Empresas ajustam prazo de proteção financeira para enfrentar oscilações de preços
Em cenários de forte oscilação de preços de insumos essenciais, empresas ficam expostas a riscos que podem afetar investimentos, empregos e até o abastecimento de setores inteiros da economia. Para reduzir essa vulnerabilidade, muitas recorrem a instrumentos de proteção financeira, conhecidos como hedge. Além de definir o volume a ser protegido, essas empresas precisam decidir por quanto tempo manter essa proteção, escolha que impacta diretamente sua capacidade de atravessar períodos de instabilidade.
Uma pesquisa conduzida por Rafael Schiozer, da FGV EAESP, em parceria com Håkan Jankensgård e Nicoletta Marinelli, investiga os fatores que determinam a duração desses contratos, chamada de maturidade do hedge. O estudo foi publicado na Journal of Commodity Markets e analisou dados coletados manualmente de 124 empresas do setor de petróleo e gás nos Estados Unidos, entre 2013 e 2016, reunindo mais de mil observações sobre contratos de proteção, estrutura de dívidas, investimentos e características operacionais.
Os resultados indicam que a adoção de proteções financeiras de longo prazo depende, principalmente, da disponibilidade de garantias. Quanto maior o prazo do contrato, maior o risco assumido pela contraparte financeira e, consequentemente, maior a exigência de colateral. Empresas com mais caixa, reservas financeiras ou ativos físicos conseguem, portanto, manter proteções por períodos mais extensos.
O estudo destaca esse mecanismo durante o choque no preço do petróleo em 2014, quando o valor do barril caiu cerca de 50% em poucas semanas. Nesse contexto, reservas usadas como garantia perderam valor rapidamente, limitando o acesso de empresas com menor liquidez a contratos de longo prazo. Já companhias com colateral alternativo conseguiram preservar proteções mais duradouras, mesmo diante do cenário adverso.
A pesquisa também mostra que as empresas tendem a alinhar o prazo da proteção financeira à duração de suas dívidas e aos seus planos de investimento. Quando os compromissos financeiros são de longo prazo, a extensão do hedge ajuda a reduzir incertezas e a manter espaço para investir, mesmo em ambientes de alta volatilidade.
Outro fator relevante identificado é a flexibilidade operacional. Empresas com maior capacidade de ajustar rapidamente sua produção, como aquelas que atuam com exploração de xisto, dependem menos de proteções longas. Essa flexibilidade funciona como uma defesa adicional, permitindo respostas mais ágeis às mudanças do mercado.
Embora técnica, a decisão sobre a maturidade do hedge tem efeitos concretos sobre a segurança financeira das empresas e seus impactos na economia. A pesquisa aponta que a combinação entre colateral disponível, estrutura de endividamento, planejamento de investimentos e flexibilidade operacional é fundamental para atravessar períodos de crise, preservando empregos, estabilizando preços e sustentando investimentos essenciais.
Leia o artigo na íntegra aqui.
