Conversas que Transformam com Ilana Trombka

Quando o limite corta, abre. 

Por Rosa Souza Lima

Para dar início a temática do mês da mulher o Conversas que Transformam bate um papo com a ex-aluna Ilana Trombka (DPA 2024) que manifesta em sua trajetória de vida e carreira uma ligação ativa com o tema de equidade ou, como ela irá desenvolver ao longo da nossa conversa, equidades no plural. Ilana é Diretora Geral do Senado Federal há 11 anos e ex -aluna do curso de doutorado da FGV. 

Para começarmos nossa conversa eu trouxe uma frase de Ilana que coloca a inclusão como princípio orientador. A partir daí falaremos de si, de sua família e do setor público.  

“No setor público, a inclusão social não é apenas um resultado desejável da inovação, mas muitas vezes o seu princípio orientador.”

 

 

A vida

Eu venho de uma família onde a questão da equidade de gênero era uma questão muito respeitada. Minha avó, que morreu com 102 anos há 3 anos atrás, saiu de casa com 17 para trabalhar fora e a minha outra avó era economista e funcionária pública. Eu sou filha mais velha, a prima mais velha, eu tenho uma irmã mulher. Eu tinha uma mãe que trabalhava fora e minhas avós eram muito importantes. Eu acho que as minhas duas avós eram mais centrais do que os meus avôs. Nesse sentido, as questões de gênero para mim não eram uma questão enquanto eu crescia. Até que eu entro no Senado, começo a trabalhar numa área também majoritariamente feminina, eu sou originalmente das relações públicas. Comecei a perceber alguns padrões conforme fui galgando posições de liderança onde  fui muitas vezes a única mulher. Quando comecei a perceber eu me dei conta da responsabilidade que eu tinha de abrir esses campos, mostrando para as mulheres que sim, era possível chegar e por mais que todo cargo de chefia exija um nível de sacrifício não era para ser um nível de sacrifício tão maior que o dos homens.
Com o tempo eu descobri que não existe trabalhar com equidade. Existe trabalhar com equidades, porque o princípio da discriminação, ele é sempre o mesmo. A pessoa que discrimina hoje o negro, amanhã discrimina o homossexual e depois de amanhã o judeu e depois a pessoa com deficiência e depois o gordo e depois a mulher. O princípio da discriminação, ele é o mesmo, independente do grupo. Então, não existe você dizer: "Eu quero ser uma instituição que seja equalitária para as mulheres." É uma instituição que é equalitária. Ponto. Para todo mundo, para as mulheres também.
Agora, eu acho que o momento que essa militância veio muito à tona e passou a ser muito reconhecida, foi quando criamos no Senado a cota para mulheres vítimas de violência. O Senado é o órgão pioneiro e nós já fomos premiados por isso, tá na lei de licitações na exposição de motivos. Foi em 2016 que o Senado criou, por sugestão minha, acatada pela comissão diretora, a cota para mulheres vítimas de violência.

A carreira

 "Para de olhar pro que você não sabe e olha as tuas potencialidades."
 

Quando eu fui convidada para ser diretora geral do Senado, eu já sabia que eu ia ser convidada, e o presidente da casa me chamou para conversar. Quando ele começou a conversar comigo e me convidou para ser diretora geral, eu disse: "Tá bom, presidente, mas eu preciso dizer pro senhor que eu não sou advogada”, no que ele me responde: “eu sei”, ”mas eu também não sou economista e nem administradora". Lá pela quarta vez ele disse: "Olha, eu li o teu currículo, eu sei o que você é, e eu estou te convidando".
Foi quando eu disse: "Presidente, se o senhor acha que eu estou à altura desse cargo, então eu aceito." Quer dizer, a minha resposta foi: se o senhor acha que eu tenho. Veja bem, se é o senhor quem acha, não sou eu quem acha que eu tenho. Esse é um exemplo da síndrome da impostora que aconteceu comigo. Com o tempo eu fui aprendendo que sim, a gente tem que estar nos lugares, a gente tem que se posicionar e tem que falar.

Eu percebi também ao longo do tempo que a presença de mais mulheres tira da obrigação da mulher ter que se disfarçar de homem. Quanto mais mulheres estão em postos de chefia, mais isso vira naturalizado. Fui também aprendendo que não existe liderança feminina e liderança masculina, existe liderança.

