Criptomoeda solidária desafia a hegemonia digital em favela brasileira

Pessoas de diferentes idades usando smartphones em um ambiente urbano com barracas de comércio ao fundo
Resumo da pesquisa:
  1. O estudo propõe uma abordagem decolonial no campo dos Sistemas de Informação (SI), ao integrar saberes locais e no desenvolvimento de uma criptomoeda solidária.
  2. Utilizandodesign etnográfico, os autores acompanharam o projeto Crypto-Sol, desenvolvido com comunidades em uma favela brasileira, articulando economia solidária e blockchain.
  3. O artigo introduz o conceito de “tensão dialógica epistêmica”, destacando o papel de atores intermediários na mediação entre conhecimentos técnico-gerenciais, hegemonicamente mais ocidentais, e saberes comunitários, que constantemente ficam à margem das discussões.
Pesquisador(es):

A hegemonia ocidental no desenvolvimento de tecnologias digitais tem reproduzido desigualdades históricas, marginalizando saberes locais e indígenas. Sendo assim, cresce o interesse por modelos de inovação mais inclusivos e socialmente comprometidos. No campo dos Sistemas de Informação (SI), iniciativas decoloniais ganham força ao propor tecnologias centradas na realidade de comunidades marginalizadas, como alternativa às soluções padronizadas e globalizadas. Um exemplo promissor é o uso de criptomoedas solidárias aliadas à economia solidária latino-americana.

A pesquisa foi conduzida por Bruno Henrique Sanches, Marlei Pozzebon e Eduardo Henrique Diniz, pesquisadores da FGV EAESP, e publicada na prestigiada Information Systems Journal. Por meio de uma metodologia de design etnográfico, os autores acompanharam durante seis meses o desenvolvimento do projeto Crypto-Sol. Ela é uma criptomoeda solidária criada em uma favela brasileira com a colaboração de organizações comunitárias, acadêmicos e uma startup de blockchain. Dessa forma, a observação participante foi o principal método de coleta de dados, garantindo uma compreensão profunda do contexto e das dinâmicas locais.

 

Gestão e solidariedade coexistindo para criar uma criptomoeda solidária


No centro do estudo está a proposta de descolonizar os Sistemas de Informação. A pesquisa revela que o desenvolvimento do Crypto-Sol desafiou a visão tecnocrática convencional ao integrar valores da tecnologia social, como a centralidade do local, a ecologia de saberes e a justiça epistêmica. Isso significa reconhecer que os saberes locais não são “menos técnicos”, mas sim outras formas legítimas de conhecimento.

Portanto, o projeto revelou duas visões em constante tensão: um quadro centrado na gestão, focado na eficiência e controle do processo de desenvolvimento blockchain, e um quadro centrado na solidariedade, guiado por princípios de autogestão, engajamento comunitário e transformação social. Esses dois modos de pensar não foram excludentes, mas coexistiram por meio da mediação de atores intermediários.

 

O segredo é usar o conhecimento de intermediários para encontrar a harmonia


Esses atores intermediários — como pesquisadores engajados e líderes comunitários com formação técnica — atuaram como pontes entre os dois mundos. Além disso, sua habilidade em traduzir entre as linguagens da solidariedade e da tecnologia foi fundamental para o progresso do projeto. Essa atuação tem raízes na extensão universitária, muito comum nas universidades públicas brasileiras, conectando ciência e comunidade.

Por fim, o conceito de tensão dialógica epistêmica emerge como uma inovação teórica importante. Ele descreve o processo no qual diferentes formas de conhecimento coexistem e se adaptam mutuamente, promovendo soluções mais plurais e culturalmente sintonizadas. Portanto, o estudo mostra que, ao reconhecer essa diversidade, é possível construir tecnologias mais justas, sustentáveis e enraizadas nas realidades locais. Esse é um passo crucial para a verdadeira transformação digital na América Latina.

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Nota 2: imagem elaborada por Inteligência Artifical.