Onde a aprendizagem vira potência coletiva

Antes de ocupar a cadeira de Head de Pessoas e Cultura na Dengo Chocolates, Ana Clara Silva Pinto já tinha aprendido, muito cedo, o que era trabalho. Mineira de Juiz de Fora, vendia de porta em porta com a mãe perfumes, doces, lingerie, salgadinhos. “Antes do ensino médio, eu falava que meu maior sonho era ser vendedora de loja. Eu vendia muito na rua, imagina se fosse pra uma loja. Até aquele momento, aquele era todo o meu universo.” 

O primeiro ponto de virada veio com a educação. No curso técnico de informática, cercada de colegas que planejavam fazer faculdade, percebeu que suas notas altas poderiam abrir outros caminhos. “Entendi que eu poderia ser muitas outras coisas, o que eu quisesse.” Mais do que o conteúdo, foi o ambiente que a transformou. Pessoas, referências, novas possibilidades. Desde então, estudar deixou de ser etapa e virou método de vida. 

Depois da graduação, da pós e de formações complementares, sentiu falta de uma curva mais intensa de aprendizado. O mestrado entrou como escolha estratégica. E o lugar importava. “O lugar para fazer mestrado precisa te trazer um ambiente de evolução, de transformação pelas pessoas ali presentes.” Entre 2020 e 2022, cursou o Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade da FGV EAESP, na linha de Gestão de Pessoas. 

Cursando mestrado durante a pandemia, fez o máximo de matérias que conseguia. Leitura intensa, pesquisa, eventos, conexões virtuais. “Acho que bati recorde em número de disciplinas cursadas, mas o que mais impactou foi a potência da troca.” Mesmo com poucos encontros presenciais, os vínculos permaneceram. 

Ana Clara organiza sua experiência em três dimensões. A primeira é o conteúdo. Professores com forte base acadêmica e visão de mercado ampliaram repertório e instrumentalizaram decisões. A segunda é a rede. “Eu nunca tive contato com tantas pessoas inteligentes e colaborativas ao mesmo tempo como na minha turma do mestrado da FGV. É uma generosidade impressionante.” A troca extrapolou a sala de aula. Colegas viraram benchmark, parceiros e até fornecedores. Foi uma colega do mestrado quem enviou a vaga que a conectou ao então CEO da Dengo. “Com certeza acelerou o processo.” 

A terceira dimensão é simbólica. “Estamos em um mundo que não dá para desconsiderar que a chancela FGV traz um reforço para a marca pessoal também.” O título aparece nas palestras, nas aulas que ministra, nas apresentações institucionais. “Nossos cargos não são permanentes. Hoje estou Head de Pessoas e Cultura, mas o título de mestre ninguém tira de mim. Essa sou eu.” 

O mestrado também antecedeu a chegada à cadeira C-level. Vieram palestras, aulas, reconhecimento. Em 2025, foi eleita uma das 10 RHs mais admiradas do Brasil pelo Grupo Gestão RH. Curiosamente, ela não planejava trabalhar com Recursos Humanos. “Eu não escolhi o RH, o RH que me escolheu.” Passou por marketing social, programas de qualidade, trainee, vendas e gestão. Foi ao perceber que indicadores só se movem quando pessoas estão motivadas que uma chave virou. “Os números me levaram para a área de pessoas. E hoje eu sou apaixonada por pessoas.” 

Para quem atua em RH, Ana Clara deixa o alerta de que a competência central é a autoaprendizagem. Em um contexto geopolítico instável, com eleições, eventos extremos e inteligência artificial redesenhando negócios, não basta entender de tudo. “Você tem que entender de aprendizagem. Vai aprender lendo, trocando, experimentando.” 

E para quem cogita o mestrado, a mensagem é “Se você já está pensando, é porque a sementinha já está plantada. Comece. Aproveite a jornada. Ninguém sai de um mestrado da mesma forma que entrou.” Ela não saiu. E segue, deliberadamente, em movimento. 

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