Como a colaboração supera rivalidades geopolíticas

Astronautas americanos e soviéticos trabalhando juntos durante o Projeto Apollo–Soyuz, simbolizando colaboração apesar das rivalidades geopolíticas.
Resumo da pesquisa:
  1. O estudo mostra que, mesmo sob forte rivalidade geopolítica, a colaboração é possível quando há ambientes protegidos para diálogo e criatividade.
  2. A colaboração entre EUA e URSS no Projeto Apollo–Soyuz só avançou porque os participantes criaram “espaços livres”, longe da supervisão política.
  3. Esses espaços permitiram trocas abertas, construção de confiança e resolução de diferenças culturais e técnicas.
Pesquisador(es):

Thomas Fewer

Dali Ma

Diego Coraiola

Em um cenário global cada vez mais marcado por conflitos políticos, tensões econômicas e agendas nacionais divergentes, trabalhar com parceiros de outros países tornou-se desafiador. Embora organizações dependam da colaboração internacional para inovar e resolver problemas complexos, rivalidades geopolíticas podem criar barreiras que dificultam trocas de informação, confiança e alinhamento. Assim, para entender como superar esses obstáculos, vale olhar para um dos casos mais emblemáticos de cooperação entre rivais: o Projeto de Teste Apollo–Ssoyuz, que uniu EUA e URSS em plena Guerra Fria.

O estudo foi conduzido por Thomas Fewer, Dali Ma e Diego Coraiola (FGV EAESP) e publicado na revista Organization Science. Os autores analisaram o Projeto Apollo–Soyuz por meio de documentos históricos, registros oficiais, relatos de participantes e arquivos desclassificados. Sendo assim, desenvolveram um modelo que explica como equipes conseguem colaborar mesmo quando governos adversários supervisionam de perto suas ações.

Como organizações colaboram em meio a rivalidades geopolíticas: o que o caso Apollo–Soyuz ensina ao mundo atual

A pesquisa mostra que os participantes viviam entre dois “mundos”: o espaço supervisionado, onde tudo era monitorado e permeado por desconfiança, e o espaço livre, onde podiam conversar, trocar experiências e construir relações pessoais. Dessa forma, no espaço supervisionado, a presença constante de representantes estatais e a pressão ideológica tornavam difícil compartilhar informações ou debater soluções. Assim, surgiam barreiras técnicas, culturais e até emocionais.

Porém, fora desse ambiente rígido, os profissionais criaram encontros informais — jantares, passeios, visitas e conversas reservadas — que funcionaram como verdadeiros laboratórios de cooperação. Nesses espaços livres, eles compartilhavam dificuldades, discutiam diferenças e criavam pontes para resolver problemas que, dentro das organizações, pareciam sem solução.

Sendo assim, surgiu o que os autores chamam de trabalho de tradução: um esforço para transformar o que aprenderam no espaço livre em práticas que pudessem ser aplicadas no ambiente supervisionado. Isso ajudou a adaptar linguagem, reduzir mal-entendidos, desfazer preconceitos e melhorar a troca de informações técnicas. Além disso, com o tempo, essa confiança reconstruída permitiu que as equipes reduzissem a autocensura e enfrentassem juntos os desafios do projeto.

Portanto, o acoplamento bem-sucedido das naves Apollo e Soyuz, em 1975, prova que a colaboração entre rivais é possível — mas exige mais do que acordos formais. Exige criar espaços nos quais as pessoas possam se conectar sem pressões políticas, construir confiança genuína e transformar diferenças em aprendizados. Por fim, em um mundo em que tensões entre países voltam a crescer, o estudo lembra que parcerias internacionais só prosperam quando há espaço para o diálogo humano, mesmo em meio à rivalidade geopolítica.

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