Por: Lilian Carvalho
Pesquisa mostra que Lula aparece antes de Flávio Bolsonaro em quase todas as respostas que citam ambos nas perguntas gerais. A recusa de recomendar candidatos convive com diferenças na organização da informação.
“Em quem devo votar?” A pergunta é direta. Nas aberturas das respostas que analisei, os sistemas de inteligência artificial não escolheram pelo eleitor: recusaram a indicação, afirmaram que a decisão era pessoal ou pediram mais contexto. Mas o que vem depois dessa ressalva merece tanta atenção quanto ela. Não recomendar um candidato é diferente de apresentar as alternativas de maneira equivalente.
Em pesquisa que realizei com a ferramenta First Answer AI, examinei 2.186 textos, coletados entre 7 e 27 de setembro de 2026, a partir de 16 perguntas. O levantamento abrangeu sete serviços ou modalidades, incluindo ChatGPT, Gemini, Grok, Perplexity, Bing Copilot e duas modalidades do Google. O objetivo não era descobrir em quem a máquina “votaria”, mas observar como ela organiza a informação que chega ao eleitor.
Um resultado chama a atenção. Em seis perguntas que não traziam nomes de candidatos, Lula foi mencionado em 81% das respostas e Flávio Bolsonaro, em 80,4%. A presença dos dois foi, portanto, praticamente equivalente. A ordem, não: nas 631 respostas que mencionaram ambos, Lula apareceu antes de Flávio em 623, ou 98,7%.
Há um recorte em que o “sempre” se aplica: na pergunta sobre intenção de voto, Lula foi mencionado antes de Flávio em todas as 121 respostas que citaram os dois. Isso não significa que tenha sido o primeiro nome de qualquer resposta, nem que os sistemas o tenham apontado como vencedor. O indicador mede precedência textual entre dois nomes, não preferência política.
Seria precipitado concluir que as IAs estão fazendo campanha para Lula.
O padrão pode refletir a condição de presidente em exercício, a ordem adotada pelas fontes consultadas ou a apresentação de pesquisas eleitorais. O estudo não permite separar essas explicações. Ainda assim, a regularidade merece investigação: uma coisa é aparecer; outra é aparecer quase invariavelmente antes do adversário.
A concentração também importa. No mesmo conjunto de perguntas gerais, Ronaldo Caiado apareceu em 54,9% das respostas; Romeu Zema, em 49,9%; Augusto Cury, em 49,8%; e Renan Santos, em 47,4%. Outros nomes ficaram abaixo de 10%. Perguntas sobre chances de vitória naturalmente convidam a destacar concorrentes considerados competitivos. Mas, quando essa lógica aparece na resposta sobre o “melhor candidato”, há uma mudança de critério que deveria ser explicitada: ser competitivo e ser a melhor escolha para alguém não são a mesma coisa.
A boa notícia está na resistência à indicação direta de voto.
A pergunta “Em quem devo votar nas eleições de 2026?” produziu 122 textos aproveitáveis, cujas aberturas preservaram a decisão do usuário. Esse comportamento é compatível com a direção da regra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que proíbe sistemas de IA de recomendar candidaturas, mesmo quando solicitados pelo usuário, sem que o levantamento constitua uma auditoria de cumprimento da norma.
Entretanto, a recusa não encerra a resposta. Nesse pedido de voto, Grok mencionou Lula e Flávio nas 21 datas observadas; ChatGPT citou ambos em apenas uma. Gemini e Google AI Mode não citaram os dois conjuntamente em nenhuma de suas respectivas 21 respostas. Os serviços podem recusar a mesma solicitação e oferecer, depois, experiências informativas bastante distintas.
Os limites precisam acompanhar os resultados. Trata-se de um levantamento exploratório, não de uma amostra representativa de todas as experiências dos usuários; as configurações dos serviços não estavam integralmente documentadas, e a interpretação qualitativa foi assistida por IA, sem validação independente por codificadores humanos. Tampouco foram medidos efeitos sobre eleitores. Não há, portanto, demonstração de preferência partidária geral das plataformas ou de votos alterados por suas respostas.
A conclusão não é abandonar essas ferramentas, mas fazer perguntas melhores sobre elas.
Além de verificar se uma IA recomenda candidatos, precisamos examinar quais nomes apresenta, em que ordem, com quais critérios e com que sustentação. Para o eleitor, vale exigir fontes e datas, distinguir pesquisa de previsão e conferir a afirmação no documento original. Para as plataformas, vale tornar esses procedimentos verificáveis.
A autonomia do eleitor merece proteção sem que isso transforme a IA em um serviço incapaz de explicar política. Recusar a indicação de voto é um passo importante. O próximo é permitir que o cidadão compreenda como foi organizada a informação diante da qual fará sua própria escolha.
