A Ponte Mágica e o pioneirismo em todos os Passos
Como o Fundo de Bolsas da FGV e a Associação Passos Mágicos conectaram destinos e realizaram sonhos
Na manhã em que colocou os pés pela primeira vez no prédio da FGV EAESP, em São Paulo, Ana Carolina Bispo — a Carol — não carregava apenas uma mochila. Levava consigo anos de estudo, a persistência de quem não se deixa limitar pelo CEP de origem e o peso simbólico de ser a primeira criança da instituição Passos Mágicos a conquistar aquele espaço.
Hoje, aluna de Administração de Empresas (CGAE 2027) e bolsista do Fundo de Bolsas da FGV, Carol é o retrato vivo do slogan “Conectando gerações e inspirando futuros” — um elo que une histórias de superação pessoal, solidariedade e impacto coletivo.
O começo de uma longa caminhada
Carol chegou à Passos Mágicos aos 10 anos. Na pequena Embu-Guaçu, a organização lhe abriu portas que pareciam distantes: reforço escolar em português e matemática, aulas de inglês, atividades culturais, cursos extracurriculares e até dois intercâmbios no Canadá.
“Eu acho que o maior impacto da Passos Mágicos foi me fazer acreditar que sonhos acontecem”, conta. “Muita gente tem potencial, mas sem apoio fica difícil. Eles estavam sempre lá para dar o suporte necessário.”
Sua mãe, voluntária no projeto, sempre lhe repetia que o conhecimento era algo que ninguém poderia tirar. Foi ela quem, para garantir que a filha estudasse, mudou-se para São Paulo junto com outras alunas da Associação. No fim do ensino médio, Carol já tinha formação técnica em enfermagem e pensava em seguir Medicina. Mas um jantar mudou tudo.
O encontro que virou o jogo
Naquela noite, Carol conheceu Guilherme Vicente (CGAE 2002) e Isaias Sznifer (CGAE 2000), ambos alumni da FGV, ex-bolsistas e seus futuros padrinhos da Passos Mágicos. Guilherme descreveu sua própria experiência na FGV como um caminho “em linha reta para o sucesso e para a felicidade” e contou como a faculdade transformou sua vida.
“Foi aí que pensei: por que não tentar?”, lembra Carol. Sem contar a ninguém, fez a inscrição para Administração de Empresas na FGV. Passou.
Uma rede que se move rápido
A notícia animou a todos — especialmente seus padrinhos. Guilherme acionou um grupo de amigos, todos ex-alunos, e em poucas horas já tinham reunido recursos para moradia, transporte e alimentação.
“Com a Carol, foi igual a outras mobilizações que já fizemos”, explica Isaias. “Uma vez conseguimos bolsa no cursinho para dez alunos em questão de horas. A rede tem um poder enorme e isso é muito impactante.” Ele ressalta que o impacto é imediato: “Um estágio na FGV já pode pagar mais que a renda total de uma casa na realidade dessas crianças. Imagina quando ela se formar. A vida realmente muda e a educação é o veículo de mudança.”
Para Guilherme, esse é o caminho para liberdade. “Eu sou bem pragmático. Para transformar a vida de uma pessoa, o caminho é conquistar uma boa renda. Quando a carreira se torna uma fonte recorrente de sustento para ela e sua família, isso é o que eu chamo de liberdade: poder fazer o que quiser, do jeito que quiser. Meu pai falava: seu futuro não é seu passado. Lute para ir em frente. É isso que tento passar para as crianças da Passos Mágicos.”
Hoje Carol também sabe o quanto essa escolha vai mudar sua vida. “Tenho certeza que, onde quer que eu vá, serei bem-sucedida graças à base que estou tendo agora na FGV”, completa.
O mestre que sonha grande
Por trás dessa trajetória está Dimetri Ivanoff (CGAE 1985), fundador da Passos Mágicos. Ele também teve a vida transformada pela FGV e criou a instituição para retribuir. A instituição atua a mais de três décadas em Embu-Guaçu, oferecendo suporte pedagógico, acompanhamento psicológico e acesso a oportunidades culturais para jovens em situação de vulnerabilidade. Dimetri conhece de perto as barreiras que a desigualdade impõe: “Eu também precisei de apoio para acreditar que era possível sonhar mais alto. Quando criamos a Passos Mágicos, queríamos ser essa ponte. A FGV salvou minha vida. Eu queria retribuir”, diz.
Para Dimetri, toda criança nasce com capacidade de aprender, e cabe ao projeto lapidar esse potencial. “Cada pessoa é única e pode brilhar. O nosso papel é convencê-las de que são protagonistas da própria vida e que estudar vai te levar longe.”
Sobre Carol, ele é categórico: “Ela participou de tudo, superou cada dificuldade e abriu todo o caminho das pedras para outras crianças. Tenho orgulho de tudo isso. Minha vida teria sido desinteressante sem a Passos Mágicos.”
Superando choques e descobrindo paixões
O início na FGV foi um desafio. “Eu estava perdida, até com a linguagem, que é totalmente distinta da biológicas que eu vinha estudando mais até então”, lembra Carol. “Mas no terceiro semestre comecei a me encontrar. Gostei de Controladoria e agora vou fazer pesquisa no Centro de Estudos em Finanças.”
Guilherme a descreve como alguém com “história de dificuldades e brilhantismo acadêmico”. Isaias a vê como “muito madura e corajosa” e acredita que a FGV lhe dará “boas oportunidades” e liberdade para escolher seu caminho.
Carol sente que já começa a inspirar: “Meus primos me viram estudando muito, conquistando coisas, e percebem que é possível. Eu gosto de ser esse exemplo positivo. Uma coisa que minha mãe sempre me ensinou é que eu não sou melhor do que ninguém nesse mundo, mas também ninguém nesse mundo é melhor do que eu. Então, se eu quiser, eu posso competir de igual para igual, sem problema nenhum. É só eu saber respeitar os outros e saber me impor para ser respeitada”, comenta.
Mais que uma bolsa, um legado
Hoje, a Passos Mágicos atende cerca de 20% das crianças em idade escolar de Embu-Guaçu. Para Guilherme, a conquista de Carol abriu novos horizontes: “Ela mostrou para outras crianças que é possível. Tenho convicção de que é a primeira de muitas.”
Carol, por sua vez, quer continuar estudando, fazer mestrado fora e retribuir: “Assim como fizeram por mim, quero ajudar outras crianças. A corrente do bem não pode parar.”
