Por: Luís Henrique Rigato Vasconcellos
Já se passaram mais de duas décadas quando ainda trabalhava numa montadora automobilística e participava como engenheiro do lançamento do primeiro carro bicombustível. Na ocasião estávamos muito empolgados. Era um Volkswagen Gol, ano 2003.
Nossa, que incrível, pensávamos na época: o consumidor agora poderia escolher livremente se ele quer usar álcool (etanol anidro) ou gasolina. Em qualquer proporção. Na época, era uma vantagem indiscutível, apesar de sabermos, nas discussões internas de engenharia, que um carro bicombustível nunca seria tão eficiente quanto um carro 100% a álcool ou 100% a gasolina.
Mas a liberdade de escolha justificava a pequena perda de eficiência de um motor flex. E o mercado percebeu isso logo. Depois do Gol, quase todos os veículos lançados passaram a ser flexíveis. Segundo os próprios dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), os veículos flex mantêm o domínio absoluto do mercado brasileiro. Em média, nos últimos dez anos, eles respondem por 85% dos carros vendidos no país. Somente no último ano foram vendidos 1.897.593 automóveis bicombustíveis.
Por outro lado, uma discussão tem causado alvoroço nas redes sociais: o alto percentual obrigatório de etanol em nossa gasolina. Desde 15 de julho de 2026, a mistura de etanol anidro na gasolina comum passou de 30% para 32%. Ora, a adição de etanol na gasolina não é novidade — mas o ritmo recente, sim.
Um exame mais atento mostra que essa adição teve duas fases bem diferentes. Na primeira, de 1993 a 2015, um período de tranquilidade: a lei de 1993 fixou 22%, mas deu liberdade para o governo ajustar dentro de uma faixa. Em 2003, essa faixa variou entre 20% e 25% e, em 2007, o percentual foi para 25%. Houve alguns vaivéns no meio do caminho: em 2011 e 2013, o governo baixou a mistura temporariamente porque faltou etanol (a safra de cana não ajudou). Depois de 2014, a faixa passou a ser de 18% a 27,5% e, em 2015, o número subiu para 27,5% — e ficou parado ali por quase 10 anos.
Estávamos quase acostumados com esse patamar de 27,5% e tudo parecia estável. Mas o cenário mudou. Em 2025, o percentual saltou para 30% (E30), já respaldado por uma lei nova — a Lei do Combustível do Futuro —, que abre espaço para ir até 35%. E vejam só: menos de um ano depois, em julho de 2026, já foi para 32%.
Ou seja: os primeiros 20 anos foram sobre criar regras e reagir a crises de safra. Agora virou estratégia energética — o governo quer depender menos de gasolina importada, e por isso os aumentos vêm bem mais rápido.
Mas essa adição, rumo aos 35%, traz novos pontos controversos.
O primeiro, e mais óbvio, é que carros não-flex não foram projetados para isso — e são o ponto mais sensível dessa transição. Aqui se enquadram veículos mais antigos ou projetados para operar com gasolina mais "limpa". A elevação para 35% pode causar funcionamento irregular, com falhas na combustão, perda de desempenho e maior desgaste de componentes internos.
O segundo ponto é mais espinhoso, e prefiro chamá-lo de suspeita de populismo na dosagem. A ideia é: como o etanol anidro costuma custar menos que a gasolina A (o componente puro, antes da mistura), aumentar a proporção de etanol dilui o preço final na bomba sem que o governo precise mexer no preço da gasolina em si. É tecnicamente possível — a gasolina C vendida nos postos é obtida da mistura obrigatória entre gasolina A e etanol anidro, e mudar essa proporção afeta a composição final de preço. Então, em teoria, aumentar o etanol pode segurar o preço médio ao consumidor sem que isso apareça como uma "intervenção" direta no preço da gasolina — o que é conveniente justamente num momento de pressão inflacionária e véspera eleitoral.
Pronto: aqui acaba aquela vantagem do lançamento dos motores flex há mais de vinte anos. O consumidor ainda escolhe, na bomba, entre etanol hidratado puro e gasolina C — mas essa "gasolina" que ele escolhe já não é mais gasolina pura. É um blend cuja proporção ele não decide, e que só cresce. Seria como pedir um uísque no bar sabendo que quase um terço do copo é cachaça.
Nada contra a cachaça — até prefiro a uísque. Mas agora a escolha da mistura não é mais minha, é do governo. Para o consumidor, resta dizer: completa meu tanque, "sabor" gasolina, por favor — e se contentar com o uísque batizado.
