"Pandemia mostra que não se resolve problemas complexos sem administradores públicos competentes", diz professor da FGV EAESP
Afirmação é do também Coordenador do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da Fundação Getulio Vargas, Fernando Burgos
Em entrevista a FGV EAESP, o professor do Departamento de Gestão Pública e Coordenador do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo (CEAPG) da instituição, Fernando Burgos, afirma que a "pandemia mostra que não se resolve problemas complexos sem administradores públicos competentes". Segundo ele, se havia quem duvidasse, a pandemia deixou bem claro: os governos são fundamentais para resolver problemas complexos da sociedade. Situações como os desastres ambientais, déficit e insegurança habitacional, e violência contra a mulher não se resolvem por esforço individual.
Burgos acredita que para lidar com problemas cada vez mais complexos, é preciso gente cada vez mais qualificada e disposta a enxergar e mudar a realidade além do eixo São Paulo-Rio e bem longe da capital federal. "Trabalho que gera impacto, traz felicidade e ajuda a construir uma carreira vitoriosa", destaca.
Confira em detalhes a entrevista da equipe da FGV EAESP (E) com o professor da instituição e Coordenador do CEAPG, Fernando Burgos (FB).
E - O mundo pós-pandemia será outro também para os profissionais de Administração Pública?
FB - Sim, e muito. A pandemia deixou evidente o que muitos não acreditavam: a importância dos governos. Países que tiveram governos que souberam atuar a partir de evidência e ciência tiveram resultados melhores. Na verdade, isso já acontecia, mas a sociedade não se dava conta. Bons governos geravam bons impactos, mas isso ficava mascarado porque muitas pessoas atribuem o seu sucesso ou o sucesso da sua organização a um mérito individual. A pandemia deixou evidente que o esforço individual, a rede de contatos pode ter ido por água abaixo a partir do momento que a administração pública não soube agir para resolver problemas complexos.
E - Afinal, problemas complexos exigem muito mais articulação, não é?
FB - Problemas simples podem ser resolvidos por empresas, pela família, pela comunidade. Problemas complexos só podem ser resolvidos pelo governo. Esses são exatamente aqueles problemas que a gente não sabe como surgiram e como saná-los. A violência contra a mulher, por exemplo, é um problema complexo. Quais os motivos que fazem alguém violentar? Sofreu violência quando era criança? É resultado do contexto machista? Como devo punir? Nenhuma resposta é simples. E existem outros problemas complexos. A questão agora é que a pandemia é o problema mais complexo da nossa geração. Eu diria que os governos do mundo todo voltaram a ficar em evidência. Se você não dava valor, agora você dá. Um bom exemplo é o da chanceler alemã Angela Merkel. Antes da pandemia, ela era questionada por ene motivos, como os rumos da economia. Mas, quando surgiu a Covid, ela teve uma atitude tão firme que a taxa de aprovação dela disparou dentro e fora da Alemanha.
E - A atitude dela é exatamente oposta à que tem havido por aqui. Por que?
FB - No caso do Brasil, não temos nem ministro para dizer nada. E isso, claro, tem gerado piores resultados. O PIB foi um prévia [O Produto Interno Bruto caiu 9,7% no segundo trimestre de 2020 comparado ao primeiro trimestre de 2020]. Não chegamos no fundo do poço, mas estamos cavando.
E - Isso significa muito campo de trabalho para o profissional de AP?
FB - Exatamente. Existem muitas oportunidades para trabalhar em governos sérios. Porque problemas complexos, como as queimadas na Amazônia e no Pantanal, a gente só resolve com técnicos competentes. Esse olhar já estava muito forte fora do Brasil. As maiores universidades do mundo, como Harvard e Oxford, atuam em public policy. Não é possível que as melhores universidades do mundo estejam erradas. Para lidar com problemas cada vez mais complexos, é preciso gente cada vez mais qualificada.
E - Sem contar que o Brasil é enorme e com realidades muito distintas, não é?
FB - Exatamente. Temos 5.570 municípios, sendo que 70% deles têm menos de 20 mil habitantes. São locais sem equipe técnica para trabalhar. Temos um mercado a ser explorado. Mas é preciso olhar além do eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Lidar com as queimadas da Amazônia é estar em Belém, Manaus e Santarém. Não à toa, as imersões do nosso curso de AP na FGV foram justamente criadas para romper com a bolha e levar os alunos para conhecer a realidade do Brasil. Temos egressos na prefeitura de Caruaru, em Pernambuco. Tem gente trabalhando com desenvolvimento urbano em Salvador e contra violência contra a mulher em Sobral, no Ceará. Trabalho que gera impacto, traz felicidade e ajuda a construir uma carreira vitoriosa.
E - Tudo isso bem longe de Brasília...
FB - Sim. Se não é o momento para se estar em Brasília, o lugar mais adequado são os Estados e os municípios. Aliás, existem formas de atuar com a administração pública estando em oposição ao governo federal, ao Bolsonaro. Inclusive, se ele tivesse uma equipe melhor, estaria fazendo menos bobagem. O país é complexo e tem muita oportunidade de trabalho.
