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Sucesso à vista: Nicole Lins nos conta como a FGV impulsionou sua carreira em entrevista exclusiva

23.02.2024
Nicole Lins - CGAP 2023

Todos os meses, o Soma FGV traz o quadro "Educação Transforma", com uma entrevista exclusiva com nossos ex-bolsistas. Esse mês conheça Nicole Lins (CGAP 2023), uma jovem de apenas 23 anos. Nicole é recém-graduada em Administração Pública pela FGV EAESP e em Gestão Comercial pela Fatec-Ipiranga. Durante sua jornada acadêmica, foi integrante do Coletivo Negro 20 de Novembro e bolsista Prosperar do Instituto Grupo Pão de Açúcar. A FGVniana também realizou um intercâmbio de seis meses na University of Notre Dame, EUA, como bolsista integral.

Destacou-se como diretora pedagógica do cursinho popular CFGV, pesquisadora pelo Centro de Empreendedorismo da FGV e consultora para grandes empresas. Atualmente, Nicole trabalha como Assessora de Diretoria I na SP Parcerias, contribuindo para projetos de PPPs e Concessões da Prefeitura de São Paulo.

Aluna da rede pública de ensino em São Paulo e trabalhando desde cedo, Nicole nos conta sua trajetória até conhecer a FGV e a transformação após viver de forma intensa tudo que a Fundação poderia ofertar. Em um bate-papo de aproximadamente 30 minutos conhecemos uma moça sorridente, eloquente e que luta para transformar sonhos em realidade. Em suas palavras, “se não fosse a GV, a minha vida seria completamente diferente hoje” e é só o começo de uma história recheada de coragem e dedicação.                                                                                                                                                                                                                                             Por Iamara Caroline - Equipe Soma FGV 

Soma FGV: Como era a sua vida antes da FGV?

Nicole Lins: Minha família toda é da Paraíba, eles migraram aqui para São Paulo antes do meu nascimento. Eu sou da primeira geração que nasceu em São Paulo. Eles mudaram para cá querendo mudar de vida, porque realmente lá não tinham oportunidade. Lá meus pais completaram até a 4ª série e eles passaram por situações de muita pobreza. Vieram nessa busca por emprego, como grande parte da migração nordestina que veio para cá.

Eu nasci também nesse cenário de pobreza, no caso fui criada por mãe solo e a gente viveu um cenário de muita instabilidade. A estabilidade de você morar numa casa, crescer e sempre estar nessa casa é algo que eu, por exemplo, não tive. Antes vivia de aluguel e a partir do momento que o aluguel aumentava, nós precisávamos sair dessa moradia e buscar outra. Já me mudei mais de 15 vezes. [...] 

[...] Tive muito apoio da minha mãe. Minha família sempre foi presente, na questão de tias cuidarem das sobrinhas e o apoio principalmente das mulheres. Esse tipo de apoio eu tive. Sempre estudei em escolas públicas e trabalho desde os 13 anos. Comecei em festas infantis aos finais de semana, aos 16 entrei num programa de jovem aprendiz e aos 17 já estava trabalhando 10 horas por dia numa fábrica. Segui nesse trabalho, até decidir prestar para a GV. [...] O meu background é um cenário de instabilidade e de apoio familiar também, de educação pública e, principalmente, um cenário que não via muitas possibilidades. Para mim (o futuro) era passar numa faculdade de fácil acesso, trabalhar num setor administrativo e ganhar 2 salários mínimos. Eu não tinha muita visão de ambição e de possibilidades, porque não me aparecia, né? Não era ofertado isso. Acho que essa foi principalmente a grande mudança quando eu entro na Fundação.

Soma FGV: Como que foi a sua entrada na FGV?

Nicole Lins: Nem eu e nem o pessoal da minha escola conhecia a FGV. Lembro de ouvir uma vez uma professora de matemática falando “uma aluna minha passou na FGV”, ela dava aula na minha escola na rede pública e no Bandeirantes também. [...] Ouvi esse nome, mas não fazia ideia de onde era, quais cursos oferecia ou como era. [...] Os meus amigos (da FGV) os pais já estudaram na GV, tinham uma relação ou conhecem a GV de antes. Eu conheci em 2018 com o Cursinho FGV, que era um pré-vestibular. [...] Só me inscrevi realmente pensando num cursinho gratuito, que também dava vale-transporte, vale-refeição, era aos sábados e cabia na minha jornada de trabalho. [...] 

