Mulheres investem menos do que homens. Por quê?

Por Cláudia Yoshinaga, professora de finanças da FGV e coordenadora do Centro de Estudos em Finanças (FGVcef)

Estamos próximos ao Dia Internacional da Mulher, e começam a sair diversas reportagens sobre diferenças entre gêneros. Uma das estatísticas que tem circulado nestes últimos dias é sobre o fato de mulheres investirem menos que os homens. Dados de um aplicativo apontaram para uma média de investimentos de R$450 a menos que os homens. Muitos se perguntam sobre quais vieses explicam o comportamento de mulheres e homens na hora de investir.

Sendo uma pesquisadora da área de finanças comportamentais, muitos vêm me pedir possíveis explicações de vieses que justifiquem esta evidência. E, de fato, há justificativas comportamentais para isso – mulheres e homens têm aversão a risco diferentes (sendo que, em média, mulheres tendem a ser mais avessas), o grau de confiança nas decisões também pode explicar a menor exposição de mulheres em investimentos mais sofisticados. No entanto, estudos como o do Barber e Odean (2001) apontam que o excesso de confiança dos homens levou a uma maior negociação de papéis na carteira e um menor retorno líquido dos investimentos. Além disso, historicamente, as decisões financeiras nas famílias estiveram centradas nos homens, o que acaba reforçando o mantra de “investimentos não serem assunto de mulheres”.

Mas existe um ponto muito importante que não deve ser esquecido: o que no geral explica a menor sobra de dinheiro para mulheres investirem?

Pensando de maneira bastante simples, o quanto uma pessoa investirá depende do quanto ela ganha menos o quanto ela gasta. E aí podemos trazer algumas evidências sobre diferenças de homens e mulheres na sociedade:

Ganhos: muitos são os estudos que mostram o famoso gender pay gap, a diferença nos salários de homens e mulheres ao redor do mundo. Algumas publicações que recomendo são o relatório do World Economic Forum e também o episódio da série Explained, disponível na Netflix. Neste caso, o ponto não é a isonomia salarial que garante que pessoas que ocupem o mesmo cargo ganhem o mesmo salário, mas sim as oportunidades de progressão de carreira. Se as evidências apontam para uma quantidade menor que 11% de mulheres em assentos de conselhos, e números ainda menores para mulheres em cargos de CEO ou presidente, pode-se supor que temos uma explicação para o fato de as mulheres investirem menos: na média, elas ganham menos!
Despesas: não podemos deixar de mencionar aqui o imposto rosa (ou pink tax, em inglês), que calcula o sobrepreço de produtos que são destinados ao público feminino – itens de vestuário, produtos de beleza, brinquedos, canetas, entre outros. Um estudo produzido pela Prefeitura da Cidade de Nova Iorque levantou que a alíquota média do sobrepreço para as mulheres era de 7%! Ou seja, ao comprar um mesmo produto, mas na sua versão voltada ao público feminino custa mais!
Claro que mais educação financeira para as mulheres ajuda para que elas tomem decisões mais conscientes e informadas sobre seus investimentos. Conteúdo voltado especificamente para elas pode fazer com que se sintam mais compreendidas e estimuladas a investir mais. Mas não podemos esquecer que existem muitas outras iniciativas que devem ser tomadas para reduzir os problemas de receitas e despesas das mulheres, como aumento de participação das mulheres no mercado de trabalho e nas posições de liderança, e também maior conscientização da população para este tópico. Isso sim seria um bom presente para as mulheres.

Artigo publicado em seu LinkedIn

Últimas postagens

Pessoa segurando cartaz sobre ativismo de empresas em manifestação pública
Administração de empresas

Não basta se posicionar: pesquisa mostra o que torna o ativismo de empresas mais eficaz

Corporações estão cada vez mais se posicionando publicamente sobre temas que dividem opiniões, como igualdade de…
Comunidades amazônicas e sustentabilidade: pesquisa mostra que povos locais ajudam a conservar a floresta, mas recebem pouco do valor gerado
Administração de empresas

Comunidades amazônicas são protagonistas da sustentabilidade, aponta pesquisa

Quando se fala em produtos feitos com ingredientes da Amazônia, como óleos e sementes usados pela indústria de…
Marketing inclusivo: pesquisa mostra por que algumas empresas transformam seus produtos e serviços para incluir mais consumidores.
Administração de empresas

Por que algumas empresas promovem inclusão de verdade e outras ficam apenas no discurso?

A diversidade ganhou espaço nas campanhas publicitárias e nas estratégias das empresas nos últimos anos. No entanto…
Moedas digitais locais sendo utilizadas em um pagamento por celular em um comércio de bairro.
Administração pública

Moedas digitais locais podem fortalecer programas de renda básica, aponta pesquisa

Programas de renda básica ganharam ainda mais importância durante a pandemia, quando governos precisaram encontrar…