"Homicídio no Brasil tem cor, idade e CEP. Administração pública precisa reconhecer isso". Leia depoimento da egressa de AP que atua com Direitos Humanos no interior do Ceará

Letícia Menoita, 26 anos, sempre foi uma pessoa mobilizada. Ela queria mudar o mundo, mas não sabia como. Quando entrou no curso de AP, o aprendizado vivencial deixou muito nítido o caminho para que isso acontecesse.

"Viajei o Brasil inteiro na graduação. Isso é uma oportunidade única, é aprender de perto com as políticas públicas, com a realidade. Estudei políticas públicas de agricultura familiar, políticas públicas para as mulheres, políticas públicas para os povos indígenas, políticas públicas para crianças e adolescentes. O curso me ensinou a trabalhar em grupo, a ouvir, a ter humildade. Foi uma experiência que me transformou como pessoa. Me tornei feminista, entrei na discussão dos debates raciais, reconhecendo também a minha branquitude como perpetuação de opressões e poder", conta.

Quando se formou, em 2017, entendeu que queria trabalhar com Direitos Humanos. Hoje, Letícia é coordenadora de um projeto de prevenção de violências em Sobral, no Ceará. Confira o depoimento.

"Nossa tarefa é articular políticas públicas para garantir o direito à vida de crianças e jovens de 10 a 29 anos, majoritariamente negras da periferia de Sobral. As políticas públicas universais, como saúde e educação, são insuficientes para garantir os direitos da população. É preciso uma política pública focalizada, territorializada, customizada e transversal, que enfrente as desigualdades estruturantes do país e garanta o direito à vida.

“Porque o homicídio no Brasil tem cor, cep e idade. E quando uma pessoa é vítima de homicídio, toda a família e a comunidade em seu entorno se vulnerabiliza. Vou dar um exemplo: imagina que o João, de 13 anos de idade, foi vítima de homicídio. As pesquisas mostram que os familiares e a comunidade próxima de João – como irmãos, ex-namorada, amigos – têm mais chance de serem os próximos a terem o mesmo destino. A desigualdade e a violação de direitos é estrutural. Se a pessoa teve o último direito violado – o direito à vida – é porque sequencialmente todos os outros direitos foram violados. É muito provável que as pessoas próximas à vítima também estejam com seus direitos violados. Daí a urgência da política pública chegar em quem historicamente não chegou.

Nossa tarefa, portanto, é pensar em estratégias de cuidados prioritários e customizados para essas pessoas. A irmã de João, Ana Lídia, de 11 anos, pode estar evadida da escola porque a escola de referência é no bairro vizinho que está sob comando de uma facção rival da comunidade em que ela mora. Ana Lídia, assim, não pode ir à escola porque apresenta limitação de circulação territorial – vulnerabilidade que impede a pessoa de exercer seu direito de ir e vir. Com isso, vários outros direitos estão violados.

Ela não deixou a escola por escolha. É uma limitação de circulação territorial. Ele quer, mas não pode ir.

Historicamente e estruturalmente, a política pública não chegou como direito para adolescentes e jovens negros da periferia, daí a importância de políticas públicas direccionadas, como a Unidade de Gerenciamento de Projetos de Prevenção de Violências de É um plano de cuidado integral porque só garantindo direitos a gente evita que vidas sejam interrompidas.

São Paulo é a exceção, não a regra do que é Brasil

Sobre a minha escolha em me mudar, desde sempre eu entendia que São Paulo não era o Brasil. Isso estava nítido na minha cabeça. Na verdade, a gente tem muito a aprender com as políticas públicas fora do eixo: são feitas com pessoas muito comprometidas, são muito inovadoras e trazem resultados muito profundos.

Até porque, no fim, a realidade de vulnerabilidade tem raízes comuns no país inteiro. A gente parte da mesma estrutura de desigualdade.

Para mim, atuar no governo faz muito sentido. Você tem a chance de causar impacto em escala e, ao mesmo tempo, a oportunidade de mudar uma estrutura racista, colonial e patriarcal na qual o Estado foi concebido... Mas é possível ser diferente.. Na equipe da UGP de Prevenção de Violências a maioria das pessoas é negra, jovem, vem da periferia e teve um parente assassinado. Isso é lugar de fala na política pública. Não dá pra ser de outra forma. Não há garantia de direitos sem democracia, não há democracia sem representatividade.

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