Em 2018 eu passei em gestão comercial na Fatec, comecei a fazer essa faculdade e saí do meu trabalho para estudar e passar na GV. Fiz esse curso de noite e fiquei estudando o resto do dia e aos sábados no cursinho. Decidi que eu queria cursar administração pública, foi um curso onde eu me encontrei. Sempre tive a motivação de trabalhar para a sociedade, de trabalhar com impacto e trabalhar com o governo, só não sabia que existia um curso para isso. Então eu decidi prestar no final de 2018, estudo bastante, passo em 2019 na primeira chamada e com isso que eu consigo a bolsa socioeconômica 100% (BNE) na FGV.

E, além disso, eu também passo na Bolsa Prosperar, do Grupo Pão de Açúcar, que eles oferecem uma espécie de auxílio para alguns bolsistas aprovados em um processo seletivo. [...] Recebi um auxílio semestral durante os 4 anos na Fundação e esse auxílio foi primordial, porque sem ele eu não conseguiria não trabalhar e ficar fazendo a GV (que é em período integral). O auxílio-alimentação não era muito alto, mas cobria minhas necessidades básicas e fiz a faculdade noturna também (Fatec). Tudo muito integral. Quando fiquei 6 meses sem trabalho, estudando para GV, também foi um combinado em família, porque eu não poderia ficar sem trabalhar mais tempo do que isso. 

Soma FGV: E como foi sua experiência dentro da FGV?

Nicole Lins: [...] Entrar na GV foi realmente um choque de realidade. Eu descubro um mundo de possibilidades, descubro tudo o que dá para ser feito numa faculdade: pesquisa, entidades, intercâmbio, estágios e coisas que eu nunca tinha tido acesso e aí eu me jogo. Realmente fiz de tudo. 

Fiz três tipos de pesquisa diferentes, participei de entidades, torcidas e estágio. Assim que eu ingresso, no meu primeiro semestre, apliquei para um estágio de férias e passei. Foi meu primeiro contato com o mundo corporativo [...] conheci empresas incríveis: Netflix, Facebook e Mercado Livre. Conheci várias empresas e basicamente eu sabia que eu só tinha passado por ter uma grande faculdade no meu currículo. E acho que isso começa a impactar muito o meu modo de ver a vida. Não só no relacionamento com outras pessoas [...] estava em contato com pessoas que tinham vivências muito diferentes da minha, mas também eu me via muito mais capaz. A partir do momento que eu estava naquela grande faculdade, eu não tinha medo de concorrer a vagas de emprego ou concorrer a pesquisas. Eu tinha autoestima suficiente para isso, para pensar:“vou concorrer, isso é possível”, coisa que antes não era. 

Nicole Lins enquanto cursava a FGV EAESP
Nicole Lins enquanto cursava a FGV EAESP

Então eu acho que realmente é um momento em que você pensa: “Se eu não tivesse feito isso, a minha vida seria completamente diferente hoje”. Para mim o ponto é: se eu não tivesse feito GV, minha vida seria completamente diferente. Eu teria feito, enfim, muito menos coisas na minha vida e acreditaria que seria capaz de fazer muito menos coisas também. 

A minha experiência na Fundação no geral foi muito rica. [...] Teve a pandemia da Covid-19 no meio, foi uma quebra na minha experiência, porque isso também estampou a grande diferença socioeconômica que tinha entre eu e os outros alunos. Naquela época todo mundo estava comemorando que ia ficar em casa [...] enquanto para mim, era um momento de muito desespero [...].  Minha mãe trabalhava fora, então eu precisei cuidar da minha irmã que tinha um ano na época e estudar o dia inteiro. E não tinha lugar propício para isso. [...] Nesse momento eu senti, "não sou igual às pessoas que estão estudando comigo ", mas, ao mesmo tempo, todo esse cenário não me permitia desistir da GV. [...] Por mais que eu tivesse adversidades, estava em pandemia, cuidando da minha irmã, aula online [...] eu pensava: “eu não vou desistir disso, essa é realmente a minha grande oportunidade”. Pós-pandemia tive uma mini experiência presencial e depois fui para o intercâmbio. Aproveitei ao máximo tudo que tinha disponível na Fundação.

