Alexandre Stellet, Aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP e executivo de empresas no setor de serviços de Tecnologia da Informação
O mundo dos negócios está em constante transformação, impulsionado pelos avanços da inteligência artificial, pela pressão crescente por práticas sustentáveis e pelas tensões geopolíticas que afetam as cadeias globais de suprimentos. Nesse cenário dinâmico e complexo, as empresas se deparam com uma questão fundamental: como se estruturar internamente para alcançar seus objetivos? O desafio consiste em elaborar uma estrutura que combine agilidade, capacidade de inovação e adaptação, exigidas pelo contexto de mudanças, sem, contudo, renunciar ao controle e da eficiência operacional.
Esse desafio se aplica a todas as áreas de atuação e está diretamente ligado ao desempenho e à continuidade da empresa. Como, então, chegar lá? Mantendo o desenho consolidado há anos na empresa, com ajustes pontuais? Copiando modelos prontos de outras empresas? Seguindo formatos que estão em alta no momento? Essas são abordagens comuns, mas será que funcionam?
Felizmente, a ciência da administração oferece contribuições valiosas para enfrentar essa questão. Um exemplo vem do pesquisador em liderança Ned Wellman, que apresenta diferentes formas de estruturar uma organização conforme o modo como a autoridade formal é distribuída. Entre as alternativas, está o modelo clássico da pirâmide, com decisões fluindo verticalmente do topo para a base. Em contraste, há o modelo flat, no qual a autoridade é compartilhada de forma mais equivalente. Além desses extremos, existem modelos intermediários que combinam elementos de ambos.
Vale lembrar, no entanto, que cada tipo de estrutura tem seus pontos fortes e suas limitações, e não deve ser adotado como uma escolha de prateleira, selecionada por critérios genéricos ou adequada a qualquer organização. Ao contrário, o desenho ideal precisa ser uma resposta à estratégia específica da empresa, alinhado ao seu modelo de negócio e características próprias, como porte, maturidade, diversificação e cultura.
Quando o foco está na eficiência operacional e na padronização de processos, por exemplo, a pirâmide tradicional costuma ser aplicável, já que o fluxo vertical de comando favorece o controle e a previsibilidade, fatores essenciais em segmentos como a produção de bens básicos ou a prestação de serviços padronizados.
Em contrapartida, empresas orientadas pela inovação, como startups de tecnologia ou negócios voltados a serviços criativos, tendem a adotar a estrutura flat, de configuração mais horizontal. Esse formato estimula um ambiente colaborativo, facilita o compartilhamento de informações e acelera a tomada de decisões.
Já quando a estratégia está centrada na experiência do cliente e em suas particularidades, o modelo da pirâmide invertida ganha relevância. Ele se ajusta bem a contextos em que os profissionais da linha de frente, com o apoio da liderança, precisam de autonomia para decisões personalizadas, como ocorre na oferta de produtos ou serviços premium.
Mas como implantar uma estrutura que reflita, de fato, a estratégia da empresa? O ponto de partida está na compreensão clara das diretrizes e posicionamento estratégico, seguida pela definição das funções e das formas de coordenação mais adequadas ao modelo de negócio. A adoção deve ser cuidadosa, com pilotos e testes que permitam ajustes e facilitem a adaptação da equipe à nova dinâmica. Por fim, é essencial incluir mecanismos de avaliação contínua e ter flexibilidade para que a estrutura evolua conforme mudanças externas e internas.
Percebe-se, assim, que o organograma de uma empresa deve representar muito mais do que uma simples hierarquia. Idealmente, ele deve ser um reflexo da estratégia, com impacto direto na capacidade da empresa de realizar o que se propõe. Por isso, manter estruturas por mera tradição, replicar modelos alheios ou seguir modismos pode levar a arranjos inadequados, desconectados da estratégia vigente.
A propósito, o que a estrutura da sua empresa reflete? Estratégia e estrutura estão alinhadas, dialogam entre si? Caso não estejam, convém revisitar a prancheta.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão
