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  • Organizações e Pessoas

Mulheres na pandemia: entre as responsabilidades e a exaustão

07.04.2020

Por Maria José Tonelli, professora, coordenadora do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (NEOP) e delegada brasileira no W20.

As mulheres são chefes de família em mais de 40% dos lares brasileiros., ou seja, financeiramente responsáveis pelas crianças, adolescentes e idosos. Como chefes de família as mulheres buscam os recursos para sobrevivência em trabalhos informais, trabalhos formais e também no empreendedorismo onde respondem pelo crescimento de mais de 50% das empresas no país.

Em paralelo, todos conhecem, as mulheres são as responsáveis pelo trabalho do cuidado: com os filhos, com os mais velhos, com os doentes, com os prisioneiros. O trabalho do cuidado é intensivo e repete-se à exaustação todos os dias: lavar, passar, cozinhar, fazer faxina, arrumar brinquedos, arrumar camas, levar ao médico, dar remédio, e eteceteras. Também atribui-se às mulheres a responsabilidade pela saúde física e mental nas famílias. Em situações de crises, supostamente seriam elas que deveriam manter uma atmosfera harmoniosa e tranquila. Em resumo, as mulheres são as responsáveis pela produção e manutenção da força de trabalho, para usar um conceito hoje quase esquecido.

Embora a situação de estresse seja experimentada praticamente todos os dias pelas mulheres que trabalham fora de casa (trabalho remunerado) e trabalho em casa (não remunerado), na famosa dupla jornada de trabalho, a situação atual, exponencial como a multiplicação do COVID 19, intensificou o que é demandado das mulheres.

Várias situações: em primeiro lugar, as mulheres no mercado informal de trabalho e que são chefes de família experimentam a brutalidade de ter que alimentar a família, sem recursos.

As mulheres que trabalham no setor de saúde, que correm riscos no trabalho, e precisam das avós para apoio, estão sem chão, com medo, que decorre da contaminação própria, do risco para as famílias e da possibilidade de perder o trabalho e, por consequência, o sustento de todos. Dados da ONU (2020) mostram que 70% do trabalho no setor da saúde, educação e serviços sociais é exercido por mulheres. Não só dentro das casas, mas também em suas atividades de trabalho, as mulheres são responsáveis pelo cuidado e manutenção da força de trabalho.

Outro grupo, por vezes muito privilegiado: as mulheres das camadas médias que estão em cargos de gestão. Normalmente esse grupo conta com o apoio das empregadas domésticas e agora precisam conciliar a alta demanda do trabalho e o trabalho do cuidado. Ainda que seja um grupo privilegiado, com casa e a possibilidade de trabalho remoto, não dá para desconsiderar o sofrimento nessa mudança repentina nos modos de vida. Executivas que trabalhavam 10 horas por dia nas empresas precisaram se adaptar ao trabalho em casa, responsáveis também, assim como todas as outras mulheres, pela casa e pelas tarefas escolares dos filhos. E também as empreendedoras de pequenos negócios que perdem a esperança de vê-los crescer ou mesmo, antecipam sua falência, e se desesperam com o futuro dos filhos.

Em boa hora, os recursos do Governo serão endereçados às mulheres. Sabe-se por pesquisas e por práticas cotidianas que as mulheres são boas pagadoras de dívidas e, com recursos, investem na saúde, na educação dos filhos e cuidados com os familiares. O que levou às mulheres a terem condutas éticas (isso aplica-se também às mulheres que participam dos conselhos de empresas) é uma longa história que não cabe contar aqui.

Nesse momento, as mulheres viram suas atividades serem multiplicadas em casa. Em muitos casos, em paralelo com a violência doméstica, já apontada em diversos países. Elas estão exaustas. Embora não estejamos mais no século passado, a desigualdade no reconhecimento do trabalho, no pagamento do trabalho e nas atividades de cuidado persiste.

A pandemia é cruel e afeta a todos, mas há que se considerar a vulnerabilidade das mulheres pela pressão que sofrem em suas múltiplas funções e, em especial, as que atuam no setor de saúde e serviços sociais., em exposição diária e inevitável ao risco.

No começo do mês de março, várias manifestações foram realizadas para celebrar o mês da mulher. Com o avanço da pandemia as manifestações públicas deixaram de acontecer. Bater palmas para todas essas mulheres é simbolicamente o que podemos fazer no momento. Que o reconhecimento possa perdurar após esse pandemônio e que novas formas de organização familiar possam ser construídas nesse país. Passada a crise, que não se volte a jogar pedras na Geni.