Pesquisa de aluno da FGV EAESP revela alto índice de burnout entre professoras da educação infantil e mobiliza debate público

O que acontece quando quem educa está emocionalmente esgotado? Foi a partir dessa inquietação, nascida dentro de casa, que a trajetória de João Carlos Alves da Costa se transformou em pesquisa, mobilização pública e proposta concreta de mudança. 

A história começa com uma experiência pessoal. Ao longo de 25 anos, sua esposa atuou como professora da rede municipal e enfrentou, como tantas outras profissionais, uma rotina marcada por sobrecarga e desgaste emocional. “Em alguns momentos, ela precisou tomar antidepressivos para suportar a rotina”, relata João. Foi desse convívio que surgiu a motivação para investigar uma realidade ainda pouco explorada. 

Durante o Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade da FGV EAESP, João percorreu regularmente a distância entre São José do Rio Preto e São Paulo. No início, lidou com dúvidas e inseguranças. “A síndrome do impostor me acompanhou. Eu me perguntava se daria conta”, conta. Com o tempo, o ambiente acadêmico, as trocas com colegas e a proximidade com professores foram transformando essa percepção. “Hoje, vejo que não sou a mesma pessoa. O mestrado me transformou profundamente, como profissional e como ser humano.” 

Foi nesse processo que nasceu uma pesquisa inédita sobre burnout docente na educação infantil da rede pública municipal de São José do Rio Preto. Ao visitar 21 escolas e ouvir 200 professoras, João encontrou um cenário que vai muito além do desgaste individual e aponta para questões estruturais. 

Os dados são contundentes. Cerca de 70% das docentes apresentam níveis elevados de exaustão emocional, a dimensão mais crítica do burnout. Mais do que números, o resultado revela um sistema sob pressão. “O trabalho não pode adoecer o trabalhador, mas essa é a realidade hoje”, afirma. 

As causas identificadas estão relacionadas, principalmente, às condições organizacionais. Falta de estrutura adequada, ausência de espaços apropriados para reuniões, ambientes insalubres, falhas na comunicação e conflitos internos aparecem como fatores recorrentes. Em alguns casos, professoras relataram o uso de mais de um antidepressivo ao longo do dia para conseguir lidar com a rotina. “O problema não está na professora. Está na organização do trabalho”, reforça João. 

Os impactos dessa realidade se estendem para além da saúde dos profissionais e chegam diretamente à qualidade da educação. “Como uma professora doente vai cuidar de uma criança?”, questiona. Além disso, a pesquisa aponta consequências para a própria gestão pública, como o aumento de afastamentos e a necessidade constante de substituições. Mas o trabalho de João Carlos Alves da Costa não ficou restrito ao ambiente acadêmico. 

Após concluir a pesquisa, ele levou os resultados para diferentes espaços de decisão e diálogo. Apresentou suas análises e propostas em escolas da rede municipal, promoveu conversas com o sindicato da categoria e ocupou a tribuna da Câmara Municipal para dar visibilidade ao tema. Em uma de suas falas, fez um apelo direto: “Vocês podem transformar isso em ação ou podemos assistir a um colapso educacional”. 

Ao mesmo tempo, João também propõe caminhos. Entre eles, a reestruturação das condições de trabalho, a criação de espaços reais de escuta, o fortalecimento das lideranças escolares e o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à saúde mental dos educadores. Para ele, enfrentar o problema exige olhar para a organização do trabalho, e não apenas para o indivíduo. 

A repercussão já começa a gerar movimentações. Iniciativas de escuta foram iniciadas pela Secretaria de Educação, ainda que cercadas de desafios, como o receio de professores em se manifestar. Para João, o impacto da pesquisa está justamente na sua capacidade de aplicação prática. “Passei de observador a pesquisador. E agora, quero ser agente de transformação”, afirma. 

Ao olhar para trás, sua trajetória no mestrado ganha um significado mais amplo. Não se trata apenas de um avanço na carreira, mas de uma transformação pessoal e profissional. “Todo sacrifício vira investimento quando o resultado é crescimento”, resume. 

Histórias como a de João Carlos Alves da Costa traduzem o propósito do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade da FGV EAESP. Mais do que formar especialistas, o programa forma profissionais capazes de compreender problemas complexos, produzir conhecimento relevante e, sobretudo, gerar impacto real na sociedade. 

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