Projeto prepara mulheres para tornar a cadeia de valor de café sustentável e livre de desmatamento no Brasil

Mulher cuidando de fileiras de mudas verdes em um viveiro durante o pôr do sol, focada no trabalho de reflorestamento.

No contexto do novo Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), iniciativa do FGVces promoveu capacitação para mais de 170 pequenas produtoras e empreendedoras da cadeia de suprimentos de café 

“Quando eu crescer, vou ser cafeicultora. Vou produzir café que não contamina a água nem o solo”. A frase, dita ainda na juventude por Walkíria Andrade, hoje resume a trajetória de um grupo de mulheres que estão dispostas a redesenhar a produção cafeeira no Brasil a partir de práticas mais sustentáveis. 

Ao longo de 2025, essas e outras trajetórias se encontraram nas oficinas promovidas pelo o  Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) no âmbito do projeto Arabica-Canephora, idealizado para promover uma cadeia de valor do café sustentável e livre de desmatamento no Brasil, incentivando a adoção das melhores práticas entre pequenas produtoras e PMEs lideradas por mulheres e jovens na cadeia de suprimentos de café, integrando ferramentas digitais para geolocalização e rastreabilidade, e envolvendo demais stakeholders para cumprir com o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). 

Entre encontros presenciais e virtuais, as oficinas reuniram 175 participantes de diferentes regiões do país e abordaram temas como sustentabilidade ambiental, rastreabilidade, sucessão familiar, direitos humanos, trabalho decente, acesso a mercados e adequação a marcos regulatórios internacionais, em especial o EUDR, que estabelece critérios para assegurar que produtos consumidos no mercado europeu não estejam associados ao desmatamento ou à degradação florestal em países produtores. 

A iniciativa responde a um cenário de crescente exigência por cadeias produtivas mais transparentes, responsáveis e alinhadas às agendas globais de sustentabilidade, ao mesmo tempo em que busca ampliar o protagonismo das mulheres na cafeicultura brasileira.

Sustentabilidade como eixo estruturante da produção cafeeira 

Formada em Agronomia e atuando no setor cafeeiro há oito anos, Walkiria Andrade (Café das Águas), do sul do Espírito Santo, mantém o compromisso com uma produção sustentável, sem o uso de defensivos químicos. Com um cultivo associado à proteção de nascentes, ao manejo adequado do solo e à construção de um sistema mais resiliente, Andrade reconhece que a adoção dessas práticas melhora o microclima e a biodiversidade local, além de gerar um melhor custo benefício na produção rural. 

Em Minas Gerais, Elma Villela (Café Sítio Refazenda) aplica princípios da agricultura regenerativa com cobertura do solo há oito anos, além de realizar o monitoramento da fauna e da flora em áreas de mata nativa protegida. Entre outras inovações, ela destaca o uso do paper pot, recipiente biodegradável que substitui os tradicionais tubetes e sacolas plásticas e tem se mostrado mais eficiente para o desenvolvimento das mudas. 

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Elma Villela (MG) trabalhando no seu viveiro de mudas | Fotografia: Arquivo pessoal da entrevistada 

Já no Leste Rondoniense, Suely Berdes (Al’Café), é a quarta colocada no concurso ConCafé 2023, no quesito qualidade e sustentabilidade do café em Rondônia. Para ela, a sustentabilidade está diretamente associada à valorização do território amazônico, bioma predominante da região onde atua.

Essas experiências refletem a transição do café como commodity para cafés especiais, com identidade territorial e qualidade reconhecida, o que tem ampliado o acesso das produtoras a novos mercados, apesar dos desafios relacionados à escala, à logística e à comercialização. 

Protagonismo feminino e governança na cadeia de valor do café 

Além da produção, as entrevistadas atuam diretamente no planejamento produtivo, na organização financeira, na definição de práticas sustentáveis e na inserção dos produtos no mercado.

