Covid-19 e vieses cognitivos

Por Claudia Yoshinaga, professora de finanças e coordenadora do Centro de Estudos em Finanças (FGVcef)

Com a propagação do contágio de Covid-19, precisamos discutir os seus reflexos no comportamento das pessoas.

Inicialmente, o que vimos foi a reação exagerada das pessoas e certo pânico, que pôde ser observado no comportamento de pessoas sejam indo aos supermercados para fazer estoques de uma série de produtos (chegando à briga física em alguns casos), como papel higiênico e água mineral. Isto me remete ao conceito de Navalha de Hanlon (“Nunca atribua à malícia/maldade o que pode ser adequadamente explicado pela estupidez.”). Também foi possível ver como investidores, muitos deles recém-chegados ao mundo de renda variável, se desesperaram ao ver a magnitude de suas perdas no mercado financeiro. A preocupação é real e não deve ser menosprezada, mas nestas horas analisar fatos e estatísticas ajuda a acalmar os ânimos e voltar (um pouco, que seja) para a racionalidade.

Em outro extremo, verificamos diversos exemplos de excesso de confiança. Ao olhar as probabilidades, muitos se sentem mais imunes aos efeitos do vírus. Ouvindo algumas declarações de pessoas que foram contaminadas, não é incomum a frase “mas eu nunca imaginei que aconteceria comigo”. Sim, no geral as chances de complicações mais sérias da doença são baixas, especialmente entre os mais jovens e saudáveis. Só que esta sensação de imunidade pode levar a comportamentos mais relapsos com as medidas protetivas, sejam pelas baixas probabilidades ou pelo baixo impacto na saúde caso contraia a doença. Nestas horas, a consciência de coletividade deve falar mais alto – todos devemos ter os devidos cuidados para nos proteger e também para proteger as demais pessoas.

Como forma de contenção do contágio, medidas com o objetivo de limitar a circulação de pessoas estão sendo tomadas. Escolas suspenderam aulas, grandes eventos foram cancelados e empresas decidiram estabelecer em muitos casos políticas de trabalho remoto. Para que a vida seja menos impactada e a rotina continue minimamente bem será demandado de todos nós muito autocontrole. A efetividade de aulas e de trabalho à distância requer muita disciplina de professores, alunos e funcionários. Distrações que já são muitas no nosso dia-a-dia podem se tornar ainda maiores quando estamos literalmente com a “sensação de estar em casa”. Estabelecer para si mesmo regras de autocontrole como evitar o uso de celular os horários de aula/jornadas de trabalho, bem como montar listas de tarefas a serem cumpridas no dia podem auxiliar a concentração e o foco. Trabalhar em home office com a concomitante suspensão de aulas pode, em muitos casos, envolver pais e filhos dentro de casa, o que demandará coordenação, cooperação e autocontrole de todos para que tudo ocorra da melhor forma possível.

 

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