Uma generosidade que muda vidas e dá esperança para o futuro

Flavia e Livia

Na casa de Livia Lima, na Zona Leste de São Paulo, um celular servia à família inteira. O sinal de esperança vinha fraco, mas persistente. Ela não sabia ainda, mas estava prestes a receber o que hoje chama de “um presente de Natal atrasado”: uma bolsa para estudar na Fundação Getulio Vargas, conquistada graças ao gesto de uma mulher que ela nunca tinha visto. 

A história de Livia poderia ter sido interrompida várias vezes. Filha de pais pernambucanos que migraram para São Paulo em busca de oportunidades e que não puderam concluir os estudos, ela seguiu com determinação o caminho que a irmã mais velha começou a trilhar: da escola pública à ETEC, da ETEC ao cursinho pré-vestibular, até chegar à porta da FGV EAESP. Literalmente. “Fiz a prova presencialmente mesmo sendo época de pandemia porque eu não tinha computador em casa. Foi bem difícil chegar até aqui”, relembra. 

A nota veio. A aprovação também. Mas a bolsa, não. “Minha posição não foi suficiente. E eu precisava da bolsa, senão não adiantava nada. Nem comemorei quando descobri que havia passado no vestibular.” Desistiu. Matriculou-se no cursinho com esperanças pro próximo ano. Até que, no dia 23 de fevereiro de 2022, como Livia lembra vividamente até hoje, tocou o telefone: “A professora Zilda me ligou dizendo que meu presente de Natal chegou atrasado. Eu tinha conseguido uma bolsa. Eu chorei tanto. Meu pai me abraçou e chorou comigo. Parecia história de filme”. 

E era mesmo. O “roteiro de filme” da vida de Livia teve uma virada de enredo protagonizada por Flávia Buarque de Almeida (CGAE 1989), executiva e conselheira de grandes empresas. Ela não conhecia Livia, não sabia sequer seu nome. Mas topou o convite do Fundo de Bolsas para apoiar integralmente uma estudante que havia ficado de fora, na 11ª posição para 10 vagas com bolsa para o curso de Administração Pública. 

“Na época, pensei muito. Era como colocar mais um filho numa faculdade de ponta. Mas decidi ajudar. Não sabia quem era e preferi assim. Não queria que empatia pessoal influenciasse minha decisão. Depois que confirmei a doação, pedi para conhecer, se a pessoa se sentisse confortável”, conta Flávia. 

O encontro entre as duas foi imediato e simbólico. Ambas têm três irmãos, e se reconhecem na garra e nas escolhas. Desde então, construíram uma relação que vai muito além de doadora e bolsista. Flávia abriu as portas do seu escritório, ofereceu apoio emocional, conselhos, e até um intercâmbio em Londres para que Livia pudesse aprimorar o inglês. “Ela simplesmente realizou mais um sonho meu. É de uma generosidade absurda. Ela é um anjo na minha vida”, diz Livia. 

Mas antes do “sim” para Londres, vieram muitos “nãos”. Livia conta que, já nas primeiras semanas de aula na FGV, recebeu alguns choques de realidade: “Para mim, era completamente nova essa categoria de bolsista. Eu vinha de escolas públicas, onde não existe essa separação. Foi um impacto muito grande, mas logo encontrei apoio de outros alunos”. 

Ela também se sentiu despreparada para o ritmo exigente das aulas. “Foi muito difícil a adaptação. Comecei depois dos outros e precisei correr atrás. Peguei DP em pré-cálculo e fiquei desesperada. Senti que estava desperdiçando a oportunidade da minha vida. Mas recebi apoio da Flávia e da FGV e consegui refazer a disciplina nas férias”. 

A dificuldade, porém, não apagou a chama. Pelo contrário. “Eu respirava FGV 24 horas por dia. Nunca pensei em desistir. Fiz reforço com colegas, aulões, resumos. Eu queria me desenvolver, me preparar, alcançar o ritmo. Era meu sonho e foi muito difícil chegar até aqui”. 

No meio disso tudo, Livia percebeu o quanto sua trajetória enriquecia o ambiente em sala. “A gente fala muito sobre políticas públicas, desigualdades... e muitas pessoas ali só conheciam isso pela teoria. Eu e outros bolsistas vivemos isso na pele. Trazemos uma vivência que vai muito além dos livros. E isso muda a discussão, muda a sala. Mostra outras realidades.” 

Ela lembra de momentos em que colegas traziam visões distantes da realidade do país. “Ter alguém ali que vive isso de verdade, que mostra que o mundo não é só aquela bolha, é essencial. Ajuda todos a se tornarem profissionais melhores e, mais ainda, pessoas melhores.” 

Para ela, essa convivência com o diferente é um dos maiores trunfos da educação. “Na vida real, a gente não vai conviver só com os iguais. Então quanto antes aprendermos a lidar com a diversidade, melhor. As bolsas ajudam nisso. Formam uma sala de aula mais rica, mais humana e mais real.” 

Hoje, prestes a se formar, Livia estagia em uma consultoria internacional que conecta governos a soluções digitais. Sonha em fazer mestrado no exterior e trabalhar para reduzir desigualdades e transformar a educação no Brasil. “A FGV me deu ferramentas, mas minha vivência me deu a base. Quero causar impacto”. Livia sente que o caminho que percorreu foi longo, mas fértil. “Se no futuro eu tiver a mesma oportunidade que a Flávia teve comigo, eu também quero ser uma aliada na luta pela educação. Também quero doar, ajudar, abrir portas.” 

Flávia, por sua vez, também ganhou. “Conhecer a Livia me trouxe muito mais sensibilidade sobre os desafios da nossa sociedade. Ela é uma jovem mulher serena, com uma força e uma curiosidade admiráveis. Tudo que você oferece, ela aproveita até o último milímetro, sempre com responsabilidade e compromisso, além de ser uma querida. Ela me inspira muito.” 

Flávia, que estudou fora do Brasil e viu de perto o poder da cultura de retribuição em outras universidades, acredita que histórias como a de Livia mostram o que o Brasil pode construir quando investe em seus talentos. “Não é sobre a quantidade que você doa. Se cada um der um pouco, sempre com engajamento, podemos mudar vidas. Isso aquece o coração e dá esperança no Brasil que vem pela frente”. 

Lado a lado, Livia e Flávia personificam o slogan do Alumni da FGV EAESP: Conectando Gerações e Inspirando Futuros. Uma história real de como um gesto de confiança pode transformar não apenas uma vida, mas também devolver à sociedade uma líder comprometida em transformar o país.

 

Por Karina Juliana Francisco 

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