Soma FGV: Como foi a sua vivência internacional?

Nicole Lins: Antes de decidir prestar intercâmbio, me envolvi em outras atividades. Fiz monitoria de residência, que é um tipo de pesquisa, no primeiro e no segundo semestre. No meu terceiro semestre, eu entrei para a entidade do Cursinho FGV, onde eu já tinha sido aluna e fiquei um ano como coordenadora. Um ano depois, em 2021, eu fui para a diretoria. Ser diretora da área pedagógica do cursinho foi uma grande experiência também, era um momento de pandemia. Cuidamos de mais de 200 alunos, mais de 40 professores. [...] Pensando na posição desses meus alunos para assistir às aulas, conseguimos entregar uma boa gestão que forneceu tablet, internet, que cuidou desses alunos e que me ensinou muito. Depois disso, apliquei para outro tipo de pesquisa, que é uma conexão local que fiz com a pós-graduação. Nós fomos até a Bahia, fizemos entrevistas lá com o nosso tema de pesquisa. Depois eu participei de uma conferência online pela Colômbia sobre essa pesquisa também. Logo depois eu fui para o intercâmbio.

O processo do intercâmbio, basicamente ele passa por uma prova de inglês como o Toffel e o IELTS. A GV começou a fazer um processo dela mesma para essa prova de inglês e eu não tinha inglês. Esse foi um grande problema também, eu nunca tive dinheiro que sobrasse para poder fazer um curso de inglês. Hoje em dia a gente tem mais acessos, bolsas e tal, mas até o ensino médio eu não era muito familiarizada com essas possibilidades de bolsas. Eu comecei a tentar processos de bolsas de cursos online um semestre antes de aplicar pro intercâmbio. Fiz cerca de um semestre de inglês antes da prova. Graças a Deus passei na prova e continuei. [...] Eu fiquei fazendo no total um ano de inglês, estudei sozinha, com curso online. Mas foi o suficiente para eu conseguir ir para os Estados Unidos. Eu fui para a University of Notre Dame, era uma faculdade conveniada com a GV. [...] Não precisei pagar para ir para os Estados Unidos. Entretanto, peguei um auxílio restituível também pelo Fundo de Bolsas para as despesas que iriam ocorrer no intercâmbio.

O intercâmbio foi uma coisa que eu nunca imaginei que eu poderia fazer na minha vida. [...] Realmente é mais um momento daqueles que a gente pensa “se não fosse a GV, a minha vida seria completamente diferente hoje”. Eu fui para a faculdade, uma cidade completamente diferente para mim. Muita neve, uma cultura muito diferente, os americanos, a forma como eles se relacionam. Entender tudo isso e estar em um lugar com uma língua diferente da minha, que eu estava estudando tinha pouco tempo. No começo foi bem desafiador, até porque fui morar sozinha num país que eu não conhecia ninguém. [...] Com o passar do tempo, eu fui percebendo o tamanho privilégio e oportunidade que eu estava tendo ali. Na faculdade eu estudei, escolhi um grupo de matérias que eu quis e também trabalhei.

Trabalhei em três lugares diferentes que eles disponibilizam para alunos: refeitórios, bibliotecas, lugares específicos da faculdade. Trabalhei na faculdade e também me conectei com a comunidade negra da faculdade. Pude conhecer muitas pessoas, eventos [...] tudo era desafiador, tudo me exigia coragem. [...] Mas coragem é parte necessária para tudo o que eu quero fazer na minha vida e o intercâmbio foi só um reflexo disso. Voltei falando muito melhor inglês, com muitas amizades novas, com muita bagagem e com o nome de uma faculdade incrível no meu currículo. Pude viajar também para outros lugares, visitei Nova Iorque, Chicago e o México. Tudo com esse grande mundo de possibilidades que é a Fundação.

Soma FGV: O que você está colhendo após a faculdade?

