidade social das empresas.
O que os acionistas têm a ver com a responsabilidade social nas empresas?
O ponto central da pesquisa é que os acionistas não formam um grupo homogêneo. Enquanto alguns priorizam resultados financeiros, outros defendem objetivos sociais e ambientais. Assim, quando diferentes grupos pressionam uma empresa em direções distintas, aumenta a dificuldade de conciliar essas expectativas.
Os resultados indicam que, nessas situações, cresce a probabilidade de as empresas adotarem ações simbólicas de responsabilidade social. Na prática, isso significa apresentar políticas e compromissos públicos sem necessariamente incorporá-los de maneira significativa às operações. Portanto, pode surgir uma distância entre aquilo que a empresa afirma defender e aquilo que realmente faz.
Esse resultado chama atenção porque mostra que anunciar uma agenda social não significa, necessariamente, que ela esteja integrada à estratégia da organização. Além disso, a divergência entre os acionistas pode aumentar a complexidade da gestão, tornando mais difícil decidir quais demandas priorizar.
Investidores socialmente orientados podem fazer diferença
A pesquisa encontrou, entretanto, um elemento capaz de reduzir essa associação. Quando há participação e ativismo de investidores que se identificam como socialmente orientados, a relação entre interesses divergentes dos acionistas e respostas simbólicas fica mais fraca.
Isso sugere que esses investidores podem conferir maior credibilidade às agendas sociais e ajudar a colocá-las no centro das decisões empresariais, em vez de tratá-las apenas como uma resposta às pressões externas.
O estudo, portanto, traz uma questão prática para empresas e investidores: não basta declarar um propósito corporativo mais amplo. É preciso criar condições para que esse propósito seja efetivamente incorporado às decisões e às operações da organização. Caso contrário, a responsabilidade social corre o risco de permanecer no campo das políticas e da comunicação, sem produzir mudanças proporcionais na prática.
Mais do que mostrar um conflito entre lucro e objetivos sociais, a pesquisa revela que a própria composição dos acionistas pode influenciar a forma como uma empresa lida com esse equilíbrio. Por isso, compreender quem exerce pressão sobre uma organização e quais objetivos esses investidores defendem é fundamental para avaliar se os compromissos de responsabilidade social nas empresas são uma realidade na prática.
Leia o artigo na íntegra.
Nota: alguns artigos podem apresentar restrição de acesso.
