O que o mestrado agrega quando a prática já ensinou tanto
Por quase três décadas, Ilton L. Assi consolidou sua trajetória na indústria farmacêutica. Iniciou sua carreira como propagandista, atuando em 17 cidades, e posteriormente avançou para a gestão de equipes com até 40 colaboradores distribuídos por sete estados, abrangendo aproximadamente 2.400 clientes sob sua responsabilidade. Sua trajetória foi predominantemente baseada na experiência prática, em um ambiente onde resultados, relacionamento interpessoal e competências de liderança eram elementos essenciais que deveriam coexistir.
Foi justamente essa experiência que, anos depois, o levou de volta à sala de aula.
"Eu sempre fui muito curioso", conta Ilton. Depois de conhecer a FGV EAESP em um MBA em Gestão Empresarial, realizado em 2012, ele percebeu que as exigências da gestão estavam mudando e que precisava se atualizar. Em 2017, após se aposentar da indústria farmacêutica, decidiu dedicar um período a novos projetos. O mestrado surge como uma possibilidade de aproximar sua experiência profissional da academia.
A escolha pelo Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade, da FGV EAESP, na linha de Gestão de Pessoas, fazia sentido para alguém que desejava combinar a dimensão prática da própria trajetória com a perspectiva acadêmica. Ilton ingressou no programa em 2020. Pouco depois, a pandemia transformou a experiência acadêmica, mas não interrompeu sua relação com a FGV. Até hoje, mantém vínculos com o programa, participando de eventos e desenvolvendo artigos em parceria com seu orientador.
Aprendendo a investigar
No mestrado, Ilton encontrou uma forma diferente de olhar para problemas que já conhecia na prática. Sua dissertação investigou o impacto da estrutura organizacional sobre o exercício da liderança e recebeu menção honrosa. A pesquisa partiu de uma inquietação real: até que ponto a capacidade individual de um líder é suficiente para transformar uma organização?
“Eu quero mais autonomia, eu quero mais liberdade, o líder tem que ser mais construtivo, tem que ser mais motivador”, observa. Mas, segundo sua pesquisa, essas expectativas também encontram limites na própria estrutura hierárquica das organizações. A experiência acadêmica fez com que Ilton passasse a questionar não apenas as respostas, mas também as próprias certezas. Para ele, esse talvez tenha sido um dos maiores impactos do mestrado. “Quanto mais certeza eu acho que tenho, mais tenho que pesquisar se essa certeza é realmente a correta ou não.”
Essa mudança de perspectiva acompanhou sua trajetória depois da FGV. Ilton seguiu para o doutorado em Administração e Gestão de Pessoas pelo Mackenzie e passou a atuar também como professor, pesquisador e consultor. Hoje, sua atuação combina gestão de pessoas, comportamento e mudança organizacional, tecnologia, inteligência artificial e People Analytics.
Uma nova lente para a carreira
Para Ilton, a principal contribuição da formação acadêmica não reside exclusivamente na quantidade de conhecimento acumulado, mas também na habilidade de analisar uma problemática sob diferentes perspectivas. “No ambiente corporativo, busca-se obter resultados imediatos. Quando ingressamos na academia, essa perspectiva é ampliada.”
Trata-se de uma alteração que também modificou sua relação com aquilo que considera conhecimento. A experiência profissional permanece sendo essencial, contudo, já não é suficiente como única fonte de resposta. Antes de chegar a uma conclusão, é imprescindível investigar, comparar perspectivas e compreender o que outras pesquisas já revelaram acerca daquele problema.
Essa postura tornou-se ainda mais relevante em um cenário caracterizado pela abundância de informações e pelo avanço da inteligência artificial. Ilton destaca um paradoxo: quanto maior é a rapidez com que as ferramentas fornecem respostas, maior torna-se a valorização da capacidade de aprofundamento e da análise crítica.
O conhecimento que permanece
Ao refletir sobre sua trajetória, Ilton não oferece uma fórmula pronta para quem pensa em fazer um mestrado. Em vez disso, propõe uma pergunta: “O que faz você imprescindível?”
Para ele, em um ambiente de informação abundante e respostas cada vez mais rápidas, diferenciar-se exige mais do que acompanhar tendências. É preciso desenvolver conhecimento e capacidade crítica para avaliar aquilo que chega até nós. “Se você quer ser imprescindível, você precisa elevar seu patamar.”
É nesse ponto que o mestrado ganha, para Ilton, um significado que ultrapassa o título. A formação não representa apenas mais uma etapa acadêmica, mas uma transformação na maneira de pensar, pesquisar e tomar decisões.
Ele costuma explicar essa diferença usando uma metáfora. Na graduação, estudamos as florestas do mundo. No MBA, começamos a categorizar os diferentes tipos de floresta. No mestrado, escolhemos uma floresta para compreender seus elementos e seus impactos. No doutorado, chegamos ainda mais perto: investigamos apenas uma árvore e sua relação com aquela floresta.
Depois de mais de duas décadas de carreira executiva, foi ao se aproximar dessa “floresta” que Ilton descobriu novas perguntas para sua própria trajetória. E, talvez, essa seja uma das maiores contribuições de uma formação profissional: não apenas ampliar aquilo que sabemos, mas nos ensinar a perguntar melhor.
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