Nicole Lins: Quando eu voltei do intercâmbio, eu comecei a aplicar para estágios e eu decidi que gostaria muito de trabalhar na área pública. [...] Passei em duas secretarias diferentes da prefeitura, mas escolhi trabalhar na SP Parcerias, que é uma entidade da administração indireta da prefeitura. [...] Em novembro de 2022 entrei como estagiária para fazer modelagem, modelos de projetos na área econômica e fui efetivada em junho de 2023. Tive pouco tempo de estágio, mas o suficiente para eles verem a minha forma de trabalho, e eu queria muito continuar trabalhando lá. Fui efetivada no cargo de Assessora de Diretoria I.

É um cargo júnior para projetos, onde faço projetos de concessões e de PPPs para a prefeitura de São Paulo. [...] É um lugar que eu me sinto muito confortável de trabalhar, trabalho com pessoas muito competentes. [...] Hoje moro com o meu padrasto, com a minha mãe e com minha irmã de 5 anos. Minha renda é a maior contribuinte do meu componente familiar, e eu só tenho 23 anos. 

Aprendo bastante e sinto que eu sou reconhecida pelo meu trabalho. Trabalho com o que gosto de trabalhar, pensando sociedade, pensando políticas e espaços para a população de São Paulo, que é a cidade que eu nasci, cresci e vivi até então. Eu me sinto muito realizada do lugar onde eu estou hoje, que eu sonhei já algum dia estar e eu sei que é só o começo. Isso também é algo muito importante para mim, de entender que a minha trajetória até aqui. Eu tenho que reconhecê-la, que foi incrível, que me exigiu muita coragem, que me exigiu muito esforço. Eu tive muito apoio também nesse meio tempo. Muitas pessoas passaram por mim, me apoiaram de alguma forma para eu estar onde eu estou hoje e, ao mesmo tempo, é um lugar que é só o começo. Então eu me sinto muito capaz e me sinto muito motivada para alcançar tantos outros lugares.

Soma FGV: Nicole, quais outros lugares você sonha alcançar?

Nicole Lins: Muitos lugares! (risos) Eu tenho essa vivência da vida pública e tenho muito interesse em continuar. Penso em sair do municipal, ir para o estadual, e eu acho que o meu objetivo máximo seria até ao nível federal ou até mundial. Acho que é um objetivo que faz sentido para mim. 
Da mesma forma como eu também tenho interesse de conhecer um pouco o mundo corporativo na área de analista. Já estive (na área), mas como estagiária, então eu tenho vontade de conhecer (mais). Tenho uma lista de empresas selecionadas que eu gostaria de conhecer.

Mas também eu acho que no final, o meu objetivo macro é sempre um lugar em que eu possa impactar a sociedade de alguma forma. Acho que esses espaços que envolvem política, planejamento, economia, bancos de desenvolvimento; espaços que promovam políticas públicas, seja empresa, ou seja no próprio governo... Eu me vejo com realmente um mundo de possibilidades e hoje eu estou me esforçando para aprender o máximo do lugar onde eu estou agora, para eu poder decidir, o que faz realmente sentido para mim no futuro. Mas eu acho que em um objetivo macro eu defini que seriam esses ambientes que possibilitem eu trabalhar com projetos [...] com impacto na sociedade.

Soma FGV: Você recomendaria FGV para outras pessoas?

Nicole Lins: Claramente, obviamente e para mim, sem sombra de dúvidas. Acho que a grande questão para mim enquanto uma pessoa que foi bolsista, que participou do coletivo negro, uma pessoa que participou, enfim, de lugares que colocavam classe, raça e gênero como um ponto... Eu acho que é uma jornada que possa ser mais difícil. Então a minha dica para essas pessoas é que GV realmente ainda continuará sendo uma grande virada de chave na vida de vocês. Talvez ainda mais do que para pessoas que já sejam privilegiadas em educação, classe ou qualquer outra coisa, mas a GV tem criado ambientes de apoio, então os coletivos são muito importantes. Eles têm tido muita força, pelo menos desde da minha época de entrada e saída, os coletivos eram muito presentes.

Então, se for esse o seu caso, é se apoiar nos coletivos, nos bolsistas, nas pessoas negras, na sua comunidade. Criar uma comunidade que você se sinta confortável, porque eu acho que a GV é uma oportunidade incrível e que deve ser perseguida mesmo, mas que também você precisa terminar a faculdade, né? Não é só importante você entrar, é importante você sair também. Então é se apoiar nesses ambientes que tornem a jornada um pouco mais confortável. Com certeza eu recomendo!
 

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