Tokenização Amplia Acesso de PMES ao Capital

foto do autor com o nome dele

Tiago Bannitz de Paula Machado, Doutorando em Finanças pela FGV EAESP e executivo financeiro

O acesso ao mercado de capitais no Brasil sempre foi concentrado em grandes empresas. Para companhias médias, o caminho tradicional de abertura de capital costuma ser caro, lento e burocrático. Custos elevados de auditoria, exigências de governança complexas e processos longos de listagem acabam afastando boa parte das empresas que mais precisam de capital para crescer. Nesse contexto, a tokenização de ativos reais começa a surgir como uma alternativa concreta para ampliar o acesso ao investimento produtivo.

Tokenizar um ativo significa transformá-lo em uma representação digital negociável em infraestrutura baseada em registro distribuído. Na prática, ações, títulos de dívida e outros valores mobiliários podem ser emitidos e controlados de forma digital, com regras automatizadas e maior rastreabilidade. Isso não muda a natureza jurídica do ativo, mas moderniza a forma como ele é emitido, registrado e negociado. O efeito econômico mais relevante é a redução de fricções operacionais e de custos de transação.

O principal impacto dessa inovação está na abertura de mercado para pequenas e médias empresas. Ao permitir processos mais simples de emissão e negociação, a tokenização reduz barreiras de entrada tanto para quem capta quanto para quem investe. Estruturas digitais diminuem etapas manuais, reduzem dependência de intermediários e tornam viável operar ofertas menores, que antes não se sustentavam economicamente no modelo tradicional de bolsa.

No Brasil, uma das iniciativas mais estruturadas nessa direção é a BEE4, que opera como mercado organizado voltado a empresas de médio porte. Seu modelo foi desenvolvido em diálogo com o regulador e deu origem a um regime específico, com exigências proporcionais ao porte das companhias emissoras. A proposta é preencher o espaço entre o crowdfunding e a bolsa tradicional, criando uma trilha intermediária de acesso ao capital.

A diferença prática é relevante. Enquanto um processo clássico de abertura de capital pode levar mais de um ano e custar milhões de reais, ofertas estruturadas em ambiente tokenizado e com regras simplificadas tendem a exigir investimentos e prazos significativamente menores. Isso muda a equação para empresas em fase de expansão, que precisam de recursos, mas não têm escala para sustentar uma listagem convencional.

Há também efeitos do lado do investidor. A digitalização do registro e da negociação amplia a transparência operacional e facilita o acompanhamento de posições e eventos corporativos. Além disso, mercados estruturados para negociação de participações em empresas médias aumentam o universo de ativos disponíveis, hoje fortemente concentrado em grandes emissores. Com isso, surgem novas possibilidades de diversificação de portfólio.

Importante destacar que tokenização não deve ser confundida com criptoativos especulativos. Quando aplicada a valores mobiliários, ela funciona como uma camada tecnológica sobre instrumentos regulados. O ativo continua sendo ação ou título de dívida; o que muda é a infraestrutura de emissão, registro e liquidação. Essa distinção é essencial para dar segurança jurídica e proteger investidores.

O histórico brasileiro mostra que tentativas anteriores de criar segmentos de acesso para PMEs tiveram baixa adesão, principalmente por não conseguirem reduzir de forma suficiente custos e complexidade. A nova geração de plataformas nasce com duas vantagens: tecnologia mais eficiente e construção regulatória desde a origem. A combinação dos dois elementos aumenta a chance de tração.

Os desafios continuam relevantes. Mercados novos precisam construir liquidez, educar participantes e provar resiliência operacional. Confiança não se estabelece apenas por inovação tecnológica, mas por histórico consistente de funcionamento. Ainda assim, a direção é clara: a infraestrutura financeira está ficando mais digital, programável e acessível.

Se bem implementada, a tokenização pode se tornar uma peça importante na democratização do mercado de capitais brasileiro. Ao aproximar empresas médias de investidores e reduzir o custo de acesso, cria-se um canal adicional de financiamento produtivo, algo especialmente valioso em um país onde o crédito ainda é caro e concentrado.

Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.

Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão