Como fazer o dinheiro chegar a quem mais precisa?

Por Adrian Kemmer Cernev Lauro Emilio Gonzalez Farias, professores e pesquisadores do Centro de Estudo em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV.

O presidente Bolsonaro sancionou no dia (01/04/2020) o auxílio emergencial mensal de 600 reais para trabalhadores de baixa renda, incluindo os informais. O governo divulgou ainda uma ordem cronológica de pagamentos da renda básica emergencial:

  • 1º: trabalhadores informais que recebem o Bolsa Família
  • 2º: informais que estão no cadastro único
  • 3º: microempreendedores individuais e contribuintes individuais
  • 4º: informais que não estão em cadastro nenhum

Se os recursos chegarem ao endereço correto, serão beneficiados diretamente 30,5 milhões pessoas, o que representa cerca de 33% da população ocupada do país. Os números impressionam, mas precisam sair do papel. A formulação e, sobretudo, os resultados das políticas públicas, estimados através da chamada avaliação, costumam ter mais visibilidade do que a implementação. Será este o desafio das próximas semanas: implementar as medidas e fazer com que os recursos rapidamente à população previamente definida. Como os quatro grupos acima são bastante distintos, tirar as medidas do papel demandará coordenação e articulação de diferentes atores, tanto do governo quanto do setor privado e da sociedade civil.

Embora tenha sido anunciado, sem maiores detalhamentos, que os pagamentos serão feitos pelos bancos públicos federais e seus correspondentes bancários, como as lotéricas, a logística de pagamento deve levar em conta as restrições sanitárias e a recomendação de distanciamento social. Portanto, o uso de canais digitais será fundamental que se combine o combate às duas ondas que nos assolam (saúde e efeitos econômicos), para usar expressão recorrente do ministro Paulo Guedes.
Diversos especialistas apresentaram sugestões nos últimos dias e as recomendações delineadas adiante buscam incorporar e avançar itens já mencionados, tais como as propostas discutidas por Carrasco, Fraga e Scheinkman. A implementação envolverá duas etapas distintas. Primeiramente, será necessário cadastrar e/ou analisar, ainda que minimamente, a elegibilidade das pessoas ao recurso. Por exemplo, em termos de corte de renda, para ter direito ao auxílio é necessário ser maior de idade, ter renda familiar mensal inferior a meio salário mínimo per capita ou três salários mínimos no total. Estaria de fora também o trabalhador que tenha recebido rendimentos tributáveis acima de 28.559,70 reais em 2018. A segunda etapa é a efetiva transferência dos recursos.

As recomendações sugeridas são:
1. A Caixa precisa assumir a coordenação do processo de implementação.
A implementação célere das medidas formuladas só ocorrerá a partir do envolvimento de múltiplos atores. Considerando a experiência da Caixa dentro da logística de pagamento de benefícios sociais, incluindo o Bolsa Família (BF), parece óbvio o papel de liderança que a instituição deve assumir.

2. Além do Banco do Brasil, os bancos de desenvolvimento regionais podem colaborar especificamente através dos seus agentes de crédito.
Programas como o Crediamigo e Agroamigo, ambos do Banco do Nordeste, tem modelos de atuação baseados na proximidade com a população de baixa renda, incluindo os informais. A relação com os clientes já inclui canais digitais e pode ser crucial tanto para identificação quanto para orientação dos potenciais beneficiários, evitando desinformação e aglomerações desnecessárias.

3. Atores de microfinanças e economia solidária, tais como OSCIPs, SCMEPP, bancos comunitários e cooperativas devem ser envolvidos.
As razões são semelhantes àquelas do item anterior. Estas instituições conhecem a realidade local, podendo atuar tanto na dimensão da elegibilidade, quanto na própria logística de pagamento. Um exemplo é o aplicativo E-Dinheiro, adotado por dezenas de bancos comunitários de desenvolvimento e que atende justamente pessoas em situação de vulnerabilidade.

Transferência Efetiva dos Recursos
São duas as possibilidades básicas para o público-alvo. As pessoas podem: I) ter conta e movimentá-la e II) não ter conta ou ter conta mas não movimentá-la. Cumpre lembrar que o mero acesso à conta não garante seu efetivo uso.

4. Para aqueles que possuem conta e a movimentam, os recursos devem simplesmente ser transferidos para a conta corrente ou conta de pagamento.
A conta de pagamento é tipicamente utilizada, por exemplo, por pequenos comerciantes e/ou vendedores de rua que utilizam as conhecidas “maquininhas”. Tais vendedores não necessariamente detêm contas correntes em banco.

5. Para aqueles que não possuem conta ou possuem mas não a movimentam, devem ser criadas contas digitais, com ou sem o apoio de outros bancos e fintechs.
A ideia é fazer com que os recursos cheguem de forma rápida e fácil aos destinatários, sem a necessidade do contato físico para cadastro ou transações. Contas digitais funcionam via aplicativos em celulares, permitindo recebimentos e pagamentos sem a necessidade de dinheiro ou cartões físicos. Muitas fintechs já oferecem tais serviços e podem apoiar a logística de distribuição dos recursos emergenciais.
O Brasil e o mundo estão diante de um evento histórico, cujos desdobramentos estão carregados de incerteza. Cabe ao Estado liderar o enfrentamento à crise. O longo caminho que em geral separa a formulação e a efetiva implementação das ações governamentais precisa ser percorrido de maneira rápida e segura para os brasileiros.

Últimas postagens

Pré-adolescentes utilizando redes sociais em smartphones, ilustrando o impacto dos influenciadores digitais pré-adolescentes nas relações escolares, influenciadores digitais e pré-adolescentes, redes sociais e crianças, influência digital na adolescência, consumo infantil, popularidade nas escolas, educação digital, letramento digital, bem-estar infantil
Administração de empresas Estratégias de marketing

Influenciadores digitais estão redefinindo a popularidade entre pré-adolescentes, aponta pesquisa

As redes sociais se tornaram parte da rotina de milhões de crianças e adolescentes. No entanto, seu impacto vai…
Profissional de saúde realizando atendimento em unidade básica após a saída dos médicos cubanos em município vulnerável do Brasil.
Administração pública

O que acontece quando médicos deixam regiões vulneráveis do Brasil?

Quando médicos deixam regiões vulneráveis, o que acontece com a saúde da população? Essa foi a pergunta investigada…
foto do autor com o nome dele
Blog Gestão e Negócios

O Que Mais Contribui Para Geração de Valor das Empresas?

Gilberto Porto, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESPNo clássico filme Tempos Modernos,…
imagem da fachada da EAESP com simbolos dos ODS
Relatório de Impacto Notícias internas

FGV EAESP lança Relatório de Impacto 2025/2026

O Relatório de Impacto 2025/2026 apresenta os principais indicadores que evidenciam a contribuição da FGV EAESP…