Debate sobre saúde nas Américas reúne autoridades de 28 países na FGV
Primeiro dia do evento destacou papel da Atenção Primária como eixo estratégico para sistemas de saúde mais resilientes.
A Fundação Getulio Vargas recebe a Segunda Reunião Regional da Aliança pela Atenção Primária à Saúde (APS), entre os dias 26 e 28 de janeiro, no Centro Cultural FGV. A iniciativa, que busca acelerar a transformação dos sistemas de saúde nas Américas, reuniu representantes de organismos internacionais, autoridades brasileiras e lideranças de diversos países. O objetivo é compartilhar experiências e identificar oportunidades de inovação e investimento para promover a Atenção Primária à Saúde (APS).
Na mesa de abertura, a representante da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Rhonda Sealey-Thomas, ressaltou que os desafios enfrentados pelas Américas - como mudanças demográficas, recuperação pós-pandemia e impactos das mudanças climáticas - não reconhecem fronteiras. “Esses desafios demandam que façamos mais. É nesse contexto que a APS se mostra a estratégia mais eficaz para tornar os sistemas de saúde mais resilientes”, afirmou.
Ela destacou que, em apenas dois anos, a Aliança já contribuiu para fortalecer sistemas de saúde em diferentes países e que este segundo fórum é essencial para “reafirmar o compromisso com a APS e promover aprendizado mútuo por meio da inovação e da solidariedade”.
O Secretário Executivo do Ministério da Saúde do Brasil e pesquisador da FGV, Adriano Massuda, celebrou a realização do encontro no país. “É um orgulho para o Brasil receber essa reunião. Queremos que nossa experiência com a APS seja rica e que contribua para o desenvolvimento de um sistema integral, universal e gratuito em um país continental e marcado por desigualdades”, disse.
Ele destacou a escolha do Rio de Janeiro como sede, não apenas para o debate, mas para visitas a experiências locais, lembrando que a capital fluminense passou por uma reforma da APS com equipes multiprofissionais e integração digital.
Compromissos internacionais e desafios estruturais
O diretor de Desenvolvimento Humano para a América Latina e o Caribe do Banco Mundial, Jaime Saavedra, reforçou a importância política da Aliança e apontou três desafios que devem ser tratados com prioridades para o futuro: recursos humanos, fragmentação dos serviços e integração intersetorial.
“Os profissionais de saúde são a coluna vertebral da APS, mas há escassez e má distribuição. A fragmentação prejudica a experiência do paciente. E precisamos de compromisso não apenas dos ministros da saúde, mas também da economia e outras pastas. Melhorar a APS poderia evitar mais de 30 mil mortes anuais”, alertou.
Já Javier Guzman, chefe da Divisão de Saúde, Nutrição e População do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), reafirmou o apoio da instituição. “O BID está comprometido em promover saúde nas Américas. Fortalecer a atenção primária é uma das estratégias centrais, e podem contar conosco para implementar essas ações”, disse.
Experiências locais e papel da academia
O secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz, destacou os avanços da cidade. “Temos indicadores que nos orgulham, como a alta cobertura vacinal e a excelência no tratamento do HIV/Aids. Isso mostra que o município está no caminho certo”, afirmou ao convidar os participantes do evento a conhecer uma unidade de Atenção Primária a Saúde no município.
A diretora de Pesquisa e Inovação da FGV, Goret Pereira Paulo, ressaltou a relevância da iniciativa para o Brasil.
“Saúde é uma área crucial, e o objetivo desse evento está absolutamente alinhado à missão da Fundação de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico do país. Não há desenvolvimento sem saúde, e hoje temos um sistema de saúde que é modelo no mundo inteiro, o SUS. Poder facilitar os debates que ocorrerão ao longo desses três dias é uma ação fundamental na nossa estratégia de contribuir para a melhoria contínua das políticas em saúde no Brasil”, disse.
Ela destacou ainda a criação do Centro Nacional de Políticas Públicas para Saúde da FGV: “mais uma ação no sentido de contribuir com elaboração e avaliação de políticas públicas com base em evidências”.
Desafios globais e respostas locais
Na sequência, James Fitzgerald, diretor do Departamento de Sistemas e Serviços de Saúde da OPAS, apresentou a palestra “Atenção Primária à Saúde nas Américas – A necessidade de acelerar a ação”. Ele alertou para a estagnação nas metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e para a vulnerabilidade de populações específicas, como mulheres negras e idosos.
“Seis milhões de pessoas morreram devido a doenças crônicas, e estima-se que 38% dessas mortes seriam evitáveis”, destacou.
Fitzgerald também chamou atenção para os impactos das mudanças climáticas na saúde, lembrando que 2024 foi o ano mais quente já registrado e que o furacão Melissa deixou centenas de estabelecimentos de saúde inoperantes no Caribe. “Precisamos de sistemas resilientes, baseados em um modelo integral de APS, com comunidades empoderadas e políticas multisetoriais”, defendeu.
Troca de experiências entre países
O primeiro painel plenário reuniu representantes de diferentes nações, Marcela Tatiana Zambrana (Bolívia), Daniel Cummings (São Vicente e Granadinas), Ana Luiza Rodrigues e Daniel Soranz (Brasil), Manuel Zambrano Chang (Panamá), moderado por Ernesto Báscolo (OPAS).
