Programa de formação aprimora competências para a participação da sociedade civil em negociações internacionais sobre clima

Realizado pelo Instituto Clima e Sociedade em parceria com o FGVces, projeto conta com a participação de 40 organizações da sociedade civil atuantes na agenda climática

Com o objetivo de fortalecer competências para a participação da sociedade civil nas negociações internacionais e, em particular, nas COPs (Conferência das Partes da ONU), o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) iniciaram o programa de formação “Simulação de Negociações Internacionais sobre Mudanças Climáticas”.

Com atividades que vão de maio a dezembro de 2024, o percurso formativo tem como elemento central a realização de uma simulação para reproduzir como as negociações internacionais climáticas acontecem na realidade, trazendo para as pessoas a oportunidade de praticar e refletir, em um ambiente seguro de aprendizagem, como se estabelecem conflitos, interesses e decisões.

Quarenta organizações foram selecionadas para participar do programa. Desse total, 45% estão no Sudeste, 19% atuam na região Norte, 19% na região Centro-Oeste e 7% no Nordeste. Para iniciar a jornada, as representantes das organizações se reuniram durante dois dias inteiros em São Paulo, na FGV EAESP, para uma etapa de preparação e troca de saberes mediadas por Fernanda Carreira e Gabriela Alem Appugliese, respectivamente, coordenadora e gestora de projetos do FGVces.

Diálogos para acessar a inteligência coletiva

A jornada formativa começou com uma sessão de compartilhamento de saberes e experiências. Em roda, as quase 50 pessoas participantes trouxeram suas impressões sobre a participação da sociedade civil nas COPs e dialogaram sobre os meios que podem qualificar essa inserção.

Entre outros pontos, emergiu o reconhecimento de que a preparação é fundamental para as atividades de incidência política e para a promoção de articulações, o que demanda desde desenvolver conhecimentos mais técnicos e superar barreiras de linguagem até compreender quais são as possibilidades efetivas de intervenção da sociedade civil nas negociações, inclusive antes das COPs.

A realização de um mapeamento criterioso de quais atividades/eventos deverão ser priorizados em detrimento de outros na extensa agenda das negociações internacionais também foi destacada como uma estratégia acertada.

Em termos de oportunidades, circulou o entendimento de que as organizações poderão se conectar com organizações de outros países, o que dará amplitude para as narrativas e para as possibilidades de financiamento. O fortalecimento das pautas sociais, florestas e biodiversidade também está nesse horizonte do grupo.

“Aulões” temáticos

A primeira etapa de formação também contemplou cinco aulas para propiciar o desenvolvimento de conhecimentos técnicos. Abrindo essa frente, Guarany Osório, pesquisador e coordenador de projetos do FGVces, apresentou um panorama das negociações internacionais em clima, enfatizando como funcionam as COPs, quais são suas dinâmicas e como o Brasil se insere nas discussões. Também foram apresentados dados sobre as emissões globais de CO2 e o quão distantes estamos dos compromissos de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 oC ou 2oC, o que sinaliza a necessidade de maiores esforços em todas as frentes, como pontuou Osório.  

Annelise Vendramini, que também é pesquisadora e coordenadora de projetos no FGVces, abordou o tema do financiamento climático. Além de fazer uma introdução sobre finanças e apresentar o estado atual do financiamento climático no mundo – lembrando que são necessários 9 trilhões de dólares por ano, segundo estimativas, para viabilizar os investimentos exigidos pelas metas climáticas –, a professora do Centro esclareceu por que os recursos não chegam ou tardam a chegar na “ponta”.

O tema do uso da terra e dos sistemas alimentares coube a Rodrigo Lima, da Agroicone, que explicou as implicações para o Brasil de manter o compromisso de zerar o desmatamento até 2030, conforme proposto na última atualização das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Lima também abordou os riscos de tratar o tema da transição dos sistemas alimentares de forma transversal nas agendas da COP. Em sua opinião, a declaração de transição de sistemas alimentares feitas na COP 28 representa uma mensagem política de alto nível, mas sua manutenção no longo prazo pode ser arriscada por ter acontecido fora da convenção.

Finalmente, o grupo teve uma aula sobre adaptação às mudanças climáticas com Mariana Nicolletti, pesquisadora e coordenadora de projetos do FGVces. A partir de sua apresentação, foram esclarecidas uma série de questões, começando pela definição em si do conceito, passando pela evolução das agendas internacional e nacional de adaptação até chegar nos pontos de atenção das COP 29 e 30 em relação à temática. 

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