Álvaro Madeira Neto, Médico Sanitarista e Gestor em Saúde, Doutorando em Administração no Programa de Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP. Mestre em Gestão para Competitividade (MPGC) pela FGV EASP. Diretor Médico da Fundação Otília Correia Saraiva - FOCS. Coordenador do Curso de Medicina da UNILEÃO
Há momentos em que um país aprende um novo acrônimo e, sem perceber, aprende também uma nova forma de enxergar a si mesmo. O ENAMED (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) nasceu como um espelho incômodo: além de medir o desempenho estudantil, expõe como organizamos a formação clínica, afetando a confiança da população, a segurança do cuidado e a sustentabilidade do sistema de saúde.
Em sua primeira edição em 2025, com resultados individuais divulgados recentemente, o ENAMED uniu avaliação formativa a consequências institucionais. Ou seja, deixou de ser "mais uma prova" para se tornar um instrumento anual de governança da formação médica, influenciando regulação, reputação e os modelos de negócio do ensino superior.
Segundo o MEC, 351 cursos de Medicina participaram do ENAMED 2025. Apenas 49 (13,6%) atingiram o conceito máximo 5; cerca de um terço (107 cursos) ficou abaixo do mínimo exigido (conceito 1 ou 2), enquanto os demais 204 (67,1%) obtiveram desempenho satisfatório (conceitos 3 a 5).
As consequências regulatórias funcionam como uma "segunda prova", desta vez para as escolas. Dependendo do percentual de concluintes proficientes, as medidas incluem:
- Suspensão de novos ingressos em 8 cursos
- Redução de 50% das vagas em 13 cursos
- Corte de 25% das vagas em 33 cursos
Esses grupos não podem ampliar vagas nem participar de programas federais (como o Fies) até a divulgação do Conceito ENADE 2026.
É aqui que a gestão acadêmica deixa de ser retórica e vira engenharia. Porque, em Medicina, desempenho não é um adereço; é infraestrutura pedagógica traduzida em decisão clínica futura. O ENAMED não mede, diretamente, a qualidade do internato, a supervisão no campo de prática, mas ele é altamente sensível às consequências desses fatores. O resultado baixo raramente é acidente isolado. Costuma ser efeito acumulado de currículo fragmentado, preceptoria subdimensionada, prática clínica escassa, avaliação interna complacente e, sobretudo, de uma governança que confunde expansão com missão. A pergunta madura não é "quem foi melhor?", mas "por que alguns ambientes formam com consistência e outros produzem lacunas previsíveis?".
O ENAMED reabre uma tensão histórica: ampliar vagas para reduzir vazios assistenciais, sem permitir que a expansão seja capturada por um modelo de baixa densidade formativa.
Do ponto de vista econômico, o curso de Medicina virou um "ativo regulado" do ensino superior: caro e extremamente previsível. Há uma razão estrutural para isso. As diretrizes curriculares nacionais estabelecem que a graduação tenha carga horária mínima de 7.200 horas ao longo de 6 anos, gerando um efeito de "empilhamento" de turmas. Na prática, quando um curso já está maduro, cada vaga anual tende a se traduzir em de seis estudantes simultaneamente matriculados. Em um mercado em que mensalidades de Medicina são frequentemente reportadas na faixa de R$ 8 mil a R$ 15 mil, cada vaga pode gerar cerca de R$ 1,1 milhão por ano em receita bruta.
Não por acaso, em aquisições corporativas cada vaga de Medicina é avaliada em cifras milionárias. A Yduqs, por exemplo, informou cláusula de earn-out de R$ 1,3832 milhão por vaga vinculada à autorização de um curso. E, do lado da rentabilidade, relatórios de crédito apontam que grupos mais concentrados em Medicina podem operar com margens EBITDA ajustadas robustas, com projeções de 40% a 45%.
Mas o ENAMED muda o jogo: ele cria um "custo de capital regulatório" para a baixa qualidade. O mercado captou isso de imediato. As ações de grupos educacionais caíram após a divulgação das notas, e analistas projetam perda de até 1% da receita no primeiro ano para os grupos mais expostos, além de queda relevante de rentabilidade a médio prazo se o desempenho não melhorar.
O futuro, portanto, não será decidido por embates simplistas. Será decidido pela capacidade política e gerencial de impor uma ideia simples como norma: formar médicos é um compromisso social de alta responsabilidade, não uma linha de produto.
O ENAMED pode representar o início de um ciclo virtuoso se for tratado como bússola, induzindo a investimentos em campo de prática, qualificação docente, avaliação interna séria. Quando a qualidade vira regra, a regulação deixa de ser punição e passa a ser proteção; e o investimento deixa de ser aposta cega e vira compromisso com valor sustentável. No fim, a pergunta que deve importar é: que projeto de país nós escrevemos, semestre a semestre, no prontuário pedagógico das escolas médicas?
Referências
ALVES, Giovana; SARAVIA, Luciana. Veja as notas dos cursos de medicina no Enamed; 107 são reprovados. Metrópoles, 19 jan. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/veja-as-notas-dos-cursos-de-medicina-no-enamed-107-sao-reprovados . Acesso em: 06 fev. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Enamed: divulgadas avaliação dos cursos de medicina e medidas de supervisão. Portal MEC - Notícias, 19 jan. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/enamed-divulgadas-avaliacao-dos-cursos-de-medicina-e-medidas-de-supervisao. Acesso em: 06 fev. 2026.
CAPARROZ, Leo. Enamed 2025: os melhores e os piores cursos de medicina avaliados pelo MEC. Você S/A (Grupo Abril), 20 jan. 2026. Disponível em: https://vocesa.abril.com.br/sociedade/enamed-2025-os-melhores-e-os-piores-cursos-de-medicina-avaliados-pelo-mec/ . Acesso em: 06 fev. 2026.
INSURTALKS. Qualidade na formação médica: impacto das sanções do Enamed e lições para as seguradoras de saúde. InsurTalks (portal de inovação em seguros), 21 jan. 2026. Disponível em: https://www.insurtalks.com.br/posts/qualidade-na-formacao-medica-impacto-das-sancoes-do-enamed-e-licoes-para-as-seguradoras-de-saude . Acesso em: 06 fev. 2026.
MOODY'S LOCAL BRASIL. Afya Participações S.A. - Relatório de crédito (Rating AAA.br). 20 jun. 2025. Disponível em: https://moodyslocal.com.br/wp-content/uploads/2025/06/MLBR_RelatoriodeCredito_Afya_20062025.pdf. Acesso em: 06 fev. 2026.
RIZÉRIO, Lara. Oásis virou miragem? Enamed abala educacionais e analistas estimam impacto para ações. InfoMoney, 20 jan. 2026. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/mercados/oasis-virou-miragem-enamed-abala-educacionais-e-analistas-estimam-impacto-para-acoes/ . Acesso em: 06 fev. 2026.
YDUQS PARTICIPAÇÕES S.A. Comunicado ao Mercado: Earn-out Unifametro - Vagas de Medicina. Rio de Janeiro, 23 set. 2025. Disponível em: https://www.yduqs.com.br/Download.aspx?Arquivo=jqsfx/xFYC+5P3V/3yWE9A==&linguagem=pt. Acesso em: 06 fev. 2026.
T_exto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização._
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