Estratégia é Prática: Ela Não Acontece no PowerPoint

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Alessandra Chemello, Diretora de Marketing e Operações do Bernoulli Educação e Doutoranda da FGV EAESP

Existe um senso comum de que a estratégia nasce em algum lugar nobre da organização. Normalmente, em uma sala envidraçada, no último andar, com poucas pessoas, um PowerPoint afiado e decisões que depois "descem" para toda a empresa em frases bem formuladas e expressões de impacto, mas que, muitas vezes, não conseguem ser traduzidas nas ações cotidianas das pessoas que fazem a "roda girar".

Felizmente, há um olhar diferente, e muito mais amigável, sobre o tema. A ideia de que a estratégia não pode ser "embalada" em um documento e distribuída pela organização para simples execução, mas que se constrói no dia a dia, nas práticas reais, pelas pessoas que vivem o seu cotidiano. É o que a literatura chama de Estratégia como Prática. Apesar de ganhar espaço na Academia nos últimos anos, essa visão ainda está longe de ser dominante. São raras as organizações que conscientemente pensam e conduzem a estratégia dessa forma. A maioria segue acreditando que ela nasce clara e bem definida em algum fórum restrito do topo.

É justamente para provocar essa crença que surge essa perspectiva. Não como mais um modelo ou ferramenta, mas como um jeito diferente, e mais realista, de compreender como a estratégia realmente acontece.

Essa lente tira a estratégia do pedestal. E isso, longe de empobrecê-la, a torna mais concreta. O pesquisador Richard Whittington é um entusiasta desse tema. Para ele, estratégia não é algo que a organização tem, um plano, um documento, mas algo que a organização faz. Reuniões, rituais de acompanhamento, decisões (mesmo as pequenas), ajustes por vezes silenciosos, negociações de prioridade. É nesse emaranhado de ações cotidianas que a estratégia vai sendo construída, interpretada e, de fato, executada.

Outros autores aprofundaram esse olhar. Julia Balogun, por exemplo, mostra que resultados inesperados não acontecem necessariamente porque o plano estava mal-feito, mas porque as pessoas interpretam a estratégia, atribuem sentido a ela, adaptam, resistem e reinventam. Nesse contexto, a estratégia não é algo que simplesmente se executa; é algo que se interpreta continuamente. Existem também os temas que "viram estratégicos". Não por decreto da alta liderança, mas porque passam a ser conectados a narrativas convincentes, ganham donos com legitimidade e se materializam em metas, indicadores, rituais e sistemas. Aquilo que entra na rotina, curiosamente, passa a importar.

Assim, o setor da educação básica privada se torna um exemplo particularmente interessante.

Trata-se de um segmento cuja gestão é, por natureza, mais artesanal. O foco está no ensino e na aprendizagem, e não na atividade administrativa de suporte. A maioria dos gestores vem da pedagogia, da licenciatura, da sala de aula — e não da administração de empresas. As estruturas tendem a ser mais enxutas, menos burocratizadas, menos corporativas. Características que fazem desse setor um terreno fértil para exercitar essa forma de pensar, e fazer, estratégia. 

Na educação básica, a estratégia raramente aparece como um grande plano sofisticado. Ela se revela nas escolhas pedagógicas, nas prioridades ao longo do ano letivo, na forma como as lideranças se organizam, no alinhamento entre discurso institucional e prática cotidiana. Tudo é mais próximo, mais visível, mais humano.

A abordagem da Estratégia como Prática ajuda a desmistificá-la. Retira a estratégia do pedestal conceitual e a aproxima do cotidiano de pessoas pouco habituadas à linguagem da administração de empresas, e que, ainda assim, tomam decisões estratégicas todos os dias. Mostra que estratégia não é privilégio de quem domina frameworks ou jargões, mas de quem consegue orientar ações reais em direção a algum futuro desejado.

Talvez por isso essa perspectiva seja tão poderosa. Ela desmonta a narrativa heroica da estratégia como um ato quase místico do topo da organização. Mostra que, sem o trabalho cotidiano das pessoas, sem tradução, sem repetição e sem prática, a estratégia simplesmente não existe.

Olhar para a estratégia como prática é, no fundo, um convite à humildade. Um lembrete de que estratégia não é um evento, nem um documento. É um processo vivo, imperfeito e profundamente humano. E é justamente aí que mora sua força.

 Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.

Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão