Ciclo de oficinas fortalece a gestão para sustentabilidade de pequenas e médias empresas
A transição de pequenas e médias empresas (PME) para uma economia circular e de baixo carbono passa pelo fortalecimento de capacidades de suas gestoras e gestores. Com foco nesse aspecto, o projeto “Ancorando Cadeias de Valor Sustentáveis no Brasil” promoveu uma jornada formativa para um grupo de PMEs desenvolverem conhecimentos sobre:
Gestão para sustentabilidade, com Gabriela Alem Appugliese, Marta Blazek e Luis Felipe Bismarchi;
Materialidade, transparência e report, com Annelise Vendramini;
Economia circular e pensamento de ciclo de vida, com Juliana Picoli;
Gestão de emissões de gases de efeito estufa, com Guilherme Lefèvre;
Direitos humanos e aspectos sociais na cadeia de valor, com Beatriz Brandão, Carina Gomes, Maria Cecília de Alvarenga e Maria Letícia de Alvarenga.
Depois de 40 horas dedicadas às oficinas, participantes como a ADM Engenharia, PLP Brasil e Biodinâmica não só desenvolveram novos conhecimentos, como também começaram a implementar projetos que estão transformando a estratégia empresarial de suas organizações.
Com sede em Salvador (BA), a ADM Engenharia relata mudanças tanto culturais quanto práticas. Luiz Viana, gerente de projetos, explica que no início houve dúvida sobre como uma empresa voltada à elaboração de projetos de redes de distribuição de energia elétrica, como a ADM, poderia aplicar o conceito de sustentabilidade em suas operações, dado o foco majoritariamente administrativo e técnico. No entanto, já na primeira oficina a equipe começou a perceber a relevância e a aplicabilidade dos conceitos apresentados.
Ao longo da trajetória, foram adotadas práticas concretas, como o uso da metodologia do Programa Brasileiro GHG Protocol para calcular as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Outro avanço foi a atualização de seu código de ética, que agora reflete de forma mais clara os valores da sustentabilidade, e a reestruturação da comunicação interna para informar e gerar maior engajamento das pessoas colaboradoras em torno dos temas de sustentabilidade.
Muitas outras ações estão em andamento. A empresa está estudando formas de transitar para o uso de etanol nos veículos dos técnicos que atuam em campo, planeja implementar um canal anônimo para denúncias de questões éticas e sociais e pretende criar uma política de preferência por fornecedores comprometidos com práticas de sustentabilidade.
"Foi muito interessante perceber que muitas das práticas sugeridas, como economia de energia, já existiam aqui, mas eram tratadas apenas como 'boas práticas' e não como parte de uma estratégia maior de sustentabilidade," disse Luiz Rezende, diretor administrativo da empresa. Para ele, o projeto trouxe um novo entendimento de como essas práticas podem ser formalizadas e comunicadas de maneira a engajar ainda mais a equipe e gerar impacto positivo no mercado.
Rowan Dias, diretor comercial e de produção, ressaltou o papel que a empresa âncora de uma cadeia de valor pode desempenhar nesse processo de transição. O fato de terem sido selecionados pela Neoenergia para integrar a iniciativa foi entendido como um reconhecimento, o que gerou motivação e estímulo para as mudanças em curso.
Fortalecendo as bases
Para a consultoria ambiental Biodinâmica, a experiência foi de redescoberta e fortalecimento. A empresa já possuía uma trajetória de 30 anos atuando em áreas como estudos de impacto ambiental e gestão de programas ambientais. No entanto, segundo o coordenador de projetos Heitor Damazio, a participação nas oficinas ampliou a perspectiva sobre temas como economia circular e direitos humanos, que, embora já tivessem algum espaço nas atividades da organização, não eram abordados com a mesma profundidade.
Damazio explica que a Biodinâmica viu nas oficinas uma oportunidade de atualizar sua abordagem de comunicação e relato das práticas sustentáveis. Um dos principais aprendizados foi a necessidade de reportar o que já é feito, pois, como ressaltado em uma das oficinas, "quando você não reporta, é como se não fizesse". Assim, a empresa está se preparando para criar um blog e aprimorar seu website, onde poderá divulgar suas iniciativas ambientais e sociais para o público.
A empresa também considerou a criação de um comitê de sustentabilidade, a fim de garantir que os princípios aprendidos no projeto sejam integrados em suas operações. Entre os desafios, Damazio aponta a necessidade de realizar inventários de emissão de gases de efeito estufa de forma precisa, algo que ainda precisa ser debatido com a Diretoria e todo Corpo Técnico.
Inovações no dia a dia e engajamento social
Com sede em Cajamar (SP), a PLP Brasil relatou que, antes das oficinas, a empresa reconhecia a importância do tema, mas sentia-se sem direção para implementar ações concretas. Mas ao longo do percurso formativo, obteve orientações práticas sobre gestão de sustentabilidade, o que permitiu estruturar uma visão mais clara sobre como integrar essas práticas em seu dia a dia.
O impacto das oficinas se refletiu em mudanças específicas dentro da empresa, como a introdução de processos para rastrear a origem de materiais, repensar o descarte de resíduos e adotar uma abordagem mais sustentável para produtos como pallets e embalagens.
A transformação cultural foi um ponto central, com a equipe ampliando seu entendimento sobre sustentabilidade e seu alcance, envolvendo não apenas questões ambientais, mas também sociais. A PLP começou a adotar práticas em seus recursos humanos para promover diversidade e direitos humanos, abrindo diálogos internos e criando projetos contínuos de engajamento social e voluntariado.
Aprendizados e desafios
Além das mudanças internas, todas as empresas ressaltaram o valor das oficinas como espaço de troca de experiências e aprendizado coletivo. E embora as três tenham feito avanços consideráveis, elas reconhecem que a sustentabilidade em pequenas e médias empresas ainda enfrenta desafios significativos. Luiz Rezende comenta que, para empresas de porte menor, os custos envolvidos podem ser um obstáculo, e muitas vezes há dificuldades em implementar práticas que exigem investimentos maiores ou uma cadeia de fornecedores sustentável.
Por outro lado, o projeto permitiu que as empresas identificassem oportunidades. Luiz Viana, da ADM, afirmou que a preparação antecipada para atender aos requisitos de sustentabilidade pode se tornar um diferencial competitivo no futuro, especialmente à medida que grandes contratantes exigem cada vez mais comprovações de práticas ambientais e sociais responsáveis.
Heitor Damazio, da Biodinâmica, reforça a importância de as pequenas e médias empresas estarem preparadas para adaptar-se a esse novo contexto, pois, segundo ele, "não há mais como voltar atrás". O profissional considera que iniciativas como o "Ancorando Cadeias de Valor Sustentáveis no Brasil" são fundamentais para que empresas menores consigam se inserir nesse movimento e possam contribuir de forma significativa para as mudanças que são necessárias.
Sobre o projeto
O projeto Ancorando Cadeias de Valor Sustentáveis no Brasil visa apoiar a transição para uma economia circular e de baixo carbono, com base no fortalecimento da gestão para a sustentabilidade em pequenas e médias empresas inseridas em cadeias de valor de grandes empresas no país.
A iniciativa integra o programa AL-INVEST Verde, financiado pela União Europeia, e é realizada pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP FGV em parceria com a Câmara de Comércio da Espanha e a Câmara Oficial Espanhola de Comércio no Brasil. Saiba mais em: https://eaesp.fgv.br/centros/centro-estudos-sustentabilidade/projetos/ancorando-cadeias-valor-sustentaveis-brasil