Especificamente o Senado é um ambiente que sempre teve mulheres em postos de poder. Por exemplo, a diretora de recursos humanos que fez a transferência do Senado do Rio para Brasília era uma mulher, a secretária geral da mesa da Constituição era uma mulher e muita gente até hoje não sabe disso.

As mulheres no Senado, sempre ocuparam posições de liderança, eu não sou a primeira diretora geral. Eu costumo dizer que essa coisa de abelha rainha só serve para dentro da colmeia, isso significa que a gente tem que se cercar de mulheres e de homens. As organizações são formadas por mulheres e homens e os problemas das mulheres e homens são problemas da organização.
Gerir bem os recursos públicos é minha obrigação, fazer licitações corretas é minha obrigação e ter um orçamento equilibrado é minha obrigação, mas trabalhar com as questões de equidades é algo que eu trouxe pro Senado, que hoje depois de mais de 11 anos é muito presente.

O que precisamos renegociar para ter um futuro mais equalitário. Tolerância.

A FGV para mim é…

Fazer o doutorado foi, eu costumo dizer, uma das melhores opções que eu fiz na minha vida. Eu adorei fazer o doutorado. Foi uma oportunidade de conviver primeiro com um grupo muito qualificado, maravilhoso e diverso e segundo a oportunidade do aprendizado. Quem se coloca para fazer um curso de mestrado ou doutorado, está aberto a aprender e eu acho que isso é uma das coisas que faz a gente caminhar. Eu acho que quando a gente tá aberto a aprender, a gente segue em frente, a gente caminha, a gente se enriquece. 

O que ficou para nós:

 

Imagem removida.Escrevo esta reflexão na segunda-feira pós Bad Bunny no Super Bowl e, como nunca acompanhei o esporte, jamais imaginei que o evento apareceria por aqui.
E qual a relação entre o show e essa entrevista?
Das conversas que tive com Ilana, sempre saí com aprendizados e/ou com reflexões. Desta vez, a conversa me levou de volta à ideia de limites, um tema muito presente nesse papo. Voltei a pensar em como o gesto de estabelecer limites de forma pacífica, respeitosa e firme é, na prática, um gesto político e de abertura. Ainda que muitas vezes pareça contraintuitivo, colocar limites cria espaço para novas possibilidades de construção partindo de um lugar de respeito. Por Rosa Souza Lima

Como falei, escrevo esta reflexão na segunda-feira pós Bad Bunny, e não poderia deixar de registrar: a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor.

Imagem removida.Ouvir a história da Ilana e interagir com as reflexões da Rosa me fizeram lembrar de algumas coisas que eu aprendi sobre a palavra poder que, curiosamente ou não, aprendi com diferentes mulheres que estão na minha vida. Aprendi que pensar a equidade junto às relações de poder presentes, torna a nossa compreensão e possível intervenção muito mais assertiva. Inclusive, é essa lente que guiou uma grande mudança que fiz na minha carreira e se tornou premissa para o espaço que busca ser mais equânime e comunitário para pessoas facilitadoras e consultoras autônomas que eu cofundei com outras duas mulheres: o CHAMA Coletivo. 

Além disso, eu e Rosa aprendemos com uma das convidadas do Renegociando, podcast que anfitriamos juntas, que existem diferentes formas de poder para além do poder sobre (que quer impor, convencer ou dominar). Existe o poder para (tomar decisões, usando o nosso poder interno para influenciar o entorno) e o poder com (que propõe diferentes mecanismos de coletividade para encontrarmos novas dinâmicas que distribuam o poder).

Que (não apenas) em março, possamos relembrar essas diferentes formas de poder e, assim como a Ilana, criar mais espaço para equidades que nascem de poder para e poder com. Por Stephanie Crispino.

Deu vontade de conversar e trocar histórias?

Então entra em contato com a gente nos e-mails aqui embaixo, porque estaremos por aqui todos os meses criando novas pontes para nos conectarmos como rede!

E-mails para se voluntariar para uma entrevista: rosa.souzalima@gmail.com e svcrispino@gmail.com

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