3º Fórum Empresarial em Adaptação à Mudança do Clima reúne setor privado e gestão pública e lança plataforma pioneira de relato climático

3º Fórum Empresarial em Adaptação à Mudança do Clima reúne setor privado e gestão pública e lança plataforma pioneira de relato climático

Liderado pelo FGVces, o Programa Brasileiro de Relato Empresarial em Adaptação cria o primeiro registro público e voluntário do país para alinhar as ações corporativas de resiliência climática a padrões globais de transparência

O 3º Fórum Empresarial em Adaptação à Mudança do Clima, promovido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (FGVces) nos dias 5 e 6 de maio, reuniu lideranças corporativas, representantes do poder público, da academia e da sociedade civil para debater o papel do setor privado na implementação de ações de adaptação e a necessária articulação multissetorial para o avanço da agenda.

A abertura do Fórum foi marcada por um convite à ação coletiva. Fernanda Carreira, diretora do FGVces, destacou que o evento ocorre em um cenário crítico, relembrando tragédias recentes nos estados nordestinos, e pontuou que o avanço da pauta, ou seja, sua implementação, requer priorização, alocação de recursos e  compromissos públicos por parte do setor privado.

Como resposta a essa necessidade de maior engajamento, o evento foi palco do lançamento da versão beta da plataforma online do Programa Brasileiro de Relato Empresarial em Adaptação (PBRA), uma iniciativa pioneira liderada pelo Centro. De acordo com Isabela Oliveira, pesquisadora e gestora de projetos do FGVces, a plataforma funcionará como um espaço para a sistematização de informações, reunindo materiais, referências e boas práticas empresariais

 A ferramenta foi oi estruturada para dialogar com marcos internacionais consolidados, como IFRS S2, GRI, CDP e as normas ISO 14090 e 14091, no sentido de garantir a interoperabilidade entre as iniciativas. Assim, além de apoiar as empresas, formará o primeiro registro voluntário de adaptação do país, dando transparência às informações sobre a o avanço da agenda de adaptação de interesse de organizações do sistema financeiro, seguros e governos. 

Lançamento da plataforma do PBRA
Painel gráfico elaborado durante o 3º Fórum Empresarial em Adaptação à Mudança Climática 
Projetos-piloto e carta-compromisso

O PBRA também abriu uma chamada para selecionar três organizações de diferentes portes e setores dispostas a testar a plataforma de forma gratuita e voluntária. Focado na aprendizagem, o piloto não publicará os relatos elaborados, criando um ambiente seguro para que as empresas fortaleçam sua governança interna com apoio técnico e contribuam para o ajuste das diretrizes. Organizações interessadas devem acessar o formulário na página do PBRA, que também segue aberto a parcerias institucionais.

O evento também marcou o lançamento da "Carta Compromisso Empresarial pela Adaptação à Mudança do Clima". Mariana Nicolletti, coordenadora do programa Adapta do FGVces, explicou que o documento convida o setor empresarial a assumir a pauta publicamente, propondo um avanço gradual para o mapeamento e gestão de riscos e oportunidades. O Grupo Boticário foi a primeira organização signatária, estimulando o mercado a alinhar estratégias para reduzir vulnerabilidades e aumentar a resiliência.

Debates sobre mercado e políticas

No painel de abertura do evento, especialistas discutiram como os riscos físicos do clima afetam o custo de capital e a estruturação de políticas públicas. Eduardo Viola, docente de Relações Internacionais da FGV, traçou um panorama desafiador para a governança global, destacando o esvaziamento do multilateralismo, enquanto Marcelo Billi, head de Sustentabilidade da Anbima, trouxe a perspectiva do setor financeiro, afirmando que o mercado já integra a lente climática nas análises de custo de capital, mas esbarra na ausência de padronização de dados.

Já Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, alertou que, como os recursos públicos e os fundos de cooperação internacional são insuficientes para suprir as vulnerabilidades territoriais, é preciso uma ‘virada de chave’ no financiamento climático e na formulação de políticas, inclusive para garantir que o dinheiro chegue aos municípios com menor capacidade de endividamento.

Pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a Diretora de Políticas para a Adaptação, Inamara Mélo, fechou o painel reforçando a importância do Fórum e da necessária articulação entre políticas públicas e estratégias empresariais. Também ressaltou que “soluções concretas exigem um compromisso e uma efetividade. O maior desafio está para além do planejamento”.

