Marcos Citeli, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP; Mestre em Gestão pelo IESE Business School; Empreendedor; Business Professor e Advisory Board (Conselheiro Consultivo)
Com a obrigatoriedade dos relatórios de Sustentabilidade (sigla ESG do inglês Environment, Social and Governance, ou em português Meio Ambiente, Social e Governança) no Brasil a partir de 2026, as empresas têm uma escolha importante: produzir documentos burocráticos para cumprir regras ou transformá-los em ferramentas de gestão que criam valor real. A diferença está na materialidade, focar no que efetivamente impacta negócios e stakeholders. Para conseguir este objetivo é preciso gerar relatórios que consigam deixar muito explícitos quatro grandes pilares de informações: análise financeira, engajamento de stakeholders, benchmarking setorial e sensibilidade reputacional. Assim a empresa será capaz de antecipar crises, abrir mercados e proteger resultados. O desafio? Fazer do ESG não uma obrigação, mas uma vantagem competitiva.
A análise de impacto financeiro é o primeiro, e talvez mais decisivo, pilar. A verdadeira materialidade surge quando as empresas deixam de contabilizar apenas custos diretos, como multas ambientais ou investimentos em tecnologias limpas, e passam a mensurar como riscos socioambientais se convertem em resultado financeiro. Um caso emblemático no Brasil é o da Braskem: após a paralisação de suas minas de sal-gema em Maceió, identificadas em 2019 como causa do afundamento de cinco bairros, a companhia já desembolsou mais de R$ 16 bilhões em reparações e provisões e a simples ameaça de colapso de uma das cavidades provocou queda de cerca de 20% em suas ações em dezembro de 2023. O episódio evidencia como eventos ambientais podem se traduzir em perdas financeiras concretas, e como relatórios que integram esse tipo de análise deixam de ser meros informativos para se tornarem ferramentas de governança capazes de antecipar riscos, proteger o fluxo de caixa e otimizar a alocação de capital.
O segundo pilar é o engajamento com stakeholders. Se o impacto financeiro mostra o "quanto" ESG importa, o engajamento revela o "porquê". Ele vai além de pesquisas de opinião: exige escuta ativa e ação concreta. O desastre de Brumadinho em 2019 ilustra bem esse ponto. Moradores e funcionários haviam relatado rachaduras na barragem da Vale, mas tais alertas não produziram ação imediata e suficiente para evitar o desastre. Em decorrência disso aconteceu uma tragédia humana e financeira: mais de 270 mortes, e as ações da empresa caíram 24% em um único dia, gerando R$ 71 bilhões em perdas de valor de mercado em uma semana. Engajar o público crítico com seriedade é essencial para mitigar riscos reputacionais e operacionais.
O benchmark setorial é o terceiro pilar. Ele posiciona a empresa em relação ao desempenho de seus pares e às melhores práticas do setor. Relatórios de associações, rankings como o Dow Jones Sustainability Index (DJSI) e ratings ESG ajudam a identificar lacunas e oportunidades de diferenciação. Ao comparar metas de redução de CO?, índices de reciclagem ou práticas de governança com as da concorrência, é possível transformar o benchmarking em vantagem competitiva. A Natura, por exemplo, superou em 40% as metas médias do setor de cosméticos em embalagens sustentáveis, conquistando novos mercados com essa liderança.
O quarto e último pilar é a sensibilidade reputacional. Mesmo quando o impacto financeiro não é imediato, a percepção pública pode ter efeitos duradouros. Monitorar temas sensíveis é essencial para evitar crises de imagem. A Zara enfrentou severas críticas após denúncias de trabalho análogo à escravidão em oficinas terceirizadas no Brasil, em 2017. Já a Shell, em 2023, teve uma campanha publicitária banida no Reino Unido por exagerar seus investimentos em energia limpa. Ambos os casos revelam o risco de dissonância entre discurso e prática, e os danos reputacionais que podem surgir disso.
Diante desse cenário, os relatórios ESG devem ser tratados como ferramentas vivas de governança. Os quatro pilares, análise financeira robusta, engajamento autêntico, benchmarking rigoroso e sensibilidade reputacional, formam um ciclo contínuo de ação, mensuração, comunicação e revisão. Mais do que uma exigência de conformidade, a materialidade se torna o elemento que separa empresas que apenas sobrevivem daquelas que prosperam ao transformar riscos em oportunidades.
A pergunta estratégica que se impõe, portanto, é: estamos reportando o que realmente importa? Se a resposta não for um "sim" claro, é sinal de que o relatório ainda não atingiu seu potencial máximo, ou pior, pode estar sendo apenas uma informação sem valor. Em um ambiente de crescente escrutínio por parte de investidores, reguladores, consumidores e da sociedade em geral, a materialidade ESG deixou de ser opcional, é hoje um imperativo para liderar com relevância e impacto verdadeiro.
T_exto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização._
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão
