Nova lógica de prestação de contas sobre sustentabilidade desafia visão seletiva sobre stakeholders

Artigo de Aron Belinky, professor da FGV EAESP e especialista em sustentabilidade corporativa, publicado na revista GV Executivo, analisa o impacto dos novos padrões de reporte de sustentabilidade — como o IFRS S1 e S2 e os ESRS — sobre a forma como as empresas identificam e se relacionam com seus stakeholders. A reflexão propõe uma distinção crítica: nem toda parte interessada é considerada interessante pelas organizações, o que revela desafios estratégicos e éticos no cenário ESG. 

O texto parte da premissa da teoria dos stakeholders, segundo a qual empresas mais conscientes dos impactos que geram sobre diferentes grupos da sociedade também tendem a ser mais adaptáveis e competitivas. No entanto, a prática empresarial muitas vezes seleciona apenas os públicos que mais influenciam seus resultados diretos, negligenciando atores relevantes, mas sem poder de pressão — como comunidades vulneráveis ou o meio ambiente. Essa miopia estratégica compromete a coerência das práticas ESG, especialmente quando se busca credibilidade em relatórios de sustentabilidade. 

Nesse contexto, os novos standards internacionais — IFRS S1 e S2, lançados pela Fundação IFRS, e os ESRS, adotados pela União Europeia — trazem uma abordagem mais estruturada para o relato de sustentabilidade. Eles introduzem a ideia de building blocks, que permite combinar diferentes padrões conforme o setor, porte e contexto regulatório da empresa. O artigo destaca três conceitos fundamentais para compreender essa nova lógica: contextoimpacto e materialidade

O conceito de materialidade dupla — que considera tanto os impactos do mundo sobre a empresa quanto os impactos da empresa sobre o mundo — é central para diferenciar relatórios que efetivamente orientam decisões sustentáveis daqueles que apenas cumprem obrigações formais. O autor alerta: optar por uma visão restrita e conveniente de materialidade pode gerar alocação ineficaz de recursos, perda de competitividade e, em última instância, danos irreversíveis à reputação e ao planeta. 

A adoção dos novos padrões, obrigatória já a partir de 2024 para muitas empresas, exigirá mudanças profundas nos sistemas de gestão, governança e comunicação corporativa. Mais do que atender a exigências técnicas, será necessário revisar premissas estratégicas e ampliar o compromisso com uma escuta genuína de todas as partes interessadas — não apenas das mais interessantes. 

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