Contexto para atuação empresarial em adaptação
Painel gráfico sintetiza alguns dos pontos discutidos no debate sobre atuação empresarial em adaptação 
Foco na atuação empresarial

Na sequência do painel de abertura, o Fórum promoveu uma palestra magna, dois painéis e sessões de debates em salas paralelas. Ricardo Mussa, presidente da Sustainable Business COP (SB COP), compartilhou a experiência de compilar mais de 1.400 casos práticos globais de ação climática corporativa que aliam sustentabilidade e retorno financeiro. A principal mensagem foi de que é possível influenciar a adoção de políticas públicas apresentando soluções viáveis e escaláveis.

Já o painel “A atuação empresarial em adaptação à mudança do clima” reuniu Renata Moraes, presidente do Instituto e diretora de Responsabilidade Social da Motiva, Rodolfo Mota, coordenador de Apoio à Gestão Pública do Instituto Votorantim (IV), e Luis Meyer, diretor de Sustentabilidade e diretor Executivo da Fundação Grupo Boticário (FGB). 

Entre outros pontos, Moraes, da Motiva, relatou que o custo da adaptação climática passou a integrar a modelagem financeira de leilões e concessões de longo prazo. Mota, por sua vez, compartilhou que o Instituto Votorantim, entendendo que a operação depende de capacidade adaptativa territorial, criou um projeto em parceria com o FGVces para fortalecer a gestão de desastres em municípios (saiba mais aqui). Representando a FGB, Meyer focou na importância das Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e na segurança hídrica como fatores vitais para a sobrevivência econômica dos negócios.

Adaptação é uma agenda econômica e de competitividade para os negócios
Painel gráfico elaborado durante a apresentação de Ricardo Mussa no 3º Fórum Empresarial em Adaptação à Mudança do Clima
Painel: A relevância global de padronizar o relato no Brasil 

Logo após o lançamento e a apresentação da plataforma de registro de dados do PBRA, a platéia ouviu o depoimento de representantes de instituições parceiras que integraram as oficinas de construção do Programa. Carla Leal, Market Director for Latin America no CDP e representante do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), ressaltou o caráter inédito da iniciativa e afirmou que o seu desenvolvimento reforça o potencial do Brasil de assumir a liderança global na agenda sustentável.

Na mesma linha, Paloma Pinheiro, coordenadora de Clima no Pacto Global da ONU na Rede Brasil, destacou a importância da ação corporativa. Representando uma rede global de empresas engajadas em iniciativas de sustentabilidade, Pinheiro expressou orgulho por ver o país construir e lançar uma plataforma com tamanho rigor técnico, pontuando que a existência de uma ferramenta robusta de transparência traz concretude e esperança para o enfrentamento da crise climática.

Salas paralelas e plenária: aprofundamento técnico e troca de experiências

O público participante dividiu-se em quatro discussões paralelas. Essa dinâmica foi estruturada para permitir um aprofundamento técnico em temas específicos da agenda climática. Na sala sobre “Adaptação e justiça climática: por que as empresas precisam aplicar a lente de justiça climática em seus negócios?”, foram convidados os painelistas Yago Freire (LACLIMA), Miriam Garcia (WRI), Cinthia Gherardi (Sistema B) e Juliane Sousa (Sistema B). A mediação foi feita por Mariana Nicolletti e a gestão de conteúdo por Giovanna Sousa (Instituto ETHOS).

"Do risco à resiliência: o papel das Soluções baseadas na Natureza na proteção da cadeia de valor” foi tema de outra sala, que contou com os painelistas Anke Salzmann, Willian Almeida e Andre Ferretti (Fundação Grupo Boticário), e Tauana da Rosa (Phytorestore). Armin Deitenbach (GIZ) realizou a mediação enquanto Danielly Freire (Pacto Global) assumiu a gestão de conteúdo. 

