Políticas Públicas e inclusão financeira: progressos inesperados em tempo de crise?

Políticas Públicas e inclusão financeira: progressos inesperados em tempo de crise?

Por Lauro Emilio Gonzalez Farias, professor e pesquisador do Centro de Estudo em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV.

O mundo percorre o túnel da crise sem enxergar ainda sinais de luz apontando a saída. A aflição das incertezas acaba alimentando especulações sobre o cenário pós covid-19. Como em outros momentos de turbulência, ainda que menos graves do que o atual, parece valer a máxima segundo a qual “ninguém sabe exatamente como o mundo ficará, mas todos têm certeza que ficará diferente do que é hoje”. Futurologia à parte, é possível enxergar progressos impensáveis em tempos normais, conforme lembrado por Ronaldo Lemos [i].

Claro que é preciso separar a fotografia atual do filme que se projeta. A fotografia é desoladora e mostra cenas de aglomerações nas agências da Caixa, expondo a verdadeira saga [ii] enfrentada pelos mais pobres para tentar receber a renda básica emergencial. Ao mesmo tempo, essas cenas evidenciam os efeitos negativos da exclusão financeira e salientam as relações entre os serviços financeiros, tais como os meios de pagamento, e a implementação de políticas públicas. Basta lembrar a importância dos correspondentes bancários para o sucesso do bolsa-família. Na correria pela sobrevivência em meio à crise, muitos podem ter saído das filas sem os 600 reais e com o vírus. Houvesse o Brasil e a Caixa avançado mais rapidamente nos pagamentos digitais, isso poderia ser evitado ou mitigado.

Entretanto, pensando no filme, a necessidade de fazer com que a renda básica emergencial chegue à população vulnerável pode provocar uma reviravolta no número de bancarizados. O objetivo é fazer em poucas semanas o que não se fez em muitos anos: a abertura de até 15 milhões de contas. Isso é plenamente possível e será um avanço. O caso de bancarização da Índia, viabilizado a partir da criação de sua identidade digital (Aadhaar), é um bom exemplo de política pública. Os números do Globalfindex, [iii] uma base de dados do Banco Mundial, atestam que, fazendo um recorte específico para a população de menor renda, a porcentagem de adultos que possuem conta corrente no país saltou de 27% (2011) para 77% (2017). Diversos estudos [iv] ressaltam a importância da identidade digital e dos mecanismos de E-KYC ( know your customer ), uma forma eletrônica de saber exatamente quem está na outra ponta, para impulsionar a abertura de contas, o que contribui ainda para que as políticas públicas cheguem a quem precisa.

No tocante ao Brasil, a afirmação de Ronaldo Lemos sobre a inclusão dos mais pobres no sistema bancário merece maior detalhamento. Utilizando o mesmo recorte de renda feito para Índia, a porcentagem de adultos que possuem conta corrente passa de 38% (2011) para 57% (2017). Ou seja, apesar do aumento, o Brasil ficou para trás na abertura de contas. A crise atual escancara a necessidade de alcançar uma parcela da população que permanece quase tão invisível quanto o vírus para o sistema financeiro tradicional, incluindo os bancos públicos [v].

Contudo, a fim de melhor compreender essa população, é preciso fazer uma distinção entre bancarização e inclusão financeira. Muitos têm acesso a serviços e produtos financeiros formais sem estar bancarizada. Por exemplo, milhares de pessoas atuando na economia do bico utilizam as maquininhas para transações com cartões e não possuem contas correntes, apenas contas de pagamento. No Brasil, 44% da população adulta de baixa renda possuía cartão de débito em 2017. Na Índia, 17%.

A inclusão financeira é definida como o “processo de efetivo acesso e uso pela população de serviços financeiros adequados às suas necessidades, contribuindo com sua qualidade de vida”. A diferença entre acesso e uso não é meramente semântica, mas baseada no entendimento de que o foco exclusivo no acesso a contas correntes é inadequado. É preciso considerar em que medida as pessoas de fato utilizam tais contas. A posse de conta correntes infla as estatísticas de bancarização, mas um baixo uso denota pouca adequação às necessidades da população de menor renda.

Repete-se com a renda básica emergencial o que há tempos acontece com muitos usuários do bolsa família: as pessoas correm às agências para sacar os recursos e não utilizam as contas no cotidiano. As consequências são muito piores no atual contexto, diante da necessidade de evitar aglomerações. O fosso que separa acesso e uso também é relevante para o caso indiano, para o qual há evidências [vi] de que, quando o foco recai sobre os mais pobres, as iniciativas de abertura de contas precisam ser acompanhados de ações que impulsionem o uso das mesmas, sob pena de contribuírem pouco para o aumento de bem-estar da população vulnerável.

A crise da Covid19 abrirá portas para um mundo diferente, cuja história está sendo escrita neste momento. A inclusão financeira poderá ocupar uma página importante se for além da bancarização.

[i] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2020/04/desacelerar-p...

[ii] https://piaui.folha.uol.com.br/tente-mais-tarde/?fbclid=IwAR2q9phyRwyowo...

[iii] https://globalfindex.worldbank.org/

[iv] http://pimtjr.in/wp-content/uploads/2019/11/12.1-Combined.pdf#page=72

[v] https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/a-caix...

[vi] https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/02681102.2018.1540390
 

Últimas postagens

Liderança para sustentabilidade nas empresas orientando equipes e estratégias de gestão sustentável.
Administração de empresas

Liderança é o principal motor da sustentabilidade nas empresas, aponta estudo

A liderança para sustentabilidade nas empresas tem um papel decisivo para transformar boas intenções em resultados…
foto do autor com o nome dele
Blog Gestão e Negócios

Regeneração: A Nova Estratégia Para Resolver o Impasse Corporativo

Rodrigo Curi de Lima, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESPPor que algumas empresas…
Profissionais em laboratório farmacêutico representam como as compras públicas na saúde impulsionam inovação e produção nacional
Administração pública Gestão de saúde

Como compras públicas na saúde podem fortalecer o SUS e impulsionar a inovação

Quando um governo compra medicamentos e vacinas para o sistema público de saúde, o objetivo imediato é garantir…
foto do autor com o nome dele
Blog Gestão e Negócios

O Erro de se Investir no Brasil com Lógica Importada

Marcelo Martinho Pedro, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESPBoa parte dos investidores…