Professora da FGV EAESP divulga alerta sobre novo coronavírus

bacteria representando o corona vírus

Volta e meia a população é confrontada com uma nova epidemia, com um novo vírus, que aparece em algum lugar, onde ocorrem muitos casos e as informações e desinformações se multiplicam. Não faz tanto tempo, tivemos epidemias do vírus H1N1, SARS...Janeiro de 2020 foi o mês em que o coronavírus 2019 começou a ganhar as manchetes dos noticiários, online, escritos, televisivos e, como sempre, há muitos assuntos em torno dele.

A primeira coisa a saber é que, apesar de o número de casos ser bastante grande e sua disseminação rápida, a mortalidade por este vírus tem sido relativamente baixa, muito mais concentrada numa população mais frágil (a dos idosos). Neste caso não há vacina, o contágio se dá pessoa a pessoa mas algumas medidas simples, como lavar as mãos, evitar contato desnecessários com pessoas e cobrir a boca ao tossir, têm se mostrado eficazes. 

Algumas atitudes de impacto ou de grande visibilidade têm sido tomadas. Brasileiros que se encontram na China nos primeiros dias de fevereiro pediram para ser repatriados. O mesmo ocorreu com franceses e com estadunidenses. O governo do Canadá, mesmo com grande população de chineses que lá habita, ainda se mobilizou com a mesma intensidade.  Um jornal de grande circulação português postou em manchete a quantidade de mortes por pneumonia, muito maior que a desta doença, para colocar o coronavírus 2019 em perspectiva. 

Por outro lado, o governo chinês assombrou o mundo com a decisão de construir em 10 dias um hospital de 1000 leitos. Isto chamou a atenção pois este prazo é praticamente inédito. No entanto, é necessário pensar no que significam estes 1000 leitos. Em primeiro lugar, estamos falando da população da China. Em segundo lugar, há que pensar qual a intensidade tecnológica de que estes leitos disporão: possivelmente servirão para realizar o diagnóstico e manter os doentes em boas condições hemodinâmicas, enquanto a doença não passa. Em terceiro lugar, é louvável a capacidade que o governo daquele país teve de mobilizar uma grande quantidade de trabalhadores e de desenhar um processo de produção muito ágil para a construção utilizando pré-moldados. Fica, no entanto, o alerta para quem se interessa por realizar um tour de force semelhante de que talvez esses hospitais deixem de ser necessários num período de tempo curto. Ou que deles sejam reorientados para novas finalidades.

Ter medo é importante para desenvolver cautela. O número de casos pelo mundo continuará a aumentar e provavelmente haverá doentes no Brasil. O pânico parece, neste momento, porém, ser descabido. Olhar com desconfiança para quem chegou da China, buscar remédios e máscaras para se cuidar não tem um efeito duradouro. Isto acaba trazendo mais um pouco da chamada medicalização da sociedade, em que produtos substituem hábitos e trazem segurança.  Informação sempre é um dos melhores remédios e, se bem utilizada, traz poucos efeitos colaterais.   

(Texto de Ana Maria Malik )

 

Ana Maria Malik

Doutora em Medicina. Ela leciona na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), onde também coordena o Centro de Estudos em Planejamento e Gestão da Saúde da  (FGVsaude) e dirige o Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde (Proahsa). 

 

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