- Vieses comportamentais influenciam a tomada de decisão dos investidores no mercado financeiro
- Conduta financeira pode estar relacionada a aspectos socioculturais: homens apresentam mais excesso de confiança do que mulheres, por exemplo
- Pesquisa na área requer instrumentos mais precisos e padronizados para avaliar de forma eficiente os hábitos de investidores
Eduarda Zorgi Salvador
Gustavo Broch
Frederike Monika Budiner Mette
Claudia Emiko Yoshinaga
Wagner de Lara Machado
A análise está em artigo publicado pela pesquisadora da FGV EAESP Claudia Emiko Yoshinaga, em colaboração com demais autores, na revista “Qualitative Research in Financial Markets”. Para investigar o papel dos vieses comportamentais na tomada de decisão de investidores individuais e o impacto de fatores sociodemográficos nesse processo, os autores realizaram uma revisão de literatura a partir de dez repositórios virtuais de artigos científicos, em dezembro de 2021. A busca resultou na análise de 69 estudos relacionados ao tema.
Evidências sugerem pouca associação entre vieses comportamentais e fatores sociais, mas pesquisa na área requer melhorias
A pesquisa identificou 37 vieses de comportamento de investidores que influenciam o processo de tomada de decisão. Dentre eles, quatro se destacam como os mais estudados na literatura: o excesso de confiança; a aversão à perda, ou o medo de assumir riscos; o efeito manada, ou a tendência de seguir as ações da maioria; e o efeito disposição, a relutância em vender ativos que estão apresentando queda de valor.
Em relação à influência de fatores sociais nesses atributos, a pesquisa destaca o efeito do gênero no excesso de confiança dos investidores. O comportamento de superestimar as próprias habilidades ao tomar decisões financeiras é significativamente mais prevalente em homens do que em mulheres, o que pode ser explicado por influências culturais. Outros elementos, como idade, tempo de experiência, renda e educação não apresentam relações significativas com os vieses comportamentais nos estudos analisados.
Por outro lado, os autores apontam para a falta de métodos e instrumentos “padrão-ouro” para medir os comportamentos dos investidores - ferramentas padronizadas de qualidade que oferecem maior consistência aos resultados. A maioria dos instrumentos utilizados nos estudos analisados é ad hoc, ou seja, são abordagens específicas, particulares e que buscam atender apenas aos objetivos da pesquisa em questão. Além disso, a maioria das metodologias empregadas não segue as recomendações para avaliações e medições psicológicas, prejudicando a qualidade dos resultados.
Para os pesquisadores, para chegar a evidências mais concretas sobre o funcionamento dos vieses comportamentais nas finanças, é fundamental considerar o uso de questionários que já possuam evidências psicométricas sólidas, em vez de criar novos instrumentos ad hoc. Outra sugestão é desenvolver instrumentos de avaliação psicológica de qualidade que possam atuar como modelo de referência para a pesquisa científica na área.