Após anos de envolvimento com a cafeicultura, Villela relata que a gestão da propriedade foi formalmente transferida para os filhos, mas que ela segue exercendo um papel de liderança coletiva como presidente de uma associação local, “As Cafezeiras de Nepomuceno”, onde compartilha os aprendizados adquiridos ao longo das oficinas.

Berdes foi campeã do prêmio Três Corações do concurso Florada, em 2024. Como parte da premiação, realizou uma viagem ao Peru com o objetivo de conhecer os processos produtivos de café naquele país. 

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Suely Berdes (RO) durante viagem ao Peru | Fotografia: Arquivo pessoal da entrevistada 

Por outro lado, para Andrade, ainda é necessário ampliar a representatividade de produtoras nos espaços de debate, inclusive para aproximar as soluções propostas da realidade do campo. Ela aponta que, durante as oficinas, havia apenas mais uma mulher do Espírito Santo. 

Capacitação técnica e disseminação do conhecimento 

“Aqui no Norte não temos muito acesso ao que está acontecendo fora do nosso estado [..] Então, quando as professoras vêm e nos trazem conhecimento, é incrível.” Para Berdes, a possibilidade de participar de oficinas em sua própria região representa uma oportunidade rara de acesso a informações sobre sustentabilidade, mercado e certificações.

Os encontros do Arabica-Canephora são descritos como espaços de aprendizado, atualização e troca de experiências, especialmente relevantes para regiões com menor acesso a iniciativas de capacitação.

Segundo Villela, os conteúdos abordados contribuíram para aprofundar práticas que já vinham sendo adotadas na propriedade. “Foi uma experiência gratificante, de aprendizado, de conhecimento e convivência com outras mulheres do café.”, relatou. 

No caso de Andrade, sua formação prévia já dialogava com os temas tratados nas oficinas, especialmente no que se refere à sustentabilidade ambiental e à rastreabilidade. Ainda assim, ela ressalta a importância de iniciativas de capacitação que traduzam conceitos técnicos para a realidade dos pequenos produtores. 

Rastreabilidade e adequação a marcos regulatórios internacionais 

A rastreabilidade e a conformidade com marcos regulatórios internacionais, como o EUDR, figuram entre os temas que mais despertaram atenção durante as oficinas. As entrevistadas reconhecem a relevância dessas exigências para o acesso a mercados internacionais, mas também apontam desafios relacionados à complexidade técnica e à adequação das soluções propostas às realidades locais.

Andrade relata já aplicar práticas de rastreabilidade em sua produção, mas ressalva que essa não é a realidade dos pequenos produtores, de maneira geral. O mesmo pode ser dito sobre alguns aspectos da legislação. 

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Walkiria Andrade (ES) durante gravação em sua lavoura | Fotografia: Arquivo pessoal da entrevistada

Em Minas Gerais, Villela destaca que as oficinas contribuíram para ampliar o entendimento sobre as exigências do EUDR, a importância da regularização trabalhista e o papel das certificações, aspectos que passaram a orientar ajustes na gestão de sua propriedade.

Para Berdes, embora a exportação ainda seja um objetivo em construção, o contato com o tema reforça que a sustentabilidade e a organização produtiva são pré-requisitos para acessar novas oportunidades. “[...] Trabalhar com qualidade, sustentabilidade e respeito ao meio ambiente é uma questão de escolha. Qualquer um pode ser sustentável, autossuficiente, sem agredir o meio ambiente”, concluiu. 

Sobre o projeto Arabica-Canephora 

O Arabica-Canephora surgiu no contexto das novas demandas internacionais por produtos livres de desmatamento e com maior controle socioambiental ao longo de toda a cadeia produtiva do café — da produção e do processamento à comercialização.

O projeto é liderado pelo FGVces, em parceria com o Collaborating Centre on Sustainable Consumption and Production (CSCP) e a Aliança Internacional das Mulheres do Café - IWCA Brasil , e com cofinanciamento do programa AL-INVEST Verde, da União Europeia. Para saber mais sobre o projeto, acesse: Arabica-Canephora 

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