Um quinto de século

I remember when
I remember, I remember when I lost my mind
There was something so pleasant about that place
Even your emotions have an echo in so much space

Eu lembro quando
Eu lembro, eu lembro quando eu perdi minha cabeça
Havia algo tão agradável naquele lugar
Até mesmo suas emoções tinham um eco em tanto espaço

Crazy, Gnarls Barkley

Por Mario Monzoni*

2003. Naquela época, os Centros de Estudos da FGV-EAESP ocupavam o segundo andar do prédio da biblioteca. Recém-chegado, o FGVces dividia uma baia com o extinto Centro de Estudos de Turismo e Lazer. Éramos três, não tão jovenzinhos, saltando de paraquedas para empreender socialmente no campo da produção de conhecimento, em tema de pesquisa ainda muito pouco explorado. “Loucura!”

Há de se honrar pelo menos uma geração de visionários, ambientalistas, militantes dos direitos humanos, que desde a década de 60 já alardeavam os riscos do modo de produção e consumo hegemônico sobre os limites do planeta. Mesmo dentro da FGV, em São Paulo, os professores José Carlos Barbieri e Luiz Carlos Merege já atuavam no tema. No Rio, a Professora Aldaíza Sposati coordenava centro de pesquisa sobre desenvolvimento sustentável.

Não estávamos sós nem tínhamos chegado primeiro. Mas, ali, naquela baia emprestada, começava uma jornada, arquitetada meticulosamente em um guardanapo de papel, de contribuição à sociedade, no campo da gestão e políticas públicas e nas estratégias e práticas empresariais, dentro da agenda da sustentabilidade. O contexto era outro. O olhar sobre nós estava mais no campo do excêntrico, passando pelo ceticismo. De todo modo, havia “algo de agradável naquele lugar”, como canta a música de Barkley.

No Brasil, vivíamos o momento de protagonismo da Natura e do Banco Real, dois ícones da sustentabilidade empresarial do começo do século. Ethos e IBGC já davam seus pulos. O ISE nem tinha nascido, nem mesmo o GHG. E com eles o FGVces inaugura uma fila de projetos, perfilando uma sopa de letrinhas em suas inciativas. Afinal, não somos filhos de chocadeira: não tem ninguém que gosta mais de acrônimos que a FGV! New Ventures, ISE, GHG, EPC, ICV Global, ID Local, FIS, IE…ufa! Passamos por Juruti, Jirau, Belo Monte, BR 319 e, mais recentemente, pelo Rio Doce. No campo da educação, formamos quase um milhar de alunos e alunas na graduação e na pós graduação.

Passados 20 anos, como um tsunami, o acrônimo ESG — Environmental, Social and Governance, se espalhou pelas mídias e redes sociais frequentadas pela “elite” empresarial, financeira e acadêmica. Se o embrulho é novo, os conceitos por trás da expressão ESG nem tanto. O que vemos agora, longe de ser “uma nova onda”, é o resultado de um movimento histórico, um acúmulo de compreensões a respeito da relação dos processos naturais com os sociais – econômicos incluídos –, com raízes sólidas na ciência. A novidade é que o tema ganhou escala de alcance e de atores, desenhando um novo contexto para quem atua nesse movimento.

Se esse fato realiza um sonho sonhado há 20 anos atrás, por outro lado nos convida para revisar nossa missão. Para o FGVces, é hora de voltar a buscar o “espaço agradável” do “perder a cabeça” e desbravar novos futuros na patafísica e no imaginar novas fronteiras do debate sobre desenvolvimento. E, como somos relações, agradecemos a cada um e cada uma por tecermos juntes toda essa história!

 

*Mario Monzoni é coordenador geral do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces)

 

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