"Não fui eu que encontrei a FGV. Foi a FGV que me encontrou." 

Pessoas reunidas

Ana Clara Oliveira sorri antes de repetir a frase que costuma usar para resumir a própria história. Aos 19 anos, ela atravessou o país para estudar Administração Pública na FGV EAESP, mas ainda fala da trajetória com o sotaque sergipano e o jeito tranquilo de quem parece não acreditar completamente no caminho que percorreu. 
 

Até poucos anos atrás, esse caminho parecia improvável. Ana Clara cresceu em Tanque Novo, um pequeno povoado no município de Riachão do Dantas, no interior de Sergipe. Filha de pais que sempre incentivaram seus estudos, passava horas na biblioteca da escola, embora ainda não soubesse exatamente qual profissão seguir. "Eu nunca consegui encontrar alguma coisa que brilhasse o olho ou o coração", conta. 

A primeira mudança veio aos 15 anos. Convencida de que precisava conhecer um mundo maior do que aquele onde havia crescido, pediu aos pais para estudar em outra cidade. "Eu sentia que precisava ir para outro lugar que tivesse mais a me oferecer. Eu queria ir mais longe." Todos os dias, saía de casa às seis da manhã e só voltava no início da noite. Estudava em tempo integral e aproveitava cada minuto. "Eu era aquela pessoa que morava na biblioteca, de capuz, sem falar com ninguém. Eu só estudava." 

Foi nessa escola que surgiu um projeto de educação para a cidadania. As visitas à Câmara de Vereadores, ao Tribunal de Contas e o contato com políticas públicas abriram uma janela para um universo que ela sequer conhecia. "Foi ali que tudo começou a mudar. Descobri profissões que nunca tinham me apresentado e comecei a enxergar outros caminhos." Mais do que descobrir uma carreira, Ana Clara encontrou um propósito. "Começou em mim um senso de coletividade gigante", lembra. 

Foi também nesse período que conheceu João Tavares, fundador da Rede Nacional de Educação Cidadã e alumni da FGV EAESP. Durante uma conversa, contou que pretendia cursar Direito. "Ele respondeu: 'Tem um curso que parece essa educação para cidadania de que você tanto gosta'. Era Administração Pública na FGV. Foi amor à primeira vista." 

Mesmo encantada com o curso, a ideia de estudar na FGV parecia distante. Ela acreditava que dificilmente conseguiria a nota necessária e, principalmente, não imaginava como poderia viver em São Paulo. "Eu pensava pequeno naquela época. Tinha receio de sonhar muito grande e não acontecer", confessa. 

Ainda assim, fez a inscrição utilizando a nota do Enem. Enquanto aguardava o resultado, continuou estudando, trabalhando com o João na Rede e mantendo os pés no chão. Até que, em janeiro de 2026, chegou a mensagem de aprovação. "Eu comecei a tremer inteira." 

A felicidade, porém, veio acompanhada de uma série de dúvidas. Em apenas duas semanas, precisaria reorganizar toda a vida para deixar Sergipe rumo à capital paulista. A bolsa integral da Fundação resolveu uma parte da equação. A outra parecia ainda mais difícil: como permanecer em São Paulo? 

Foi quando uma rede de pessoas entrou em cena. João a colocou em contato com a rede Alumni da FGV EAESP. Camila Figueiredo ajudou a conectar os caminhos que tornariam sua mudança possível. Entre essas conexões estava Vitor Ornelas, formado em Administração de Empresas pela FGV EAESP em 2018, que passou a oferecer um auxílio para sua permanência estudantil. "Hoje ele garante um teto para mim em São Paulo", resume Ana Clara, sorrindo. 

Para Vitor, a iniciativa é uma forma de retribuir tudo o que recebeu durante a graduação. "Assim você permite que outras pessoas também possam usufruir de tudo aquilo que a faculdade proporcionou para você”, ele explica. 

Dias depois, Ana Clara acordou para seu primeiro dia em São Paulo. Ainda deitada, olhou para o teto do quarto onde havia passado a primeira noite e respirou fundo. "Eu disse: 'É agora'." 

Naquele mesmo dia vieram as primeiras vezes. O metrô, as ruas desconhecidas, o receio de tirar o celular do bolso para olhar o mapa, o sapato machucando os pés e a sensação de estar completamente perdida. Ela chegou à FGV, mas teve a impressão de que todos já se conheciam e ela ainda tentava entender onde era o seu lugar. 

"O único momento em que pensei em desistir foi naquele primeiro dia. Mas eu disse para mim mesma: 'Para. Você vai fazer uma coisa de cada vez'." Ela fez. Poucos meses depois, voltou para Sergipe para passar as férias. Prestes a retornar para São Paulo, percebeu que algo mudou. "Aqui, em Sergipe, eu me sinto em casa. Mas hoje também sinto que estou voltando para minha outra casa, que é a FGV." 

Ana Clara diz que encontrou muito mais do que uma universidade. "A FGV me forneceu tudo o que eu precisava. Eu me sinto muito abraçada lá." Ela lembra do apoio psicológico, da bolsa de permanência, dos colegas e das iniciativas que fazem com que estudantes de diferentes realidades consigam se sentir parte da comunidade. Quando fala sobre as aulas, o brilho no olho aparece de novo. "Parece que encontrei uma mina de ouro. A qualidade das aulas é de um nível que eu nem consigo mensurar", conta. 

Ao olhar para trás, Ana Clara percebe que sua trajetória foi construída por pessoas que decidiram acreditar nela antes mesmo de conhecê-la profundamente. João, Camila e Vitor passaram a representar um mesmo valor. "Quando penso neles, vejo como me ensinaram a olhar mais para o outro." 

Talvez por isso, quando fala sobre o futuro, ela não mencione cargos ou reconhecimento. Sua resposta continua sendo a mesma que começou a construir ainda no ensino médio, quando descobriu a educação para a cidadania. "Eu quero servir”, ela resume. É uma frase simples, mas que também resume a história de quem encontrou na educação não apenas um caminho para transformar a própria vida, mas uma forma de transformar a vida de outras pessoas. 

Por Karina Francisco 

 

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