O público também pôde optar pelas salas “O business case da adaptação: do retorno sobre investimento aos projetos financiáveis”, com Bruna Cesar (Itaúsa) e Luana Betti (WRI Brasil) no papel de painelistas, Fabio Pinto (FGVces) como mediador e Bianca Silva (CEBDS) na gestão de conteúdo; e “Mecanismos de adaptação climática em parcerias público-privadas e concessões”, com os painelistas Eduardo Gonçalves (iCS) e Yuri Giustina (Ministério das Cidades). Bruno Carnelosso (Radar PPP) realizou a mediação, enquanto Marta Blazek (FGVces) ficou na gestão de conteúdo.

O primeiro dia se encerrou com um último painel conduzido por Érico da Rocha (MMA), que abordou os meios de implementação e instrumentos que apoiarão o Plano Clima Adaptação para o financiamento da agenda.

Salas de debate do 3º Fórum Empresarial em Adaptação à Mudança do Clima
Painel gráfico com os temas e tópicos abordados nas salas de debate do Fórum 
A territorialização do Plano Clima e o convite à colaboração entre empresas e municípios

Mariana Nicolletti abriu a programação reafirmando que a adaptação é uma agenda de negócios e que seu avanço também depende de capacidade técnica e de uma rede consolidada de pessoas e instituições atuando de forma conjunta.

Para detalhar como essa rede pode operar na prática, a plenária recebeu Inamara Mélo, diretora de Políticas para a Adaptação e Resiliência Climática do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). A diretora apresentou o funcionamento do Plano Clima Adaptação e fez uma convocação para que a iniciativa privada integre os esforços de execução diretamente nos territórios, destacando o caráter multinível, multissetorial e participativo da agenda

Após a plenária, o público foi encaminhado para quatro salas setoriais de debate, focadas em Energia, Recursos Hídricos, Saúde e Transportes aquaviários. Os encontros contaram com a presença de pessoas representantes dos respectivos ministérios e/ou autarquias como palestrantes e deixa clara a importância de um diálogo direto entre setor público e privado.

Na sala setorial dedicada ao tema da Energia, os participantes abordaram o alinhamento das diretrizes do Plano Clima com as práticas do setor de energia, contando com a fala principal de Mariana de Mello, do Ministério de Minas e Energia (MME), Renato Sousa (ANEEL), mediação de Karine Lopes (MMA) e facilitação de Marcela Greggo (Instituto ETHOS).

Já a sala de Recursos Hídricos contou com a apresentação central de Saulo de Souza, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). A moderação foi conduzida por Luciana Alves (GIZ), com gestão de conteúdo de Armin Deitenbach (GIZ). As pessoas participantes exploraram os desafios da gestão de bacias hidrográficas frente aos extremos climáticos e a importância de promover a adaptação por meio da governança da água.

Rafaela Sousa, do Ministério de Portos e Aeroportos, e Uirá Cavalcante, da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) conduziram as discussões sobre Transportes Aquaviários. A moderação foi feita por Ana Carolina Câmara (GIZ) e a relatoria por Alexandre Ferreira (GIZ). A partir do estudo de caso do Porto de Santos, o grupo debateu por que o planejamento de infraestrutura precisa dialogar obrigatoriamente com o plano de ação climática do município. 

Por fim, Helen da Costa Gurgel e Clara Alves, do Ministério da Saúde ficaram à frente da sala sobre Saúde, mediada por João Schafaschek (MMA), com apoio de Isabela Oliveira (FGVces). O grupo apontou para o pioneirismo do Sistema Único de Saúde (SUS) e trouxe dados que revelam que os eventos climáticos extremos já alteram significativamente a morbidade e mortalidade no país.

Encerramento: um convite para a continuidade do diálogo e da ação

Para concluir os dois dias de imersão e troca de conhecimentos, Mariana Nicolletti (FGVces) ressaltou que as discussões e o engajamento do público participante demonstraram que o debate sobre a agenda exige continuidade, tornando o Fórum um marco estratégico desse processo contínuo de conexão entre os atores.  Os próximos passos incluem o avanço do PBRA e a publicação do relatório integral do evento no portal do FGVces.

De forma coerente com o tema, o Fórum contou com acessibilidade física e tradução em Libras. As emissões geradas foram integralmente compensadas pelo selo Evento Neutro (Eccaplan), apoiando projeto desenvolvido pela Cerâmica Kamiranga (PA), que viabiliza a tradição industrial sem desmatamento, substituindo lenha por biomassa renovável e preservando o bioma amazônico.

 

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