A sessão destacou a diversidade de estratégias adotadas e reforçou a necessidade de cooperação internacional para enfrentar desafios comuns.
Para Ernesto Báscolo, chefe da Unidade de Atenção Primária à Saúde e Prestação de Serviços Integrados da OPAS, não existe um único caminho para fortalecer a APS nas Américas. Cada país segue uma trajetória marcada por conflitos, limitações técnicas e disputas políticas. “Por isso, falar em gestão da mudança exige reconhecer essa diversidade e formar alianças reais, do nível local ao regional, capazes de sustentar reformas duradouras.”
Bolívia: fragmentação histórica e caminho para um sistema integrado
A ministra da Saúde da Bolívia, Marcela Tatiana Zambrana, compartilhou a realidade do seu país: “Temos um sistema altamente fragmentado e segmentado, sem coordenação entre níveis. Nosso objetivo é superar esses desafios e construir um Sistema Integrado de Saúde, moderno, inclusivo.”
Ela reforçou a importância de reformular a política nacional de saúde, com a APS sendo eixo central, e a digitalização dos sistemas para substituir os atuais 173 sistemas fragmentados.
“Entre 2025 e 2030, queremos caminhar para um modelo de saúde integrado, moderno e resiliente, adequado à diversidade epidemiológica da Bolívia, que vai de regiões andinas aos vales, Amazônia, Yungas e o trópico.”
São Vicente e Granadinas: alimentação, educação e APS no centro da prevenção
Daniel Cummings, ministro de São Vicente e Granadinas, trouxe em sua fala alguns questionamentos que influenciam bons indicadores de saúde: “Apesar de sermos um país com bom solo e tradição agrícola, nossa população consome majoritariamente alimentos importados, processados e ultraprocessados. Na minha visão, APS significa entrar nas escolas primárias, inclusive pré-escolas, incentivar crianças a comer o que produzimos e ensinar a importância da alimentação saudável desde cedo.”
Ele complementou: “Quando conversamos com a população sobre alimentação saudável, muitos respondem: ‘Você já viu o preço desses alimentos no mercado?’ Esse é um obstáculo real. Defendo que a APS também avalie mecanismos para apoiar famílias, inclusive em áreas urbanas sem acesso à terra, a cultivarem parte dos alimentos que consomem. Existem técnicas de cultivo em pequenos espaços, como hortas em sacos e recipientes.”
Brasil: conquistas do SUS e alerta para o subfinanciamento crônico
Ana Luiza Rodrigues, secretária da Atenção Primária à Saúde do Brasil, começou sua fala destacando que o SUS é a mais ampla política pública da democracia brasileira, envolvendo responsabilidade de gestão federal, estadual e municipal, e sustentada por decisão política contínua em garantir integralidade, universalidade e equidade.
Ela deu exemplos de marcos essenciais, como a decisão política de estabelecer a Atenção Primária como porta de entrada do sistema; o Mais Médicos, que é o maior programa federal de provimento médico do mundo; e a incorporação da Saúde Bucal como política pública universal do SUS.
Apesar disso, a secretária destacou que o financiamento é baixo: “Ainda que tenhamos tido muitos avanços, o subfinanciamento crônico persiste. O país investe cerca de 250 bilhões de reais por ano, ainda insuficiente para todas as demandas.”
Panamá: integração e universalização como meta nacional
De acordo com Manuel Zambrano Chang, vice-ministro da Saúde do Panamá, a meta do governo panamenho é “Integrar de imediato e universalizar a atenção à saúde para os 4,5 milhões de habitantes do país. Todos terão igual acessibilidade ao sistema, com equidade, eficácia e efetividade.”
Rio de Janeiro: decisões baseadas em evidências e uso intensivo de dados
Por fim, Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, destacou como a prefeitura vem aplicando evidências para orientar as decisões políticas.
“Assim como a penicilina benzatina é utilizada no tratamento da sífilis por ampla base científica, também nossas decisões em sistemas de saúde devem ser baseadas em evidências”, introduziu, ao destacar também a importância do uso de dados e tecnologia para salvar vidas.
“Através dessas ferramentas, a gente consegue ver, por exemplo, quantas gestantes a gente tem na cidade do Rio nesse momento. A gente está vendo quantas tiveram prescrição de ácido fólico, quantas tiveram prescrição de carbonato de cálcio, quantas são hipertensas, diabéticas. Isso permite reduzir mortalidade materna por meio de ações baseadas em evidências”. Por fim, ele destacou uma política de gestão na secretaria que só nomeia pessoas nos cargos a partir de critérios técnicos.
Debates paralelos e o papel da transformação digital
Após a plenária principal, o evento seguiu com sessões paralelas sobre Dois anos da Aliança APS, Modelos de Gestão na APS e Participação social na transformação dos sistemas de saúde. A última plenária do dia reuniu novamente as autoridades para debater Transformação Digital e APS: oportunidades e próximos passos.
Na ocasião, Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital, apresentou como o DATASUS, departamento de informação e informática do SUS, criou mais de 400 sistemas. “Hoje temos um patrimônio grande de séries históricas e dados, que antigamente tinha uma fragmentação e uma baixa utilização para tomada de decisão.”
A programação do evento continua nos dias 27 e 28 de janeiro. É possível conferir os debates na íntegra por meio da transmissão no YouTube, clicando aqui.
